segunda-feira, junho 05, 2006

Noite de domingo

Noite de domingo.
Debruçado na janela, Valberto deu mais um pega na ponta do baseado. Que já começava a queimar seus dedos. Olhava as luzes da cidade, na direção da rua Augusta. O aparelho de som tocava Garageland, do Clash.
O banza miou quase junto com o CD. Estava pronto. Arremessou a ponta para a rua e fechou a janela. Vestiu o casaco, apagou a luz e saiu.
Caminhando pela avenida São João, observava as pessoas. Nigerianos com celular na orelha. Carroceiros e seus vira-latas. Adolescentes de preto bebendo vinho vagabundo. Crentes comendo espigas de milho na saída do culto. Mendigos. Travecos.
Gostava do centrão decadente.
Depois de passar pela playboyzada do Bar Brahma, virou à direita, na avenida Ipiranga. Mudou de calçada para não ficar do lado da praça da República, que é meio escuro.
Na outra calçada, passou pelos hippies. Sentados no chão, eles conversavam e vendiam seu artesanato de durepox.
- Ei, amigo! Dá uma olhada no meu trampo, sem compromisso... _ disse um deles, ao lado da entrada do metrô. Estava só, um pouco afastado dos outros.
- Valeu, irmão... _ respondeu, olhando de relance para o hippie.
- Arruma pelo menos um real, irmãozinho. Nem almocei hoje.
Valberto parou. Botou a mão no bolso da calça e tirou um punhado de moedas; uns 75 centavos.
- Isso é tudo que posso te dar.
Caminhando em direção ao hippie, percebeu que a cara deste, em meio aos cabelos compridos e ensebados, era toda tatuada. Estendeu a mão com a esmola para o sujeito, que deu um bote e agarrou seu pulso. As moedas caíram sobre as peças de durepox.
Com um tranco, o rapaz conseguiu se soltar. Pensou em chutar a cara daquele hippie maldito. Mas viu o maluco paralisado, com a boca aberta e os olhos esbugalhados, perdidos no vazio. Parecia estar alucinando.
Desencanou. Lentamente, deu meia volta. Ia continuar sua caminhada, quando o doido falou:
- Cuidado c'ua noite, irmãozinho... A cidade é pirigoooosa... _ e começou a gargalhar.
Olhou novamente o rosto tatuado e insano do hippie. Sentiu um calafrio.
Virou a cara e seguiu seu caminho. Aos poucos o som da gargalhada foi ficando para trás. Entrou na avenida São Luís, depois na rua Martins Fontes e logo estava na Augusta. Na subida da rua, passava pelas prostitutas. Algumas bem atraentes. Trocava olhares com elas. A maioria o ignorava. Os homens de terno, nas portas de boate, insistiam:
- Vamo entrá, meu camarada... Ganha uma cerveja grátis... Aqui é só gatinha....
Andou mais um pouco e chegou ao bar Ibotirama. Deu uma olhada pelo interior. Ninguém conhecido.
Muitos amigos freqüentavam aquela parte da Augusta. O tipo de amigo em quem sempre esbarrava por acaso. E cujo encontro podia significar uma visita ao inferno.
Mas não havia amigos à vista. Sentou-se junto ao balcão e pediu uma Skol. Bebia a cerveja devagar, no copo americano, olhando ao redor.
Achava aquele um bom boteco. Entre seus clientes, quase sempre havia garotas que tornavam a paisagem interessante. Também via muitos rostos familiares. De gente com quem nunca havia conversado, mas que costumava ver toda semana.
Estava quase acabando a primeira cerveja quando uma dessas caras conhecidas entrou no bar. Uma que lhe chamava atenção. De uma garota com olhos cinzentos e pele bem clara.
Era baixa. Devia ter uns 25 anos. O cabelo, um pouco acima dos ombros, era negro e liso. Usava saia preta até o joelho, tênis All Star surrado e agasalho.
Havia visto aquela garota em algumas baladas. Na Lôca e na Torre, pelo menos.
Ela entrou no Ibotirama com passos lentos e andar desleixado. Fumando um cigarro. Também sentou-se junto ao balcão, mais ou menos perto dele, e acenou para o balconista. Pediu vodca com gelo. E esperou, fumando seu cigarro com impaciência.
Nesse instante, virou o rosto e encarou Valberto por algumas frações de segundo. Desviou os olhos quando a vodca chegou.
Ele acabou com a primeira cerveja, pediu mais uma e ficou tomando. Seu olhar continuava a passear pelo boteco. Sempre voltando para a moça da vodca.
Ela sorvia a bebida devagar. Olhando para frente. Para a parede. Sua mente estava longe.
"Puta merda...", pensava seu observador, "que gatinha..." Imaginava-se dando leves mordidinhas e beijinhos por cada centímetro daquela pele branca, que devia ser cheia de pintinhas marrons. Perguntava-se que cor teriam os mamilos dela. Seriam clarinhos? Roxos? Achava que deviam ser grandes e cor de rosa, com bicos bem arredondados, não muito salientes. Mas, seja como fossem, chuparia muito aqueles mamilos.
Seus olhos já não passeavam mais pelo bar. Estavam fixos na menina. De pau duro, terminou a segunda garrafa de Skol e resolveu seguir o exemplo da garota. Também pediu uma vodca.
Nisso, com um movimento brusco, ela abriu sua pequena bolsa. De onde tirou um celular que vibrava.
Ele ficou atento.
- Oi... _ a voz não refletia muita emoção_ ... Tô no bar. ... Aqui no Ibotirama. ... Lôca? ... Beleza... Tô indo aí.
Depois de desligar o telefone, ela deu um longo suspiro. Matou sua vodca em uma talagada, chamou o balconista e pagou a conta com dinheiro. Quando se levantava do banco, depois de pegar o troco, deu mais uma breve olhada para ele. E foi embora.
Imediatamente, Valberto começou a pensar em ir atrás. O jeito que ela virou aquela vodca só o deixou mais atiçado. Olhou para o relógio de seu celular. Era quase dez horas. Na Lôca devia estar tocando rock. Tomou sua bebida sem muita pressa. Não queria sair de imediato, seguindo a garota. Sabia para onde ela ia.
E o balconista havia caprichado na vodca.

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Saiu do Ibotirama em direção à rua Frei Caneca. Em pouco tempo mostrava o RG para o segurança, na porta da Lôca.
O lugar estava lotado. Como sempre, por todo tipo de maluco. Gente que busca as últimas doses de loucura e diversão antes de a segunda-feira chegar.
Com um pouco de dificuldade, conseguiu abrir caminho entre a multidão até o balcão do bar. Pegou uma lata de cerveja.
Como imaginara, estava rolando rock. Entrou na pista escutando os primeiros acordes de Big Mouth Strikes Again, dos Smiths. As cervejas e a vodca do Ibotirama estavam fazendo efeito. Começou a dançar com fúria e os olhos sempre atentos à sua volta, procurando pela garota. E também olhando as outras.
Os sons seguintes o mantiveram em movimento. New Order, Joy Division, Strokes, Pixies... e Ramones. Não conseguiu sair da pista para pegar mais cerveja. A primeira lata ficou chocha na metade, de tanto que balançava.
Na hora em que o dj começou a tocar Ramones _ Blietzkrieg Bop _, como de costume, ficou possesso. A música acelerava seu sangue a uma velocidade absurda, eletrocutando-o, deixando-o maluco.
Valberto chacoalhava alucinado quando a notou. A garota estava lá, a alguns passos dele. Também dançando com fúria. E olhando em sua direção.
Encarando-a, foi se aproximando. A música acabou, dando lugar a um Clash. London Calling. Ambos continuaram dançando como loucos. Ele foi chegando bem perto da moça. Ela deu meia volta e ficou de costas, olhando-o por cima do ombro esquerdo.
Lentamente, Valberto encostou seu corpo ao dela. Mas a gatinha se afastou. Com um sorriso cheio de malícia, voltou a ficar de frente para ele, a uma certa distância. Os dois seguiram com a dança e a troca de olhares.
Até que um cara esquisito apareceu. Um sujeito de cabelos brancos. Devia ter uns cinqüenta e poucos anos. Usava roupas pretas. E já chegou dando um beijo na boca da menina do Ibotirama. Depois, os dois saíram da pista.
- Que merda... _ resmungou Valberto.
Já não dançava mais com tanta fúria.
Acabou o som do Clash. Sobre o palco da Lôca, começou a rolar a tradicional performance do travesti. Que sempre fala umas merdas e, depois, dança e dubla uma música. Aproveitou para ir ao bar, pegar mais uma cerveja.
Enquanto disputava espaço junto ao balcão, alguém deu um toque em seu ombro. Virou e viu Alex. Um cara bem grande, gordão e gente boa, que sempre estava na balada.
- E aê, brother? Tudo certo?
- Fala Alex! Como vai, mano? Resolveu visitar o inferno hoje?
- Pois é, bicho. É o que resta no domingão.
- Pode crer.
- E hoje até que não tem tanto veado. Tá cheio de minazinha. Agarrei uma muito gata...
Alex não tinha muito jeito com as mulheres. Costumava ser grosseiro. Do tipo que chega puxando cabelo ou passando a mão. Geralmente, só conseguia agarrar as bêbadas.
- Sério?
- Sério... Ela tá com uma amiga. Que também é muito gata.
- É mesmo? Deixa eu conhecer...
- Só que tem uma coisa estranha.
- O quê?
- Tem um cara esquisito com elas. Um argentino...
- E?
- Não sei... É um lance bizarro... Não sei o que rola entre elas e o cara.
- Como assim?
- Peraí que você vai ver...
Os dois pegaram suas cervejas. Valberto então seguiu Alex até o andar superior da Lôca. Entraram na sala ao lado da escada, que tem uns sofás. Em um deles estava sentado o tiozinho que beijou a garota do Ibotirama. Mas ela não estava por ali. Ao lado do cara havia uma mina de olhos claros e cabelo pintado de vermelho. Ao ver Alex chegando, ela logo se levantou, indo em direção a ele e o agarrando. Enfiando a língua em sua boca.
Enquanto os dois se agarravam, Valberto notou que o coroa de preto o observava.
Ia sair andando. Mas ouviu a voz do tio.
- Ei, amigo!
"O que será que esse filho da puta quer comigo?", pensou.
- Diz aí...
O cara fez sinal para que Valberto chegasse mais perto. E disse:
- Amigo, usted e Alice estaban dançando bonito, lá embajo... Usted só precisa engordar un poco más _ dito isso, o cara deu um tapinha em seu ombro e uma risadinha estranha.
Valberto não entendeu nada. "Que coisa bizarra..." Saiu andando, enquanto o sujeito ria e Alex beijava a gatinha. "Engordar un poco más? Será que ele tá zoando o Alex?"
Antes de descer a escada, o rapaz novamente a viu. A gata do Ibotirama, que agora sabia: chamava-se Alice. Ela estava junto ao bar do andar superior. Beijando a boca de uma garota alta e gorda, tipo musa de Robert Crumb.
"É... Acho que preciso dar uma engordada mesmo..."
Resolveu pegar a fila do banheiro ao lado daquele bar. Só para ficar olhando a mina. A gorda que ela beijava também era bem jeitosa. Grandona. Curvas bacanas. A saia curta deixava à mostra um belo par de pernas tatuadas. O rabo era grande e redondo. Peitões violentos. Ainda tinha um rosto bonito. Logo começou a se imaginar trepando com as duas de uma vez.
Alice estava de costas para ele. Mas a grandona percebeu seu olhar. Com cara de safada, cochichou algo no ouvido da mina, que virou e lhe deu um sorriso.
Valberto sorriu de volta. Alice então disse algo à garota e caminhou em sua direção.
- Oi, Alice.
- Como você sabe meu nome?
- Seu namorado me falou.
- O cara que me beijou na pista?
- É...
- Ele não é meu namorado.
- Que bom...
- Do jeito que você me olha, parece um tarado...
- Você não gosta?
- Gosto sim.
- Percebi...
- Olha, gatinho. Até que você é interessante. Pena que hoje eu tô ocupada.
- Tô vendo _ disse, desviando o olhar e sorrindo com malícia para a gordinha. Esta continuava com cara de safada, olhando para eles.
- Ei, tira o olho dela... _ disse Alice.
- Gatinha, a gente podia se juntar, nós três, pra se divertir de verdade. O que acha?
Ela ficou séria.
- Já disse que eu tô ocupada. Hoje não posso.
- É uma pena...
- Deixa pra lá. A gente se vê.
Alice deu um sorrisinho, meia volta e saiu andando. Foi até o balcão, pegou a grandona pela mão e as duas desceram a escada. Valberto deu um gole de sua cerveja.
Após uma longa espera, conseguiu chegar até a latrina e dar uma mijada. Depois, voltou para o térreo. Enquanto descia a escada, viu Alex com a mina de cabelo vermelho. Estavam em um sofá da salinha ao lado. Agarrando-se. Quase trepando em público.
- É... O brother se deu bem...
Circulou por cerca de meia hora entre os malucos da Lôca. Até que ficou de saco cheio. Via várias garotas bonitas. Mas nenhuma o notava. Na pista, tocava Erasure. Para ele, era a hora chata do lugar. Não era um cara preconceituoso, mas tinha bode daquele sonzinho.
Circulou um pouco mais e acabou encostando num canto com sua cerveja, perto de uma das portas da pista. Quando terminou a lata, enfrentou de novo a multidão do bar e pegou uma dose de vodca. Voltou para o mesmo canto.
O DJ só tocava sons de FM dos anos 90. Puro lixo. Que não tinha fúria. Não acelerava o sangue. Não valia porra nenhuma. Seus pensamentos foram ficando amargos. Refletia se já não estava velho demais para aquela merda. Se valia a pena ficar ali, olhando para garotas que não o olhavam. Naquela noite, só Alice e a grandona haviam lhe dado bola. "Bom... Até que não tô tão mal assim..."
Terminou a vodca. Pegou outra. Ia voltar para o mesmo canto. Mas um casal de gays havia tomado seu lugar. Foi para outra sala do térreo, próximo à saída da casa, e encostou na parede. Perto de uma máquina de pinball e de uma estátua da Medusa.
Estava ali, bebendo sua vodca e pensando em coisas ruins, quando eles apareceram. O tio argentino vinha na frente, seguido por dois casais: Alice e a grandona, Alex e a menina do cabelo vermelho. Eles iam em direção ao caixa. Valberto virou sua vodca e foi atrás. "Não tem mais por que eu continuar aqui."
Alex notou sua aproximação.
- E aí, mano? Já tá indo?_ estava feliz, agarrado à garota.
- Pois é... Talvez eu vá na Funhouse... Ouvir uns riffs de guitarra.
- Por que você não vem com a gente? Peraí... _ virou para o tiozinho e perguntou _ Ei, Juan; meu camarada pode ir com a gente?
Só aí Alice e sua garotona crumbiana notaram que ele estava por perto. A grandona estava muito louca. Aproximou-se de Valberto e, sem mais nem menos, o agarrou e começou a beijá-lo. Um beijo daqueles longos, demorados. Quando finalmente se largaram, ela virou para Alice e falou:
- Esse gatinho beija muuuito bem...
E para o tiozinho argentino:
- Juaaaan, deixa ele ir com a gente?
Juan, com cara fechada, chegou perto, olhou Valberto no fundo dos olhos. E deu um tapinha na barriga de cerveja do rapaz, que, instintivamente, afastou-se um pouco. Depois o estrangeiro sorriu. Um sorriso estranho.
- Tá... Puede vir.
Valberto voltou a olhar para Alice. Ela estava esquisita. De cara feia.

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Virar aquela última vodca de uma vez fez com que Valberto finalmente começasse a se sentir embriagado de verdade. Na calçada, do lado de fora da Lôca, Juan pegou um celular e ligou para alguém.
Chegando perto de Alice, Valberto perguntou:
- Quem é esse cara?
- Se eu fosse você, não ia _ ela respondeu baixo.
- Por quê?
Alice virou a cara, ignorando-o. Então ele se dirigiu a Alex.
- Ei, mano. Que rola na casa desse Juan?
- Ele disse que tem skunk, haxixe e bebidas finas...
- Beleza...
Desligando o celular, Juan falou:
- A van estaba en la rua de bajo. Já tá llegando.
- Uma van vem buscar a gente?_ perguntou Valberto.
- Sí.
- Tá certo...
- Te gusta uísque?
- Sim.
- Blue Label?
- Nunca tomei.
- Vai tomar em mi casa...
- Bom...
- Uísque engorda. Usted sabia?
Não respondeu. De novo aquele papo estranho do caralho.
Pouco depois, uma van preta, de vidros fumê, estacionou em frente ao grupo. O argentino abriu a porta lateral e todos entraram. Depois sentou na frente, ao lado do motorista. Este era um negrão que, pelo tamanho das costas, devia ser um armário.
Alex e sua mina sentaram no fundo da van e logo voltaram a se agarrar. Valberto sentou junto com Alice e a grandona, que se chamava Denise. As minas começaram a se beijar. Chegando por trás de Denise, ele enfiou sua língua no meio daquele beijo. Pirou no meio das minas. Beijava. Apertava. Chupava. Mordia.
O beijo e o perfume de Alice o enlouqueciam.
Pelo espelho do pára-brisa, Juan observava tudo.

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Não demorou muito e a van parou diante de um grande portão de ferro. Numa área cheia de casarões chiques do Pacaembu, logo embaixo do cemitério do Araçá. O negrão apertou o botão de um controle. O portão abriu.
O quintal era grande. Com um belo jardim. Cercado por uma muralha que tinha, no mínimo, uns cinco metros de altura. Com arames elétricos no alto.
A van parou no meio do quintal. Juan desceu e abriu a porta lateral. Os cinco convidados saíram. Valberto olhou a fachada da mansão. Dois andares. Janelas grandes.
De repente, dois monstros surgiram. Rottweillers gigantescos e ameaçadores que saíram de trás da casa. Rosnando. Valberto estremeceu. O efeito da bebedeira até perdeu a intensidade.
Juan falou algo em espanhol. E os cães do inferno pararam e se sentaram. Continuaram a rosnar para o grupo.
- No precisan ter medo. Són mi amiguitos Tigre y León, eheheheh.... _ disse o argentino, caminhando até os cachorros e fazendo carinho neles. Os animais mantinham os olhos fixos nos visitantes. O gringo então cochicou mais um pouco com os bichos, acalmando-os, e os deixou de lado.
- Sigan-me, sigan-me. Sintan-se en su casa...
O grupo seguiu Juan até a porta da mansão, enquanto o motora partia com a van para os fundos. O hall de entrada tinha um belo lustre e uma escada de madeira, que levava ao andar superior... Tudo era decorado com estátuas, tapetes, quadros e móveis antigos que deviam valer uma fortuna.
Entraram em uma pequena sala contígua ao hall, onde havia um belíssimo bar de madeira. Com garrafas de uísque, gim, vodca, conhaque, rum, enfim... O que um homem precisa para ser realmente feliz.
Alex e sua mina, cujo nome Valberto ainda não sabia, sentaram-se num sofá. Alice e Denise em outro. Juan sentou seu rabo numa bonita poltrona de couro. Valberto perguntou onde ficava o banheiro. O gringo deu as coordenadas.
O rapaz saiu da saleta e passou por uma porta ao lado da escada do hall. Caiu em uma sala de jantar, com uma mesa enorme no centro. Atravessou a sala e entrou num corredor. Passou pela porta da cozinha e, dentro dela, viu uma velha de camisola rosa. Havia algo de sinistro nela. Afiava uma faca. Aliás, uma baita faca.
Sem ser notado pela idosa, Valberto continuou a seguir pelo corredor. Como Juan lhe instruíra, entrou na segunda porta à esquerda, depois da cozinha.
Deu uma bela mijada na privada de mármore. Na saída, em vez de voltar direto à sala, ficou admirando as estatuetas e quadros do corredor. Viu que a última porta deste estava aberta, com luz acesa. Dava numa escada que levava ao subsolo. "Deve ser um porão..." Chegou perto da porta e ouviu um barulho vindo lá debaixo.
- Posso ajudar o senhor?
Quase deu um pulo com o susto. Era o negrão da van, que se aproximou por trás, sem ele perceber. Ainda não havia visto o cara de frente. Ele devia ter uns 40 anos de idade e dois metros e pouco de altura. Era careca. Seu rosto parecia feito de pedra. Era como se tivesse saído dos quadrinhos do Frank Miller. Um personagem do Sin City. Tyson tremeria diante dele.
- Oi... Eu... Hã... Tava... Hã...
- O senhor Juan espera o senhor com os outros convidados _ a voz do cara era rouca, quase um rosnado.
- É... Valeu....
Tornou a passar pela porta da cozinha. A velha que afiava a faca não estava mais lá.

-----x------

Voltou à sala.
O pessoal tomava Johnny Walker blue label e fumava algo que tinha um cheiro muito bom. Ouviam jazz. Charlie Parker.
- Olá, mi amigo! Estaba perdido?
- É... Esse lugar é muito grande.
- Valbertão, junte-se a nós! _ disse Alex, muito louco.
Sentou-se com Alice e Denise. A gatinha do Ibotirama estava estranha, quieta, no canto do sofá. Denise, sentada entre ela e Valberto, mandava ver no blue label.
Juan encheu mais um copo de uísque.
- Hielo? _ perguntou a Valberto.
- Deixa eu tomar um cowboy primeiro. Pra experimentar...
Sorridente, o argentino lotou o copo do visitante de blue label.
Valberto bebeu o uiscão com gosto. O baseado chegou até ele.
- Skunk de Amsterdan, con haxixe de Marrocos _ apresentou Juan.
"Que doideira", pensava o rapaz. Algumas horas antes subia a Augusta sozinho, sem saber o que aconteceria naquela noite de domingo. De repente, estava na casa de um argentino maluco, bebendo uísque caro e fumando um bagulho importado. Era bom demais pra ser verdade. Passou o beck para Denise.
Alice, introspectiva, olhava para o vazio. Não fumava nem bebia.
Juan contava sua vida em portunhol. Dizia ser um famoso chef de cozinha na Argentina. Cozinhava tão bem que ficou milionário. Só preparava rangos para gente fina, da elite. Era especialista em carnes.
- Voxê tem reshtaurante? _ perguntou Alex, já começando a enrolar a língua.
- No. Jo cocino para un grupo restrito de personas.
- Quem?
- Personas muy ricas. Que gustan pratos especiales. Políticos, artistas, banqueros...
No final de seu segundo uísque, Valberto sentiu a cabeça pesar. Tudo se misturava em seu cérebro. O blue label, as vodcas, cervejas, o skunk haxixado, a voz do argentino... Matou a bebida e botou o copo em cima da mesinha em frente ao sofá.
- Quieres más?
- Não Juan, brigado...
- No quieres? Por qué?!
- Juan, já tô muito loco. Esse blue label é bom pra caralho, não sei quando vou poder tomar de novo. Mas não quero capotar e, muito menos, vomitar na sua casa...
- No te preocupes, amigo...
Insistente, Juan ia servir mais uísque ao rapaz. Mas Valberto puxou o copo.
- Não Juan, brigado. Eu sei qual é minha hora de parar. E é agora.
O argentino pareceu contrariado. Seu semblante perdeu um pouco da simpatia.
- Se no quieres más, todo bién...
Ficaram na sala por quase uma hora. Denise bebia rápido. Matou umas cinco doses de uísque. Até que levantou e perguntou onde era o banheiro. Deu alguns passos tortos, perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Rápido, o argentino e Valberto a levantaram _ ela era pesada. De novo em pé, a garota cambaleava.
- Anselmo!!! _ gritou o argentino.
Logo apareceu o negrão.
Juan falou para ele levar a garota até o banheiro e depois, se ela quisesse, a um quarto. Com o olhar, Valberto acompanhou a saída dela, amparada por Anselmo. "Que pena... Não vai mais dar pra comer as duas juntas", pensou. Olhou para Alice, que continuava estranha. "E se essa mina continuar desse jeito, acho que não vou é comer ninguém hoje."
Voltou a sentar no sofá. Ao lado da gatinha.
- Que que você tem? _ perguntou-lhe baixinho.
- Nada _ respondeu a mina, olhando para o chão.
- Tá brava porque a Denise encheu a cara?
- Não.
- Posso te dar um beijo?
Alice tirou os olhos do chão e o encarou. Parecia triste. Ficou um tempo olhando para ele. Até lhe dar um longo beijo na boca. Os dois se agarraram com vontade.
Juan continuava a falar sem parar com Alex. Que estava cada vez mais chapado. O argentino bolou outro banza de skunk com haxixe.
Valberto parou de beijar Alice quando o beck chegou em sua mão. Enquanto dava um pega, não notou a troca de olhares entre Juan e a garota. Nem o sinal que o gringo fez para ela, com a cabeça, mandando que levasse o rapaz para fora da sala.
- Vamos prum quarto... _ sugeriu Alice, baixinho no ouvido de Valberto, assim que ele passou o baseado adiante.
- Demorou, gatinha.
Saíram da sala de mãos dadas.
Juan sorriu.

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Subiram a escada do hall. Caíram num corredor cheio de quartos. Alice o puxava pela mão. Levou-o a uma belíssima suíte. Com uma cama gigante. Ele fechou a porta. Quis trancá-la. Mas não havia chave.
Virou para Alice. Ela estava parada, de pé, ao lado da cama. Continuava com uma cara estranha. Parecia querer lhe dizer algo.
Valberto caminhou devagar até a garota. Acariciou o rosto dela.
- Valberto... Preciso te contar um negócio...
- Depois.
E começou a dar beijinhos na gatinha. Puxando-a lentamente até a cama. Tirou sua camiseta. Seu sutiã.
Os mamilos eram grandes. Não cor de rosa, como imaginara. Tinham uma cor maravilhosa. Um roxo claro e ao mesmo tempo acinzentado. Nunca vira coisa igual. E nunca chupou tanto um par de seios.
Foi uma trepada longa. Marcante. Daquelas que deixa o cara a semana inteira com um sorriso besta no rosto. Pôs em prática tudo que havia passado pela sua cabeça quando observava Alice no Ibotirama. A pele branca dela realmente tinha muitas manchinhas marrons. Chupou todas elas.
Depois do orgasmo, ficaram abraçados. Seus corpos nus coladinhos. Mas, de repente, Alice desgrudou-se dele e sentou na cama. Parecia perturbada.
- Que foi, gatinha?
- Você tem que sair daqui.
- Quê....?
- Senão você vai morrer...
Ela tremia. Havia insanidade em seu olhar.
- Quem? O quê? Que cê tá falando?
- Não adianta explicar. Você não vai acreditar, não vai entender... Mas tem que fugir daqui...
- Peraí... Que papo é esse?
- Fala baixo.
- Tá... Mas que história é essa?
Ela levantou da cama e começou a juntar as roupas de Valberto. Falava baixo, sem parar:
- Quando entrarem aqui, vão me encontrar sozinha. Vou fingir que dormi e você escapou...
- Porra, Alice. Não tô entendendo nada _ meio puto, Valberto começou a se vestir.
- Você não tem que entender porra nenhuma. Vai embora!
- E como eu saio daqui sem ninguém saber? Tem dois rottweillers gigantes lá fora.
- É verdade...
Alice voltou a se sentar na cama, pensativa. Murmurou algumas coisas para si mesma. Valberto calçou o tênis.
- Faz o seguinte... _ começou a garota, após sair do transe _ ... Vai pra cozinha... As chaves ficam todas penduradas na parede, em cima da pia. Pega a da van. A porta da cozinha dá no corredor do quintal. No fundo tá a garagem. Você vai ter que correr um pedaço até lá. Aí é só pegar a van. O controle que abre o portão tá dentro dela...
- Vou roubar a van do Juan?
- Vai.
- Mas aí eu tô fodido. Posso ser preso.
- Se você não fizer isso, vai morrer.
- E os cachorros?
- É por isso que você vai ter que correr da cozinha até a garagem.
Valberto começava a ter certeza de que Alice era completamente maluca. Nem fodendo ia correr risco de ser morto pelos rottweillers ou roubaria a van do argentino. Mas a mina olhou no fundo de seus olhos e suplicou:
- Faz o que tô dizendo. Cai fora daqui. Talvez a gente volte a se ver um dia...
- Tá bom, gatinha. Calma... Posso fazer o que cê tá pedindo. Mas tava tão bom nós dois juntinhos na cama... Você quer mesmo que eu vá embora?
- Você não entende. Por favor... É pro seu bem _ os olhos dela ficavam cada vez mais insanos. Estava desesperada.
- Tá bom.
Quando o rapaz ia se virar para sair fora, Alice o agarrou e lhe deu mais um longo beijo.
- Gosto de você. Nunca tinha gozado desse jeito antes... Agora vai... Cuidado pra ninguém te ver.
Valberto saiu do quarto.
Trocaria uma idéia com Juan. Perguntaria se Alice tinha algum distúrbio. "A mina é treze. Não tem jeito, adoro mulher transtornada..."
Do corredor do andar de cima, ele escutou o jazz baixinho. "Acho que eles ainda tão na sala." Prestes a descer a escada, porém, viu uma cena estranha.

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O negrão gigante saiu da sala carregando Alex nas costas _ uma bela demonstração de força, já que o gordão, com certeza, pesava mais de 100 quilos. Devia ter bebido até capotar.
Logo atrás vinha o argentino e a gata do Alex. Eles pararam no hall, enquanto Anselmo entrava na sala de jantar com o gordão nas costas. Quieto, Valberto olhava tudo do andar superior. Não haviam notado sua presença. Juan tinha algo na mão direita. Um pequeno embrulho de plástico transparente, com o que parecia ser um monte de pastilhas azuis, amarelas e cor de rosa. "Caralho, não dá pra ver direito, mas parece um monte de ecstasy", pensou. Provavelmente, havia quase mil balas no pacote.
O rapaz se agachou atrás do corrimão e tentou escutar o diálogo do casal.
- Aqui, mi caçadora. Más una vez, usted fez un belo trabajo.
- Brigada, Juan _, disse a mina, pegando o pacote. Tinha os olhos arregalados e tremia. Estava eufórica. Logo enfiou o saquinho na bolsa _ E a Alice?
- Alice está muy estraña. Ainda voy hablar con ela.
- Tá bom...
E os dois se beijaram na seqüência. Um beijão de língua. Depois Juan saiu com a mina pela porta da frente.
Assim que eles deixaram o hall, Valberto começou a descer a escada devagar. Foi ver onde Anselmo levava Alex. Estava confuso. Lembrava do que Alice lhe dissera. "Você vai morrer."
Passou pela sala de jantar e entrou no corredor. Caminhou até a última porta à esquerda. Aquela que levava ao subsolo. O coração começou a bater rápido e forte.
Escutou barulhos vindo lá de baixo. Resolveu descer. Degrau após degrau, a sensação ruim aumentava. Escorando na parede, chegou até uma pequena câmara escura. Uma adega. Com quatro prateleiras cheias de garrafas de vinho.
Do outro lado da adega havia mais uma porta. Aberta. Para uma sala bem maior e iluminada. Esgueirando-se pela escuridão, Valberto chegou até o canto da porta e começou a espiar. De um lado da sala havia um grande freezer. Um painelzinho digital indicava a temperatura: quatro vírgula três graus negativos.
Cauteloso, o rapaz olhou para o outro lado do cômodo. Alex estava deitado no chão, aos pés do negrão, que terminava de despi-lo. Completamente bêbado, murmurava coisas inaudíveis.
A velha de camisola rosa também estava lá. De costas para Valberto e de frente para uma mesa, sobre a qual havia uma garota grande, gorda e nua deitada. As pernas tatuadas não deixavam dúvidas. Era Denise.
A moça estava inerte. A velha fazia alguma coisa com ela. Não dava pra enxergar direito por causa da distância.
Anselmo começou a puxar uma corrente do teto até o chão. Esta passava por uma roldana. Na ponta que o negrão puxava havia uma espécie de algema, com a qual Alex foi preso pelos calcanhares. Em seguida, em mais uma demonstração de força, o gigante começou a puxar a outra extremidade da corrente. Aos poucos, Alex foi sendo suspenso pelos pés. Até ficar pendurado, de cabeça para baixo.
Segurando a corrente só com a mão esquerda _ o cara era um animal _, Anselmo ergueu a direita até a roldana e acionou uma trava. Pendurado, Alex ainda balbuciava em seus delírios de bêbado.
Nisso, a velha saiu da frente de Denise. Valberto não conseguia ver direito. Mas podia jurar que a garota estava morta. A idosa usava avental sujo de sangue e luvas de plástico. Em suas mãos, segurava o que parecia ser um monte de vísceras, que ela logo jogou em um tanque ao lado da mesa.
Foi tudo muito rápido. A velhota pegou um balde de ferro e uma faca _ devia ser a mesma que afiava na cozinha. Então caminhou até Alex e pôs o balde debaixo da cabeça dele. Com a faca, ela abriu a garganta do gordão, que começou a ter espasmos. O corpo todo tremia, enquanto o sangue jorrava do pescoço, direto para o balde. Da boca dele saía um som horrível. Parecia um porco sendo sacrificado.
Em seguida, como se fosse algo rotineiro, a velha voltou a para a mesa onde estava Denise.
Valberto estava quase vomitando. Assistia àquilo com a mão na boca e os olhos arregalados. Nisso, ouviu um barulho vindo da escada. Alguém estava descendo ao porão. Instintivamente, escondeu-se atrás de uma prateleira da adega. Por entre as garrafas, viu Juan passar e entrar na sala da carnificina.
Esperou uns segundos e voltou para o canto da porta.
Parado em frente a Alex, Juan o via sangrar. O gordo já não tinha mais espasmos. Estava morto. O argentino então deu uns tapinhas nas nádegas do cadáver, virou para Anselmo e disse:
- Amanhã teremos un gran banquete _ e caminhou até a mesa onde estava Denise.
- Essa aqui já tá limpa, Seu Juan _, disse a idosa.
- Muy bien.
O argentino então caminhou até uma prateleira em outro canto da sala e voltou com um cutelo na mão. Parou ao lado de Denise. Desferiu uns três golpes. E arremessou a cabeça da garota para o tanque. Depois fez o mesmo com as mãos e os pés dela.
Terminado o serviço, llargou o cutelo, deu mais algumas instruções à velha, apontando para o corpo de Denise, e falou para o negrão, que permanecia ali, parado como uma estátua:
- Anselmo, bamos subir ahora. Precisamos pegar o otro.
- Tem mais um, Seu Juan? _ perguntou a velha.
- Si, pero no és grande nin gordo. Só voy usar las nadegas y las coxas para hacer carpaccio. O resto voy dar a Tigre y León.
"Filho da puta, qué fazê carpaccio com meu rabo e dar o resto pros cachorros...", revoltou-se Valberto, que tornou a se esconder atrás da prateleira de vinho, esperando que o argentino e o negrão passassem pela adega.
Quando terminou de ouvir os passos dos dois escada acima. Saiu do esconderijo. Pensou em fazer o que Alice lhe dissera: Pegar a chave da van na cozinha e vazar dali o mais rápido possível. Mas, quando ia subir a escada, tomou uma decisão e voltou.
Entrou na sala da carnificina. A velha continuava a trabalhar em Denise. E não percebeu a aproximação dele. Quando o notou, ele já tinha pego o cutelo.
Com um golpe certeiro, Valberto abriu a testa da velhota. Que caiu no chão, tendo convulsões. Ele então olhou para o corpo sem cabeça de Denise. A idosa já havia retirado parte da pele da mina. Havia um buracão na barriga. Chegou mais perto do tanque e viu a cabeça e aquele monte de tripas e órgãos. Deu uma uma bela vomitada. Bem ao lado da velha agonizante.
Ficou alguns segundos sem saber o que fazer. Então pegou a faca e o cutelo. Ainda foi até a prateleira e pegou outra faca. Guardou o cutelo no bolso do casaco. Deu mais uma olhada para Alex. O sangue continuava a escorrer da garganta do mano. Mas só um filete.
Antes de sair da sala, resolveu abrir o freezer. Havia mais dois corpos grandes e gordos. Sem pele, sem mãos, sem cabeça e sem vísceras. Gado no frigorífico.
Deu mais uma vomitada.
Saiu do porão com uma faca em cada mão, disposto a enfiá-las em "Tigre y León", caso os rottweillers o alcançassem.
Quando chegou à porta da cozinha, porém, ouviu os gritos de Juan e Alice no andar superior.
- NÃAAAO!
- DONDE ÉL ESTÁ, PUTA MALDITA?
"Merda", pensou Valberto. Alice estava fodida. Eles podiam matá-la. Olhou a pia da cozinha. Como a mina falara, havia um monte de chaves na parede. "Foda-se."
Valberto foi para o hall e começou a subir a escada, ouvindo os gritos de Alice cada vez mais alto.
Chegou à porta do quarto. A menina estava no chão. Anselmo torcia o braço dela, enquanto Juan, agachado, dava-lhe tapas na cara, xingava-a e perguntava:
- DONDE ÉL ESTÁ ESCONDIDO?!
- Tô aqui, seu gringo filha da puta!

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Ao vê-lo, com uma faca em cada mão, o argentino arregalou os olhos. Valberto avançou e enfiou uma das lâminas na garganta dele. O sangue começou a jorrar. Caído ao lado da cama, Juan tentava inutilmente estancá-lo com as mãos.
Depois, Valberto encarou Anselmo.
O negrão largou o braço de Denise e começou a se aproximar bem devagar, com as mãos prontas para tentar desarmá-lo. Ele foi recuando até encostar na parede. "Fodeu. É agora ou nunca", pensou. E foi para cima de Anselmo. Primeiro tentou esfaqueá-lo com a mão direita. O negrão se esquivou e agarrou seu braço. Valberto então enfiou-lhe a faca da esquerda por entre as costelas. Mas foi como se não tivesse acontecido nada.
Anselmo torceu seu braço direito até que largasse a outra faca. Em seguida, pegou o rapaz pelo pescoço e o ergueu, começando a estrangulá-lo.
A vista de Valberto estava prestes a escurecer, quando ele se lembrou do cutelo. Enfiou a mão no bolso do casaco e sacou o instrumento. Tentou acertar a cabeça de Anselmo, mas acabou atingindo o gigante entre o pescoço e o ombro.
Os braços do oponente amoleceram e o rapaz conseguiu se desvencilhar de suas mãos. Caiu no chão ainda meio sem ar. Anselmo cambaleou para trás. Valberto, meio tonto, esticou a mão até a faca que havia caído no chão. Cravou a lâmina na coxa do negro, que soltou um grunhido. A primeira demonstração de que sentia dor.
O rapaz então conseguiu se levantar e ir até Alice, pegando a mão da garota e puxando-a. Ela estava em estado de choque.
- VAMO, PORRA! ACORDA!
Ainda meio em transe, ela obedeceu. E eles saíram correndo do quarto, enquanto o negro se recompunha, arrancando as lâminas que estavam cravadas nele.
Sentado no chão, encostado na parede, Juan ainda tentava estancar o sangue de seu pescoço. Com ódio no olhar, viu Valberto e a garota deixarem o cômodo.
Logo o casal chegou à cozinha. Havia três chaves de carro na parede.
- Qual é agora, porra? _ perguntou desesperado.
- Essa _ disse Alice, apontando uma chave com o símbolo da Mitsubishi.
A hora de enfrentar os cães havia chegado. Tentando ficar calmo, ele disse à menina:
- Falta pouco. Vamos tentar sair devagar. Sem fazer barulho. Se a gente trombar os cachorros, não corre, senão vai ser pior.
Alice não respondeu. Só tremia. Suas pupilas estavam enormes. Só nessa hora Valberto se ligou que a mina estava muito louca de ecstasy. Devia ter tomado na Lôca.
- Seja o que Deus quiser _ disse o rapaz.
Procurando não fazer barulho, ele abriu a porta da cozinha. O dia já tinha amanhecido havia bastante tempo. Olhou para o corredor do quintal. Viu a van e mais dois modelos importados na garagem. Nem sinal dos cães. Foi puxando Alice. Bem devagar.
Estavam quase na metade do caminho quando ouviram o rosnado. Vinha de trás. Viraram-se e viram os cães. Ambos parados, no início do corredor, olhando fixamente para o casal e mostrando os dentes.
Alice tremia demais. Parecia que ia ter um ataque. Valberto ficou paralisado. Ele e os monstros se encaravam. Sabia que, se dessem um passo, os cães atacariam.
Foi nesse momento que Anselmo abriu a porta da cozinha. Cambaleando e sangrando, com o cutelo na mão.
Os cães devem ter ficado loucos com o cheiro do sangue do negrão. Pois assim que o gigante saiu da casa, arrastando a perna ferida pelo corredor, voaram em suas costas. Valberto aproveitou a deixa e saiu correndo, puxando Alice. Um dos rottweillers chegou deixar Anselmo de lado para correr atrás deles. Mas o rapaz conseguiu bater a porta da van a tempo de ele e a mina escaparem do animal. Enfiou a chave na ignição e deu partida. Saiu cantando os pneus. E passou por cima de Anselmo, enquanto este ainda lutava com o monstro.
Quase perdeu a direção ao atropelar o negro. Foi como se tivesse batido em um poste. Parou em frente à casa. Os cães latiam ao lado da van. Achou o controle no console do painel e apertou o botão. Os portões se abriram.
- Acabou...

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- Onde você mora?
- Na Bela Cintra.
A fala de Alice era um sussurro.
- Na parte dos Jardins ou do centro?
- Um pouco pra baixo da Funhouse.
Essa foi a única conversa que tiveram na van. Depois disso, Alice só disse "é aqui", quando passavam em frente ao prédio dela. Valberto parou. Ela fez um carinho no rosto dele e desceu. O rapaz dirigiu mais uma quadra e estacionou a van.
Trancou o carro, jogou a chave num bueiro e foi andando até a rua da Consolação. No caminho do ponto de ônibus notou as manchas de sangue na camiseta e fechou o casaco para escondê-las. Viu no relógio de rua que era nove e quarenta da manhã. Dali a vinte minutos teria que entrar no trampo. "Vou inventar uma desculpa. Não dá pra trabalhar hoje."
O busão chegou rápido. Levou-o até a praça Ramos. No caminho, pensou em Alice. Não sabia se queria vê-la de novo. "A mina levava os gordos para o abate em troca de ecstasy. Que loucura..." Da praça Ramos, foi pela rua Barão de Itapetininga até a República. Quase na esquina da Ipiranga com a São João, reconheceu o hippie maluco da noite anterior. Andando na calçada com as peças de durepox embrulhadas em um pano.
Ia passar reto, mas resolveu abordar o sujeito, que não o reconheceu.
- Pois não, sangue bom?
Valberto então sacou uma nota de dez da carteira e lhe deu.
- Hoje eu pago seu almoço, irmão.
Deu um tapinha no ombro do hippie e foi embora.

domingo, novembro 06, 2005

Um bom policial

Relutante, Jailton entrou na viela sem iluminação. O coração batia tão forte que o peito até doía. Suava. As pernas tremiam. Segurava o 38 com ambas as mãos e avançava devagar. À sua frente, a escuridão era quase total.
Havia saído da viatura e corrido atrás do ladrão por três quarteirões, até que o viu entrando ali. Sabia que o bandido estava armado. E imaginava um tiro partindo daquele breu em sua direção.
Tudo começou quando patrulhava a avenida Sapopemba com seu parceiro. Ao passarem por uma esquina, na área do Parque Santa Madalena, os dois viram o assaltante. Que apontava o cano para o motorista de um Honda Civic. Ao notar a viatura da PM, o bandido saiu correndo. Os dois soldados desceram do carro e, enquanto Rocha, o colega, ia até a janela do Honda, Jailton partiu atrás do mala.
Depois de duas semanas percorrendo as ruas daquela área da zona leste sem quase nenhum QRU, o PM encarava sua primeira prova real. Até então só havia atirado no recente treinamento. Evangélico, a última coisa que queria era matar alguém. Mas desempregado, tendo que alimentar os dois filhos pequenos, viu-se obrigado a prestar o concurso. Agora estava lá, no meio de uma viela escura, prestes a matar ou morrer.
A cada passo que dava, imaginava o mala saltando da escuridão e disparando. Estava desesperado. Quase no fim da viela, onde o breu era ainda mais intenso, ouviu passos. De repente, notou que um vulto avançava rápido em sua direção. Tentou gritar algo como "parado!", mas a voz não saiu. Então atirou. Uma, duas, três vezes. Escutou o tombo do corpo.
Esgotado, o soldado sentou-se no chão. O suor encharcava sua farda. Viu as luzes do giroflex na entrada da viela. Era Rocha que o procurava. Levantou-se e caminhou até a viatura.
- Onde você tava?
- Acho que matei ele. Matei o mala.
- Onde?
- Aqui nessa viela...
- Vamo dá uma olhada...
Rocha pegou uma lanterna e desceu do Vectra. Jailton abriu a porta e sentou no banco do passageiro. Não quis acompanhar o colega. Mas seu descanso durou muito pouco.
- Puta que pariu! Vem aqui!
Jailton estremeceu. Saiu da viatura e foi até o parceiro. Que iluminava o corpo de um rapaz negro, com a camiseta branca manchada de sangue. Ao lado, cadernos e material escolar.
- Você não matou o mala. Matou um moleque, porra... _ disse Rocha.
O soldado não conseguia acreditar que fizera aquilo. Ajoelhou-se ao lado do corpo e começou a chorar. Nem percebeu Rocha indo até a viatura. De onde voltou usando luvas brancas, de látex, e com um 38 velho na mão.
- Dá licença. E pára de chorá, caralho.
Trêmulo, Jailton levantou e segurou a lanterna que o parceiro lhe estendia. Ficou alguns passos distante do corpo, iluminando a cena. Rocha agachou-se ao lado do moleque. Demonstrando experiência, ele encaixou o indicador direito do garoto no gatilho do 38 e fez a arma disparar quatro vezes em direção à entrada da viela, onde estava a viatura. Um dos tiros atingiu a porta do passageiro. Em seguida, virou para Jailton e falou, em voz baixa:
- Calma. Esse moleque é o mala. Atirou em você. Você revidou.
Antes que Jailton respondesse qualquer coisa, Rocha recolheu o material escolar e tirou a carteira e o celular dos bolsos do rapaz. Levou tudo para o Vectra, inclusive o 38 velho, agora com as digitais do morto. Quando voltou, disse:
- Agora me ajuda. Temo que levá ele pro hospital.
Jailton não entendia nada. O colega pegou os pés do defunto.
- Vai, caralho... Me ajuda, porra. Vamo levá pro hospital.
Sem pensar, o soldado segurou o corpo pelos ombros. Quando eles saíam da viela, as luzes do giroflex começaram a iluminar o rosto do moleque. De sua boca e nariz escorria sangue. E seus olhos, abertos, estavam fixos em Jailton. A vítima encarava o assassino.
O garoto foi então colocado no banco de trás da viatura. Rocha pegou o volante. Enquanto eles partiam, Jailton, quieto, olhava pela janela.
As ruas estavam vazias. Tranqüilas. Ele havia acabado de dar três tiros em um estudante e ninguém sequer abria a janela para ver o que tinha acontecido.

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Demorou um pouco para chegarem ao PS. Eles podiam ter ido a dois outros hospitais mais próximos, mas Rocha preferiu um mais distante. Jailton não quis perguntar por quê. Quando chegaram, os enfermeiros vieram e levaram o defunto.
Rocha cuidou de tudo. Jailton nem desceu da viatura. Quando o colega voltou depois de mais de uma hora, falou:
- Deu sorte. O chefe da equipe que tá de plantão hoje é meu chegado. No relatório, vai constá que o moleque deu entrada vivo.
De lá eles foram para a delegacia. No caminho, Rocha voltou a dizer:
- Não esquece. Ele é o mala. Atirou primeiro e você revidou.
- E a testemunha? _ perguntou Jailton.
- Que testemunha? Não tem testemunha...
- A vítima do assalto. O cara do Honda Civic...
Rocha tirou do bolso algumas petecas de cocaína e mostrou ao parceiro.
- Ele tava com isso aqui. Tava vindo da boca do Elba. Não vai querer se envolver.
- O cara tava com drogas e você liberou ele?
- Olha aqui, meu irmão; você tem muito o que aprendê ainda. Fica na sua e pára de fazê pergunta besta.
Jailton não falou mais nada. Antes de irem ao DP, ainda passaram na companhia da PM. Lá, Rocha deixou o material, a carteira e o celular do estudante. Depois, os dois seguiram para o distrito.
O registro da ocorrência durou até o dia amanhecer. "Resistência seguida de morte", era o título do B.O.. O "meliante", sem documentos, foi arrolado como desconhecido. O 38 velho foi mandado para o Instituto de Criminalística. A porta da viatura, com a marca do tiro, foi periciada.
Tudo correu sem problemas.

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Era seis da tarde quando o soldado chegou em casa. Divina, sua esposa, preparava a janta. Visivelmente abatido, Jailton deu um beijo no rosto dela e sentou-se à mesa da cozinha.
- Você tá bem? _ perguntou a esposa.
- Tô sim... Tô sim... Matei um moleque.
- Eu sei. Você me disse quando ligou da delegacia, avisando que ia chegar tarde.
- Ah, é...
- Você tem certeza que tá bem?
- Tenho.
- Não liga. Ele era ladrão. Você cumpriu sua obrigação. Jesus vai te perdoar.
- Acho que não _ dito isso, começou a chorar.
Divina passou a mão na cabeça do marido.
- Acho melhor você largar esse serviço...
- Não dá. Preciso botar comida nessa mesa...
- A gente se vira...
- SE VIRA COMO, PORRA?!
O grito fez Divina recuar, assustada.
- Desculpa... Desculpa, meu bem. Eu não tô bom... Vô ficar uns dias no serviço administrativo. É normal na PM. Quando o policial mata alguém, fica um tempo afastado da rua... Vou melhorar.
- Você tá cansado. Precisa dormir. Vai deitar que eu te acordo na hora da janta.
- Tá bom... E os meninos?
- Devem tá brincando na casa de algum vizinho.
- Hoje à noite tem culto...
- Tem. Mas você nem dormiu de ontem pra hoje. Não é melhor ficá em casa?
- Não. Preciso i no culto. Vô descansá um pouco. Depois a gente janta e vai pra igreja.
O soldado foi para o quarto sob o olhar preocupado da mulher. Só tirou o tênis e caiu na cama, de bruços.
A luz do fim de tarde, pelas frestas da janela, iluminava muito pouco o cômodo. Por isso, quando virou a barriga para cima, Jailton não conseguiu distingüir o que era o vulto sobre o armário. Esticou o braço e ligou o abajur. Viu o estudante morto, deitado em cima do móvel, olhando-o fixamente, da mesma maneira que o encarava no momento em que era carregado para a viatura. Olhos arregalados. Sangue escorrendo do nariz e da boca.
Quando Divina chegou ao quarto, correndo, encontrou o marido com os olhos fixos no alto do armário, gritando sem parar.
A mulher o chacoalhou e ele a olhou com expressão de horror. Depois voltou a olhar para o alto do armário. Aí pareceu dar uma sossegada.
- E... E... Ele tava ali... _ a voz saiu fraca, quase um sussurro.
- Quem tava ali?
- O moleque...
- Que moleque?
- O que eu matei...
- O bandido?
Jailton não respondeu. Ficou olhando a mulher com cara de louco. Deu mais uma olhada para o armário. Levantou-se.
- Vô até a igreja...
- Mas o culto só começa às oito.
- Vô antes. Pra falar com o pastor Antonio.
Calçou o tênis.
- Eu vou com você...
- Não. Você fica. Preciso falar com ele. Mas sozinho.
E saiu. Estava disposto a contar tudo ao pastor.
A igreja ficava a dois quarteirões de sua casa, na Brasilândia. Era um templo simples, num salão grande e velho. No caminho, duas vozes pareciam falar dentro de sua cabeça. Uma dizia para ele contar tudo ao pastor. Outra, que, se fizesse isso, poderia ser denunciado e preso. E aí sim sua família ficaria na merda.
Atormentado, sentou na calçada. Sentiu algo estranho e olhou para a esquerta. Novamente viu o garoto. Sentado a seu lado. Deu um grito e voltou correndo para casa, o mais rápido que podia. Quem presenciou a cena não entendeu nada.

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O soldado mal saiu do quarto nos quatro dias seguintes.
Desesperada, Divina tentava convencê-lo a procurar um médico. Dizia que chamaria o pastor para visitá-lo. Mas Jailton, agressivo, dizia-lhe que não queria ver e nem falar com ninguém. A mulher já até começava a achar que era caso de possessão demoníaca.Vendo o pai naquele estado, os filhos se afastaram. Davam-lhe apenas bom dia e boa noite. E o policial nem respondia. Só os olhava com semblante perturbado.
Quando começava a escurecer, ele gritava, tremia e falava sozinho. Dizendo coisas que a família não entendia. Sempre pedindo perdão a um ser invisível no alto do armário.
No sétimo dia, a esposa não agüentou mais. Ligou para a companhia da PM.
À tarde, uma viatura parou em frente à casa de Jailton. O tenente Vargas, seu comandante direto, e o soldado Rocha tocaram a campainha. Divina atendeu e levou os policiais até o quarto, onde eles encontraram Jailton sentado na cama, com olheiras enormes, fitando o alto do armário.
- Jailton...
A voz do tenente fez com que saísse do transe. Ficou em pé para cumprimentar o oficial. Este pediu para que não se preocupasse e se sentasse novamente. Depois perguntou a Divina se ele e Rocha poderiam conversar a sós com o marido dela. E ela saiu do cômodo.
- Jailton, o Rocha já me contou tudo.
- O quê? _ o soldado olhou para o parceiro, de pé junto à porta do quarto.
- Tudo, Jailton. Você matou um moleque, pensando que era o mala.
Jailton começou a chorar.
- F... Foi sem querer...
- Sabemos que foi sem querer.
O soldado então levantou, agarrando-se à farda do tenente.
- P... Por favor, pode me levar preso. Eu mereço. M... Mas não deixa minha família passar necessidade... E... Eles dependem de mim...
- Me larga, Jailton!
E o soldado largou a farda do superior, assustado com o tom de voz que este usou.
Enquanto o oficial verificava se a camisa ficara muito amassada, ajeitando-a, Rocha começou a falar:
- Calma, Jailton. Muito polícia já fez cagada como essa e ninguém nunca descobriu. Tenho quinze anos na PM e sei disso. Você não vai sê preso. Se fosse, eu também seria.
- Sim _ prosseguiu o tenente _, não viemos pra te prender. Ninguém sabe ainda o que aconteceu com o moleque. Ninguém foi reconhecer o corpo. Conseguimos liberar ele do IML antes do prazo. Já tá enterrado como indigente.
- E... O que vocês vieram fazer? _ perguntou o soldado transtornado.
- Soubemos do seu estado e dos problemas que tem enfrentado. Sua mulher contou tudo. Viemos te buscar. A gente vai resolver seu problema. Estamos te esperando lá fora _ explicou o oficial, que saiu do quarto sem dizer mais nada, seguido por Rocha.

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Jailton sentou-se no banco traseiro da viatura. Da janela, viu Divina e as crianças na porta de casa. Ela acenou, fazendo um tchau. Ele não respondeu.
Saíram dali e pegaram a Marginal Tietê, na pista sentido Zona Leste. Rocha dirigia. Quando entraram na marginal, o tenente lhe estendeu um uniforme preto e coturnos.
- Troca de roupa. Veste isso _ ordenou.
Jailton obedeceu. Enquanto se trocava, ficou olhando a cara do tenente no espelho do pára-brisa. E chegou à conclusão de que o olhar do oficial era muito parecido com o de Rocha. Era o mesmo de muitos colegas da PM. Opaco, completamente sem brilho. Que não refletia nenhuma emoção.
Esse pensamento lhe deu um arrepio. Naquele momento, teve certeza de que não queria ser como aqueles dois. Não queria ter aqueles olhos. De quem mata gente, inocente ou não, sem sentir coisa alguma.
E afinal de contas, o que significava aquela roupa preta? E para onde eles o levavam?
Terminou de se trocar confuso, quando notou que já começava a escurecer.
Estremeceu.
Olhou para o lado e viu o garoto, estirado no banco da viatura. Como sempre, sangrava e mantinha os olhos arregalados, fitando-o. A respiração de Jailton ficou ofegante. Ele começou a tremer e a entrar em pânico.
- Tá vendo o neguinho, Jailton?
Era o tenente que falava. Com parte do corpo voltada para trás, ele agora observava o soldado.
Jailton não sabia se olhava para o tenente ou para o moleque. Ambos lhe causavam pavor. E o oficial prosseguiu:
- Quando gente fraca como você, Jailton, entra na PM, acontece isso. Depois que mata pela primeira vez, fica vendo fantasma. Hoje vamos te ensinar a ser forte. Esse tipo de coisa não vai mais te assustar.
Calmamente, Vargas voltou a olhar para frente.
Jailton continuava travado, sem conseguir sequer falar. O garoto começara a se mexer. Lentamente se levantava. E se aproximava do PM. Quando seu rosto ensangüentado estava a apenas alguns centímetros, o policial se encolheu. Tapou os olhos com as mãos e curvou o corpo, chorando.
Jailton permaneceu desse jeito, sentindo a presença da vítima a seu lado, até o fim da viagem. Nem notou que a viatura havia pego a Dutra, rumo a Guarulhos. Só tirou a cara do meio dos joelhos quando foi chacoalhado pelo tenente, com o carro já parado. O garoto havia sumido.
- Sai daí, Jailton _ disse-lhe o oficial.
O soldado desceu da viatura. Então viu que estava em uma estrada de terra. Já havia escurecido. Devia ser umas sete e pouco da noite. Perto deles estava parada uma Blazer preta de faróis acesos, sem placas e de vidros com insulfilm.
Da Blazer desceu mais um homem vestido de preto.
- Venha cá Jailton _ disse o tenente.
O soldado acompanhou o superior até o sujeito. Este era calvo e tinha um grosso bigode. Devia ter uns 47 ou 48 anos de idade. O tenente bateu continência para ele e depois apertou-lhe a mão. - Capitão, este é o homem de quem lhe falei: o soldado Jailton. Matou um moleque e está vendo fantasma.
- Positivo... _ disse o "capitão", olhando para Jailton como se o examinasse.
O soldado tremia sem parar. Morria de medo.
O capitão prosseguiu:
- Não precisa ter medo, meu filho. A gente vai resolver seu problema.
E dirigindo-se a Vargas:
- Pode ir, tenente. A gente cuida dele direitinho.
Com um sorriso no canto dos lábios, o tenente novamente bateu continência e apertou a mão do capitão. Depois foi para a viatura, onde Rocha o aguardava.
- Vem cá, meu filho...
Jailton seguiu o capitão até a Blazer preta. Quando a porta traseira desta se abriu, o soldado viu mais homens de preto, todos usando toucas que só deixam os olhos à mostra, conhecidas no meio policial como "toucas-ninja". Um deles deu espaço para que Jailton se acomodasse.
O capitão sentou-se na frente, no banco do passageiro. E estendeu para Jailton uma touca.
- Ponha esse gorro, meu filho. Temos muito o que fazer nesta noite. Hoje você também vai ser um ninja _ disse o capitão, vestindo sua touca em seguida.
No total, havia cinco homens no carro, contando com o soldado. Que não vestiu a touca. Ficou com ela na mão, sem saber o que fazer. Sentiu um calafrio e olhou para baixo. Lá estava ele. O moleque. Deitado em seu colo. Gritou e começou a se debater. Até que o encapuzado a seu lado lhe acertou o estômago com o cabo de um rifle calibre 12.
A Blazer parou. Jailton abriu a porta e caiu no chão de terra. Queria correr, mas não conseguia se levantar. Mal podia respirar.
Olhou para cima. Os ninjas o cercavam, encarando-o. Todos com aquele mesmo olhar sem brilho. O moleque estava agachado entre eles e também o encarava.
A vista de Jailton escureceu.

-------x--------

O soldado estava no salão da igreja. Com todos os amigos da comunidade. Seus filhos, bem vestidos, corriam para lá e para cá, brincando com outras crianças. Divina usava um bonito vestido. Sorridente, ela segurava sua mão. Em um pequeno palco, a mulher do pastor, com sua linda voz, cantava louvando o Senhor, acompanhada pela banda.
Jailton estava feliz.
Sentiu uma mão em seu ombro. Era o pastor.
- Ele está aqui com a gente, Jailton!
- Quem, pastor? Quem?
- Jesus, Jailton. Olha:
Olhando na direção em que o pastor apontava, o PM viu uma cruz fincada ao chão. Nela estava pendurado o garoto negro. Seu sangue formava uma poça na base da cruz.
Jailton ajoelhou-se, chorando e pedindo perdão, enquanto todos cantavam juntos o hino religioso, estendendo os braços em direção ao menino morto. Que mantinha o olhar fixo no policial.
Jailton tentava buscar socorro, olhando para Divina, para o pastor, para os filhos... Mas todos sorriam e cantavam emocionados. Não davam atenção a ele.
De repente, começaram os tiros. Um por um, os crentes foram caindo. Sangue para todos os lados. Eram os ninjas, que haviam chegado à igreja e transformavam a festa em um verdadeiro massacre.
À frente dos assassinos, o capitão gritava para Jailton:
- Vamos fazer você ficar forte, meu filho!
Divina caiu a seu lado. O pastor também. Viu um dos filhos ter o peito estourado por um tiro de 12 e cair junto ao corpo do irmãozinho.
Em meio àquele mar de sangue, todos os cadáveres estavam de olhos abertos e arregalados. Como o garoto, olhavam para Jailton.
Do alto da cruz, o menino morto observava tudo. Pela primeira vez, o soldado viu ele chorar. Lágrimas de sangue.

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Jailton acordou gritando e levando tapas na cara. Ainda estava deitado na estrada de terra.
- LEVANTA, SOLDADO! _ gritava o capitão.
Trêmulo, o PM se levantou. Sua garganta foi então agarrada pelo comandante dos ninjas, que, com violência, o encostou à lateral da Blazer.
- Você tá com medo, não tá? Medo do fantasma. NÃO TÁ?
Mal conseguindo respirar, Jailton fez que sim com a cabeça. O capitão apertou sua garganta com mais força, sacou uma pistola .40 e enfiou o cano na boca do soldado.
- Agora escuta bem: um bom policial não tem medo de bandido. Do mesmo jeito que não tem medo de fantasma. Um bom policial convive com seus fantasmas. Um bom policial não tem medo de nada. ENTENDEU?
Jailton não respondeu. Estava petrificado. Sentindo o aço frio da arma no céu de sua boca.
- ENTENDEU? OU VOU TER QUE ESTOURAR SEUS MIOLOS, SEU FILHO DA PUTA?! E DEPOIS MATAR SUA MULHER... E SEUS FILHOS?!
Finalmente, o soldado fez que sim com a cabeça.
- Agora me escuta com atenção: se você fizer outro escândalo por causa desse fantasma, a gente te mata. Você vai fazer só o que eu mandar. Se não, morre! Entendeu!?
Novamente o policial fez sinal afirmativo. O capitão tirou a arma de sua boca.
- Agora veste seu gorro.
Escorado na viatura, Jailton obedeceu.
Todos voltaram para dentro da Blazer, que tornou a seguir pela estrada de terra e entrou em um bairro pobre da periferia de Guarulhos.
Logo que eles chegaram ao bairro, Jailton voltou a ver o garoto deitado em seu colo. Mas dessa vez foi diferente. Sentiu um arrepio e ficou inquieto. Só que não sentiu o mesmo medo de antes. Este perdeu a intensidade. Então percebeu os olhos ameaçadores do capitão. Que o observava do banco da frente, como se o vigiasse. Aí sim sentiu medo. Comparado ao chefe dos ninjas, o fantasma não era nada assustador.

------ x ------

A Blazer freou bruscamente em frente a um boteco lotado. Todos os ninjas desceram. Alguns empunhando espingardas 12. Outros, submetralhadoras. Jailton foi empurrado para fora do carro. O fantasma o seguia. Não saía mais de perto do soldado.
Os freqüentadores do bar ficaram petrificados com a chegada da gangue.
Devia haver umas 30 pessoas no local. Todo tipo de gente. Velhos, mulheres, jovens e até crianças. Era umas oito e pouco da noite.
Três encapuzados posicionaram-se na porta do estabelecimento, apontando as armas para todo mundo.
O quarto ninja se aproximou de Jailton e lhe deu uma submetralhadora. Era o capitão. Em seguida ele fez um sinal com a cabeça, ordenando que o soldado o seguisse.
Devagar, os dois passaram pelos outros ninjas e entraram no bar. O silêncio era total. Lentamente, o capitão, também segurando uma submetralhadora, encarava os clientes do boteco. Um por um. Olhando-os no fundo dos olhos.
Deixou uma mesa por último. Nela havia cinco jovens: três rapazes e duas garotas. O mais velho tinha, no máximo, 18 anos.
- VOCÊS FICAM! O RESTO VAI EMBORA!
O grito do capitão foi tão alto e ameaçador que Jailton teve a impressão de sentir o chão tremer.
A maioria levantou rapidamente das mesas e caiu fora. Alguns demoraram um pouco mais para deixar o local. Talvez porque não conseguissem se mexer de tanto pavor.
- ANDA! VAI! _ gritava o comandante ninja.
Enfim restaram só os cinco jovens. Todos eles choravam. Jailton olhou para o garoto fantasma. Que continuava a seu lado, encarando-o. O soldado não desviou o olhar. Em seu desespero, tentava buscar nos olhos de sua vítima alguma saída para aquela situação. Sabia que os garotos morreriam e tudo que queria era evitar que isso acontecesse. Por uns segundos, ficou em transe. Até ser acordado pela voz do capitão. Que, apontando a submetralhadora para o grupo, mandava que os cinco se levantassem.
Uma das meninas atirou-se aos pés do capitão, desesperada.
- Eu não fiz nada! Não fiz nada! Por favor, deixa eu i embora!
Por uma fração de segundo, o capitão olhou a jovem. Em seguida, deu-lhe um chute no estômago, ergueu a menina pelos cabelos e a atirou em cima dos amigos dela.
- TÔ MANDANDO VOCÊS SAÍREM AGORA!
Devagar, o grupo levantou e começou a sair do bar. Caminhando para a morte.
Os demais ninjas aguardavam do lado de fora. Com o camburão aberto. Apesar de não ter giroflex e a pintura dos carros da PM, a Blazer era uma viatura.
Quando todos já estavam recolhidos e um dos encapuzados ia fechar o compartimento traseiro do carro, duas senhoras chegaram correndo. Pelo visual, ambas eram evangélicas. Usavam saias até o calcanhar, cabelos bem compridos e nenhuma maquiagem. Choravam com desespero. Dois ninjas entraram na frente delas para impedir que chegassem perto da Blazer.
Um dos moleques gritou de dentro do camburão:
- MÃE, VAI EMBORA!
Mas as mulheres insistiam. Uma grunhia, em meio às lágrimas.
- M... M... Meu... Filho...
Quanto mais elas tentavam empurrar os encapuzados, mais eles usavam violência. Derrubaram as senhoras no chão. Jailton não agüentou e começou a chorar, ainda trocando olhares com o fantasma de sua vítima.
Enquanto as mulheres faziam o escândalo, o capitão olhava a cena em silêncio. Até que caminhou em direção a a elas, ordenando que os ninjas parassem de maltratá-las. E perguntou com voz calma:
- Vocês querem seus filhos?
Sem conseguir falar de tanto que soluçavam, elas confirmaram balançando as cabeças.
- ENTÃO VOCÊS VÃO FICAR COM ELES!
Dizendo isso, o líder ninja agarrou uma pelos cabelos. Um dos encapuzados fez o mesmo com a outra. As duas senhoras evangélicas foram arrastadas e também atiradas dentro do camburão. A porta foi fechada.
A gangue entrou no carro. Sempre acompanhado pelo fantasma, Jailton obedeceu quando o capitão mandou que entrasse também.
Cantando pneus, a Blazer deixou o bairro e voltou à estrada de terra. Rodou por quase uma hora. E parou em um local de mata fechada. Os ninjas desembarcaram com lanternas nas mãos. Abriram o camburão e arrancaram todos de dentro.
- TIREM TODA A ROUPA! _ gritou o capitão.
As vítimas só obedeceram após algumas coronhadas e chutes de coturno. Tremendo, despiram-se, jogando as roupas no chão. Enquanto isso, os ninjas pegavam as peças e atiravam dentro do camburão. Algumas cuecas e calcinhas estavam manchadas de merda.
Com todos completamente nus, o capitão iluminou a entrada de uma trilha com a lanterna. Três ninjas começaram a entrar no matagal. O capitão ordenou às vítimas:
- SIGAM ELES!
Àquela altura, os jovens e as senhoras não tentavam mais resistir. Sabiam que nada poderia salvá-los.
Jailton ficou na estrada com o capitão e o garoto fantasma. O chefe da gangue então arrancou a submetralhadora de suas mãos. E lhe entregou a pistola .40.
- Não precisa gastar bala de metralhadora com esse lixo, meu filho _ a calma voltara à voz do assassino.
- O... Que eles fizeram? ... Pra merecer isso?
- Os três moleques são ladrões. Aterrorizam os comerciantes de vários bairros aqui de Guarulhos.
- E... E... As mães deles? As meninas?
- Se as mães tivessem criado eles direito, não virariam bandidos. E se as meninas andam com eles, é porque também são lixo e merecem punição. Agora vamos lá, meu filho. Essa noite você vai aprender a ser um bom policial.
Jailton tornou a olhar para o fantasma. E viu que ele começara a chorar. Como naquele sonho. Derramando lágrimas de sangue.
- Não adianta ficar olhando pra esse fantasma, rapaz. Ele não pode te ajudar. Tenha em mente o seguinte: se não fizer o que eu mando, os próximos a entrar naquela trilha, pelados, serão você, sua mulher e seus filhos.
O soldado estremeceu.
- AGORA VAMOS!
Chorando e tremendo, Jailton baixou a cabeça e entrou na trilha. O fantasma o seguia, tentando encará-lo. Mas o policial já não o olhava mais. Apenas andava, seguindo o capitão.
Caminharam até a luz da lanterna mostrar as vítimas. Todas de joelhos, cercadas pelos ninjas. As senhoras rezavam em voz alta. Gritando. Uma delas abraçada ao filho. A outra, a uma das meninas. A estas últimas, o capitão disse:
- Tá vendo, minha senhora? Por que não ensinou sua filha a ficar longe de bandidos? _ e, dirigindo-se a Jailton _ Mata essas duas primeiro.
Jailton olhou para mãe e filha. Viu que o fantasma do garoto negro ajoelhara-le ao lado delas, com as grossas lágrimas de sangue ainda escorrendo pela cara. Seu rosto refletia horror.
O soldado olhou ao redor. E encontrou os olhares do capitão e dos outros ninjas. Aqueles mesmos olhos opacos de sempre.
- O SENHOR É MEU PASTOR.... _ berrava a mulher, agarrada à filha.
Aquela maldita reza começou a dar náuseas no soldado. Que, de súbito, sentiu ódio. De sua vida, do mundo, da falta de dinheiro que o fizera entrar na PM. De Divina, dos filhos. Do fantasma. E daquelas pessoas ajoelhadas à sua frente.
Então encostou a arma na cabeça da mulher e estourou seus miolos. Em seguida fez o mesmo com a garota e, em poucos segundos, com o resto das vítimas.

------ x ------

Jailton chegou em casa no fim de tarde. Divina preparava a janta. Da porta da cozinha, disse:
- Trabalhei muito hoje. Vou descansar. Me acorda pra janta.
Divina só o olhou e balançou a cabeça, sinalizando que sim. Seu marido mudara muito nos últimos três meses. Uma mudança que começou naquela noite em que o tenente e outro PM o levaram para "resolver o problema dele".
No quarto, o soldado tirou o tênis e deitou na cama. Todos estavam em volta dela, encarando-o. Seus fantasmas. Além do estudante, das senhoras evangélicas e dos cinco jovens, já havia mais uns dez. Jailton fechou os olhos. E cochilou. Tornara-se "um bom policial."

Nota: "Este conto foi inspirado em casos noticiados por jornais paulistanos e em histórias que circulam pela periferia da cidade. Não tem a pretensão de denegrir a imagem da Polícia Militar de São Paulo. Uma corporação que, como todas as outras, é composta por seres humanos. Bons e maus" - Olheiro.

domingo, outubro 30, 2005

Convite de amizade

"Pedro Soares enviou um convite para você. Entre no Orkut para ver o perfil de Pedro Soares", dizia o e-mail.
"Quem é esse filho da puta?", pensou Josué, clicando no link e entrando no Orkut. Em sua página, viu o convite de amizade e a foto do tal Pedro. Um estranho. Viu também que o cara deixara uma mensagem em sua caixa de recados. Entrou lá e leu:
"Oi Josué. Sou eu, o Pedro. Estudei com vc na quinta-série do colégio Raimundo. Lembra? Faz muito tempo que a gente não se vê. Uns 15 ou 16 anos, eu acho. Como a gente pôde perder o contato? Até hoje considero você um dos melhores amigos que já tive. Vamos marcar uma cerveja. Abraço"
- Por que não aparece uma ex-coleguinha gostosa pra ficar minha amiga nessa merda? _ disse para si mesmo, antes de apagar o recado.
Entrara no Orkut havia duas semanas. Quem o convenceu a fazê-lo foi um colega do jornal que disse ter conhecido várias garotas no site de relacionamentos. E comido a maior parte delas.
Até aquele momento, porém, a única coisa que Josué havia conseguido com aquilo foram convites de amizade vindos de fantasmas do passado. Todos já esquecidos. "Por que esses caras não continuam levando a vidinha de merda deles longe de mim? Vá se foder...", era o que pensava.
Enquanto apagava o recado do cara, porém, veio um flash.
Lembrou-se do colégio Raimundo, que ficava a poucas quadras da casa de seus pais. Estudou lá da segunda à quinta-série. Aos poucos, também foi lembrando do Pedro. Vagamente. Um moleque chato que apanhava de quase todos os outros, não falava com quase ninguém e achava que Josué, um dos poucos que não lhe batia, era seu único amigo.
Desencanou daquilo e fechou o site. Já estava enrolando demais. Tinha ainda que apurar três pautas para o dia. Duas cascatas e um pedido da secretaria de redação. A rotina do jornal estava deixando ele doido. Dez a doze horas por dia de cobranças, enchição de saco... E pautas medíocres. Que o faziam ficar o tempo inteiro com o telefone na orelha, falando com assessores de imprensa. Não era à toa que andava tão azedo.
Ficou na lama até as seis da tarde. Uma cascata caiu. A outra ia sair de qualquer jeito, contra sua vontade. E o pedido da secretaria não virou, o que o obrigou a escrever um relatório imenso, dizendo por que não conseguira fazer a porra da matéria.
Antes de começar a escrever o tal relatório, no início da noite, deu mais uma entrada no e-mail. Piadinhas estúpidas, ofertas de assinatura de revistas e aviso de que havia outro recado do Pedro no Orkut. "Puta merda, o que esse cara quer comigo?"
Mais uma vez clicou no link e leu o recado:
"Oi Josué. Sou eu, o Pedro. Estudei com vc na quinta-série do colégio Raimundo. Lembra? Faz muito tempo que a gente não se vê. Uns 15 ou 16 anos, eu acho. Como a gente pôde perder o contato? Até hoje considero você um dos melhores amigos que já tive. Vamos marcar uma cerveja. Abraço"
A mesma merda de recado. Que Josué novamente apagou sem responder. Nos dias seguintes, aquela mensagem foi recebida e apagada inúmeras outras vezes. Josué continuou tocando sua rotina de bosta no jornal. Trampando feito um filho da puta de dia e enchendo a cara à noite. Duas semanas se passaram.
Até que uma noite saiu da redação extremamente estressado. Louco pra beber até cair. Mas sem um puto no bolso. "Porra, vida de merda. Tô zerado. Nem uma cervejinha posso tomar", pensava enquanto, da entrada do jornal, olhava o bar do outro lado da rua. Sussurrou um palavrão e deu meia volta pra ir embora. Acabou dando de frente com um rosto conhecido.
- Fala Josué!
Demorou algumas frações de segundo pra sacar quem era. E era ele. Pedro Soares. Josué nem teve tempo de falar nada. O cara já veio abraçando.
- Vc lembra de mim, né cara?
Josué pensou em mentir que não. Mas Pedro, radiante, já foi falando antes que ele pudesse responder.
- O Pedro! Do colégio Raimundo! Lembra?
- Ahn... _ foi o que saiu da boca do jornalista. Daquele jeito era foda. Não tinha como dizer que havia se esquecido do sujeito, que estava todo sorridente.
- E aí? Lembra?
- Lembro sim, lembro sim... Tudo bom com você?
- Porra, cara! Tudo certo! Deixa eu te pagar uma cerveja...
A última frase surgiu como uma luz no fim do túnel para Josué. Pedro lhe oferecia álcool. Era tudo que queria. Por um momento se arrependeu de ter ignorado o "amigo" no Orkut.
- A gente pode tomar uma breja sim, mas tô falido. Não tenho um puto _ respondeu, tentando conter a ansiedade na voz.
- Ah, bicho... Vá se foder... Falei que eu pago! Vamo lá!
Os dois atravessaram a rua para o bar.
Sentaram-se numa mesa e pediram cerveja. Vieram uma, duas, três, quatro... O tempo todo com Pedro falando sem parar. Ele quase não bebia. Enquanto Josué esvaziava um copo atrás do outro, o colega bebericava pequenos golinhos da cerveja. Contava que tinha se formado em engenharia e seu futuro era promissor. Fora contratado por uma firma que construía prédios luxuosos, de alto padrão. Narrou toda a trajetória desde que havia saído do colégio Raimundo. Falou do colegial, do cursinho, da faculdade, dos primeiros trampos... Sua boca era uma metralhadora. Imendava um assunto no outro. Josué só olhava ela se mexer e bebia. Nem entendia a maioria das palavras. Fingia que prestava atenção.
A certa altura, após quase duas horas de fala ininterrupta de Pedro, Josué acordou. Pois ex-colega de ginásio lhe fazia uma pergunta.
- O quê?
- O Orkut. Sabe? Aquele site, Orkut? Te achei lá. Pedi pra você ser meu amigo. Mandei recados pra você. Mas você nunca respondeu. Aí eu checava se o recado estava lá e não estava mais. Como sei que você não ia apagar os recados, acho que aquela merda tá tendo algum problema.
- É... Deve ser algum problema... Quase não abro aquela porra...
- Eu achei o Orkut muito legal. Principalmente porque encontrei você. Cara, acho que você foi o único amigo verdadeiro que eu tive na minha vida. O resto é só traíra. Lembra daquela vez que eu tava apanhando na escola e você me ajudou?
- Não, não lembro...
- Porra, bicho, como você foi esquecer? Foi quando a gente ficou amigo. Aqueles moleques filhos da puta _ nesse instante surgiu uma raiva insana no olhar de Pedro _, eles me batiam direto. Não me deixavam em paz. Faziam da minha vida um inferno. Até que o Niltão (lembra dele?), veio me bater porque me recusei a passar cola pra ele numa prova. E aí você me ajudou.
Niltão... O nome trouxe mais flashs do passado. Um moleque escroto, metido a valentão. Vivia cercado de puxa-sacos, que o seguiam e obedeciam suas ordens. Um cara realmente odiável. Josué tretara uma vez com ele por causa de uma partida de futebol na quadra da escola. Saíram na mão e foram separados pelos monitores que vigiavam a molecada. Aí também lembrou do episódio que Pedro citava.
A treta que ele e Niltão tiveram na quadra não fora terminada devido aos bedéus terem se metido. Então, quando viu Niltão batendo covardemente no coitado do Pedro, resolveu aproveitar pra acertar as contas com ele. Foi lá e deu uma surra no filho da puta.
A partir dali, virou o herói do Pedro, que começou a lhe pagar refrigerantes na hora do recreio, passar cola nas provas e etc. Niltão ficara piano e nunca mais encheu o saco.
- Pode crer. Agora lembrei... Aquele Niltão era um filho da puta _ finalmente respondeu.
- Pois é... E nós ficamos amigos. De lá pra cá, nunca mais encontrei um cara tão gente boa quanto você. Por isso vim aqui hoje. Li seus recados do Orkut, vi suas comunidades e entrei em contato com amigos seus, que me disseram que você tava trabalhando aqui. Por isso eu vim. Passei a tarde inteira na frente do prédio, esperando você sair.
As últimas palavras foram ditas, em tom de voz alterado, por um Pedro sorridente, de olhos arregalados e loucos. Josué não gostou nada daquilo. "O quê? Esse filho da puta veio até aqui e ficou a tarde inteira me esperando. Só pode ser bicha. Vou cair fora", pensou.
- Legal, legal... Mas, ahn, então... Já bebi demais. Foram sete garrafas e a maior parte quem tomou fui eu. Preciso ir andando...
- Vamoaí. Eu te dou uma carona...
- Não, não... Pode deixar... Meu carro tá no estacionamento.
- Você tá bêbado. Melhor eu te levar pra sua casa. Ou você pode dormir na minha.
Josué sentiu um arrepio e foi se levantando.
- Não, não, cara. Deixa quieto. Dá seu telefone que, quando a gente puder tomar outra breja, eu te ligo.
- Tá bom... Toma meu cartão. Dá seu telefone pra mim também _ disse o outro, agora meio triste.
- Ehn... Tô sem celular... Pode deixar que eu te ligo.
- Mas você não tem telefone no jornal? Em casa?
- Ehn... Tenho. Mas tô tão bêbado que não consigo lembrar...
Pedro então ficou quieto. Olhando fixamente para o "amigo". Um olhar frio e assustador. Até que falou:
- Você tá mentindo.
- Ehn... Não tô não. Olha... Eu te ligo, tá? Valeu as brejas. Até mais...
Desencanou de dar a mão ao maluco. E saiu andando do boteco. Não conseguia mais agüentar aquela situação.
Meio cambaleando devido à bebedeira, caminhava em direção ao estacionamento. Pensava em como há doidos nesse mundo de merda. Até que viu faróis de carro vindo em alta velocidade, em sua direção. Não teve como fugir. O carrão, um modelo importado, subiu na calçada e o atingiu. O corpo do repórter rodopiou por cima do capô e foi atirado ao chão.
Passou alguns segundos desacordado. Aos poucos, foi recobrando a consciência. Notou que não sentia as pernas. E viu Pedro de pé, a seu lado. Apontando para ele uma pistola semi-automática.
- Você nunca foi meu amigo.

sábado, fevereiro 19, 2005

Aniversário

"Nunca vi alegria tão forçada", pensava Seu Lair, olhando o filho, a nora e os três netos. Todos sentados à mesa, batendo palmas e cantando Parabéns a Você. "Parabéns pra mim? Por fazer 86 anos? Ser viúvo? Não beber? Não trepar? Não ter força pra andar até a esquina? Que bela merda!".
Quando terminaram, o velho, sem nenhum entusiasmo, apagou as velinhas, em formato de oito e seis, no bolo floresta negra.
- Um pedação com duas cerejas pro senhor, Seu Lair _disse Alice, a nora, cortando o pedaço e pondo no pratinho.
Seu Lair o olhou, em sua frente, e soltou um suspiro.
- Que tristeza é essa pai? É seu aniversário _disse Guilherme, o filho, com um sorrisinho besta na cara.
- Se é meu aniversário, quero uma boa dose de uísque.
- Ô, pai... Que é isso? O senhor sabe que não pode...
- Caralho, uma porra de um copo de uísque não vai me matar. E, se matar, melhor. Tô cansado dessa vida de merda. Quero tomar um trago. Só isso.
Os sorrisos forçados foram começando a desaparecer. Os semblantes tornavam-se mais sinceros. Mostravam impaciência. Só o filho, heroicamente, se esforçava para manter o falso sorriso.
- Precisa falar desse jeito, pai? O senhor tá na frente dos seus netos...
- Paulinho, você acha ruim quando o vô fala palavrão? _perguntou o idoso ao neto caçula, que tinha 9 anos. Gostava daquele moleque.
- Não, vô.
- Você fala palavrão também?
- Falo, vô.
- Paulinho, o que é isso? Te boto de castigo! _ralhou Alice, visivelmente irritada.
- Deixa o moleque, porra! Essa vida é uma merda mesmo. Tem mais é que falar muito palavrão!
- O senhor não fale assim comigo, Seu Lair.
- Tô na minha casa. Falo do jeito que eu quero.
Agora Guilherme já não sorria mais.
- Pai, pára com isso. É seu aniversário e a gente veio aqui te trazer um bolo. O senhor devia ser menos mal agradecido e tratar a gente bem.
- Mal agradecido? Eu pedi essa porra desse bolo? Pega essa merda e vai embora. Me deixa morrer sozinho e em paz!
- Pra mim chega. Vamos embora, crianças! _disse a nora, levantando-se.
Os moleques a seguiram em silêncio. O único que disse "tchau, vô" foi Paulinho. Seu Lair sorriu pro guri, mas não falou nada.
- Amor, vai indo pro carro que já vou.
A esposa só olhou feio para Guilherme, pegando a bolsa e saindo com as crianças.
- Pai. A gente precisa conversar...
- Não precisa não. Vai embora com sua mulher e seus filhos.
- Pai, o senhor tá cada vez mais ranzinza. Desde que o médico te proibiu de beber, o senhor só dá patada. Assim tá difícil...
- Olha, Guilherme... Você sempre foi um bom filho. Acho legal você lembrar de mim e vir aqui com meus netos. Mas minha vida já acabou. Sou um velho de merda que daqui a pouco não vai mais nem conseguir limpar o próprio rabo sozinho. Tudo que quero é morrer antes de chegar a esse ponto.
- Mas pai...
- Não tem "mas pai". Se você quer me ver contente, vai até o supermercado e me traz uma garrafa de uísque ou de vodka ou de conhaque ou de qualquer merda que tenha álcool. Quero ficar aqui, sozinho, enchendo a cara até morrer.
- PÁRA COM ISSO, PAI! Não vou comprar merda nenhuma. Agora chega. Andei vendo umas casas de repouso...
- Ah... Então você vai me largar num asilo... Num depósito de velhos...
- Vou. O senhor tá ficando louco. Não dá mais pra te deixar sozinho e não sei mais o que fazer...
Dito isso, os dois ficaram em silêncio por alguns minutos. Ambos olhando para o vazio. Até que Guilherme se levantou.
- Bom... Vou indo. A Alice e os meninos tão no carro me esperando.
O velho continuou em silêncio. Nem olhou para o filho, que foi embora sem falar mais nada. Ficou sozinho, sentado em frente ao seu pedaço de bolo, desejando a morte. Pensou em se enforcar com o lençol. Depois pensou em cortar os pulsos. Mas lembrou que tinha as pílulas e decidiu tomar quarenta de uma vez. Levantou-se, foi até a cozinha e pegou o frasco cheio no armário. Voltou com um copo d`água para a sala de jantar. Despejou as pílulas sobre a mesa. Olhou para o floresta negra.
- Só queria um último trago. Só um último trago... _disse para si mesmo.
- Feliz aniversário...
A voz vinha de trás. O idoso virou e viu um homem encostado à parede da sala de jantar. Ficou paralisado.
- Parece que você tá vendo um fantasma, hehehe...
- E n... n... não tô? _a voz de Seu Lair quase não saía.
- É... Tá sim...
Só então Seu Lair reparou que o visitante tinha uma garrafa debaixo do braço.
- Trouxe o Jim pra comemorar seu aniversário com a gente. Você podia pegar os copos, não? _intimou ele, indo até a mesa com a garrafa de Jim Beam.
- Lizário... Você foi atropelado. Faz uns 40 anos... Eu fui no seu enterro. O que você tá fazendo aqui?
- Você vai pegar os copos ou não? Tô com sede... _disse o fantasma, sentando-se à mesa e pegando o pratinho com a fatia do floresta negra que Seu Lair havia ignorado.
O velho, não entendendo nada, levantou, foi até a cozinha e voltou com dois copos pequenos. Pegou o Jim Beam, enquando Lizário comia o bolo, e examinou a garrafa. "Puta merda", murmurou. E encheu os copos. Esvaziou o seu em uma só golada. Sentiu a bebida descer rasgando e o gosto adocicado do bourbon.
- Meu Deus... Que delícia.
- Não fale em Deus. Quem te mandou isso foi o Diabo.
- O quê?
- O Diabo. Sabe? Eu, o Valtão, o Joca... Tamo tudo no inferno. De lá a gente vê a merda que os camaradas tão vivendo aqui. Ainda bem que não fiquei velho. Isso é que é um verdadeiro inferno...
- Ser velho é uma bosta...
- Com certeza... A gente fica vendo você aí, definhando, sem poder se divertir. Dá muita pena. Por isso resolvemos aparecer. Daqui a pouco os outros tão chegando.
Seu Lair já virava o segundo copo.
- Mas vocês podem sair de lá, vir pra cá assim, do nada?
- Não é do nada... É que caras que nem a gente, que passaram a vida comendo boceta, enchendo a lata e vagabundeando não podem ir pro céu. E acabam indo pro inferno, mas recebem um tratamento diferenciado. Não somos pessoas malvadas que merecem castigo como os estupradores de criança. Esses passam uma eternidade com um caibro no cu. Entrando e saindo.
- Caralho...
- Caralho não. Um tocão de madeira assim, ó _disse, mostrando com as mãos a grossura do negócio_. Depois de um tempo, o rabo do sujeito fica largo que nem um tubo de esgoto.
- Virge... Mas o que acontece com os bebuns no inferno?
- Não acontece nada. O Capeta gosta de caras como nós. Até aparece pra beber com a gente de vez em quando. Pegou um pedaço do inferno e construiu vários botecos. Ficamos lá, enchendo a cara o dia inteiro...
- Que bom... E como é que você veio parar aqui?
- Então... Como eu disse, de lá a gente fica observando tudo que acontece por aqui. Imaginamos que você ia ter um aniversário ruim. Aí eu tomei a iniciativa de trocar uma idéia com o Satanás. Ele autorizou nossa vinda e ainda deixou que trouxéssemos bastante bebida pra fazer uma festinha.
- Porra... O Diabo é gente boa...
- Sim, pra gente é. Agora; pros estupradores...
Os dois deram risada. No quarto copinho, o Jim começou a dar moleza. Lizário era o melhor amigo de Seu Lair, até ser atropelado, em 1974, aos 56 anos de idade.
- Você parece muito bem, Lizário. Tá com olheiras, cara de bebum, como era normalmente. Mas você tava muito mais velho quando morreu. Parece que rejuvenesceu...
- É que a idade do espírito é diferente da idade do corpo. No inferno não tem velho.
- Porra. Preciso ir pra lá agora.
- Relaxa. Daqui a pouco o Satanás em pessoa vai aparecer. Aí você troca uma idéia com ele.
- Porra... O Capeta na minha casa?
- É... Mas vamos mudar o assunto. Você viu a mulherada que chorou no meu enterro?
- Se vi... Ficou até chato. A Lurdes passou mal de raiva. Por falar em Lurdes, e as nossas mulheres? A Izidra morreu faz quatro anos.
- Eu sei. Mas ela foi pro céu. A gente não tem contato com o pessoal que vai pra lá... A Lurdes tá viva ainda. Cega, surda e numa cadeira de rodas. Mas é outra que vai pro céu. O Capeta falou que pro inferno ela não vai.
- É... Coitada da Lurdes... Então a Izidra tá no céu... Ela vivia na igreja e me enchia o saco por causa da bebida. Fico feliz por ela... Mas eu quero ir é pro inferno.
Logo começaram a chegar os outros camaradas. Valtão, Joca, Marivaldo... Aos poucos, a sala de jantar foi se enchendo de gente. Uns dez amigos da antiga apareceram. Zé, morto de cirrose em 1968, trouxe um pandeiro. Artur, vítima de um derrame em 1980, trouxe um cavaquinho. Sisnaldo, esfaqueado em 1975, trouxe um surdo. Seu Lair e os manos do inferno caíram no samba como nos velhos tempos em que freqüentavam o Bixiga.
Todos os mortos que chegavam traziam uísque ou cerveja.
- Amigos, e as mulheres? Não tem mulher na porra do inferno?
Seu Lair já estava completamente breaco.
- Calma Lair. Daqui a pouco ele tá trazendo a mulherada _disse Marivaldo.
- Ele quem?
- Ele... _Com os dedos, o amigo fez chifrinhos na cabeça.
A balada do além continuou a rolar. Na sala de Seu Lair, a roda de samba pegava fogo. Ele só não entendia como nenhum vizinho aparecia pra reclamar. De repente, subiu um forte cheiro de merda e a música parou.
- Porra... Alguém soltou uma bufa violenta.
- Não é bufa, Lair _disse Lizário, com cara séria_. É que quando ele aparece, no começo sempre tem esse cheiro. Mas logo passa.
- Ele quem?
- Lair, esse é o Diabo.
Lizário apontava para a porta da sala, atrás de Seu Lair. Que virou e viu um cara alto, loiro, boa pinta, trajando um chique terno branco.
- Prazer, Lair _disse o visitante estendendo a mão, com olhar sereno e voz de locutor de rádio.
- O prazer é todo meu, Seu Satã. Bem vindo à minha humilde residência.
Seu Lair apertou a mão do Capeta.
- Pensei que o senhor fosse vermelho e tivesse chifres.
O Capeta só deu um sorrisinho com o canto da boca.
- Também há gente que acha que tenho cara de bode. Mas não me chame de senhor... Ele está no céu.
Ouvindo isso, todo mundo caiu na gargalhada. Menos o Satanás, que continuou com seu sorrisinho sem vergonha.
- Tá certo. Mas muito obrigado por deixar meus camaradas virem aqui hoje com toda essa bebida... Tá sendo o melhor aniversário da minha vida.
- Agradeça a eles. Todos gostam muito de você. Especialmente o Lizário, que foi falar comigo. Além do mais, sua alma já é minha.
- Quer dizer que eu vou pro inferno?
- Você tem alguma dúvida disso?
- E quando eu vou?
- Logo... Agora quem precisa ir sou eu. Tenho que supervisionar a tortura de algumas almas. Principalmente a do papa, que chegou esses dias.
- Ele foi pro inferno?
- Todo papa vai... Obrigado pela hospitalidade, Lair. Estarei à sua espera.
Seu Lair novamente apertou a mão do Capeta, que deu meia volta e saiu da sala. O idoso então voltou sua atenção para os amigos e seu queixo caiu.
- Feliz aniversário!!! _gritou em coro a mulherada.
Vindas direto do inferno, antigas namoradas (as mais safadas), alcoólatras, prostitutas, mulheres que traíram seus maridos com Seu Lair. Em plena forma, elas correram para o idoso e o agarraram por todos os lados, beijando-o e se esfregando nele. Enquanto isso, os camaradas improvisavam Parabéns a Você, em ritmo de samba.
Depois de bombardear o velho com beijos, a mulherada começou a rebolar ao som da batucada e a formar pares com os manos de Seu Lair. A festa infernal estava completa. O aniversariante bêbado dançou com todas suas antigas amantes, uma por uma. Até que a mulata Eunice, a ruiva Isabel e a morena Vilma, três das principais paixões de sua juventude, o arrastaram para o quarto. Mas quando elas começaram a arrancar a roupa do idoso, ele, de súbito, sentiu-se deprimido.
- O que foi, Lair? _quis saber Eunice.
- Tô velho. Não agüento mais o tranco. Faz mais de 20 anos que não vou pra cama com uma mulher. Imagina com três de uma só vez?
- Não fala besteira, Lair. Você tá bonitão como sempre. Olha no espelho _disse Isabel.
Seu Lair seguiu o conselho da ruiva e se espantou ao ver, no espelho, a imagem de um jovem de 25 anos. Aí sentiu-se viril como nunca. Olhou as amantes com um sorriso quase maligno. As três estavam sentadas na cama. E o jovem Lair mergulhou no meio delas.
Guilherme voltou à casa do pai três dias depois. Já havia assinado a papelada da casa de repouso e estava receoso. Preparado para ouvir um monte de desaforos. Era muito difícil lidar com o velho.
- Pai!? _chamou, ao entrar.
Não obteve resposta. Passou para a sala de jantar. Espantou-se ao ver que a bandeja do floresta negra ainda estava sobre a mesa. Mas o bolo tinha sido todo devorado. Também viu as pílulas coloridas ainda espalhadas ao lado do frasco. Continuou a procurar pelo pai. Encontrou o cadáver no quarto, nu sob os lençóis e com um grande sorriso no rosto.
Seu Lair estava no inferno.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Conhaque e cerveja

Sentado na cama, ele acariciava os cabelos de Silene, que dormia como uma criança. Doce, meiga. Enquanto a olhava, pensava em como aquela garotinha havia mudado sua vida. Quase um ano se passara e os dois continuavam juntos e felizes. Sua depressão parecia curada. Já não pensava mais em suicídio. Agora tinha motivo para acordar, pois toda vez que despertava, a primeira coisa que via era o lindo rosto de sua namorada. Devagar, ela também foi acordando. Abriu os olhos e sorriu. Um sorriso que quase o fez chorar de emoção. Os dois então se abraçaram com força por um longo tempo. Alessandro nunca se sentira tão feliz.
- Eu te amo, sabia?_ disse o rapaz apaixonado.
Ela só deu uma risadinha e acariciou seu rosto. Deu-lhe um beijo e se levantou. Havia oito meses que ele a chamara para morarem juntos no seu apartamento, em Higienópolis. Antes da garota chegar, costumava ficar sentado, em silêncio, sozinho na sala, olhando para a parede e esperando o fim daquela vida miserável.
Assessor de imprensa de seu pai, um deputado atolado em sujeira, considerava-se um merda. Tinha aquele belo apartamento e um salário de R$ 5.000 para estar na Assembléia Legislativa das 11h às 18h, segunda a sexta. Sabia que muitos jornalistas gostariam daquela mamata, mas tinha nojo de seu trabalho. Queria ser repórter. Investigar esquemas de corrupção. Derrubar homens sujos como seu pai. Porém, nunca conseguira se adaptar à rotina de uma redação. O estresse e excesso de trampo o deixavam doente. Não agüentava. Cada vez mais triste, sua amargura foi afastando os amigos. A vida social foi aos poucos acabando.
Chegou a tomar raticida, mas não morreu. A faxineira o encontrou no apartamento a tempo de uma lavagem estomacal salvar sua vida. Continuou a pensar em suicídio até que, numa tarde, sozinho na fila do cinema, viu Silene. Alessandro a conhecia da época da faculdade, quando ela namorava um camarada dele. Naquele tempo, costumava conversar bastante com a garota, que considerava bonita, inteligente e gente fina. Deprimido na fila do cinema, ficou acanhado, observando-a de longe. Viu que ela não estava acompanhada, mas não tomou iniciativa de chegar até lá e puxar conversa. Deixou quieto. Quando ia entrar na sala, porém, sentiu um toque em seu ombro.
-Oi Alê! Lembra de mim?
Assistiram ao filme juntos, depois foram a um barzinho freqüentado por jornalistas na Vila Madalena e acabaram na cama, em seu apartamento. Desde então, o assessor de imprensa passou a viver em função da paixão por aquela menina de rosto meigo. Silene era repórter de um jornal diário de grande circulação. O trabalho consumia, pelo menos, doze horas de seu dia. Isso não a impedia de, à noite, sempre arrumar algo para fazer. A galera do jornal era acostumada com balada de segunda a segunda. Com a namorada, Alessandro voltou a sair e a ter amigos. Seu apartamento virou um ponto de encontro de casaizinhos de jornalistas. Lá eles ficavam bebendo, falando bosta e fumando maconha. Depois sempre caíam pra alguma festa. Era uma vida divertida e feliz. Até o trampo de assessor deixou de incomodá-lo. Começou a chegar na assembléia com um sorriso no rosto. Lá não fazia nada mesmo. Só ficava o dia inteiro sonhando e trocando mensagens eletrônicas com Silene.
- Tô gostando de ver, filho. Essa menina tá fazendo bem pra você _dizia seu pai. Até o desprezo que tinha pelo velho deputado estava desaparecendo.
E Silene era uma namorada dedicada e atenciosa. Seu único problema era o excesso de trabalho. Vira e mexe, chegava em casa de madrugada.
- Você trabalha demais. Está sendo explorada _dizia ele.
- Tenho que trabalhar. Fazer o quê? _era, geralmente, a resposta.
O pessoal do jornal era bem legal. Só um dos repórteres, que cobria a área policial, nos últimos meses passara a a agir de modo estranho. Nas festas, quando se encontravam, o cara lhe lançava um olhar frio e evitava conversar com ele. Aquilo o deixava inquieto.
- Aquele seu colega, o Valdomiro. Você não acha que ele tá meio estranho ultimamente? Parou de vir aqui em casa. Não fala mais com a gente. Fica nos olhando daquele jeito esquisito...
- Ele é estranho mesmo. Não liga não.
Mas Alessandro ligava. Alguma coisa naquele sujeito o deixava encanado. E a encanação aumentou numa noite, quando foi buscar Silene no jornal para irem ao cinema. Chegando um pouco antes do horário combinado, parou o carro perto da entrada da empresa, do outro lado da rua. Desligou os faróis e pegou o celular. Ia ligar para a mina avisando que já estava lá, quando olhou para a portaria e a viu. Ela conversava com Valdomiro. Os dois sorriam e os olhos de ambos pareciam brilhar. A cena durou poucos segundos, pois ela logo notou o carro. Disse mais alguma coisa para o colega e, apressada, atravessou a rua correndo.
Alessandro continuou observando Valdomiro. O olhar deste acompanhou a corrida da garota até o carro e depois caiu sobre o assessor. Seu rosto então se tornou sombrio. E ele deu meia volta e pôs-se a caminhar em direção ao boteco mais próximo. Silene bateu a porta e beijou o namorado como se tudo estivesse normal.
- O que vocês estavam conversando?
- Nada...
- Como nada? Estavam os dois sorrindo...
- E daí? A gente não pode sorrir?
- Mas esse cara não sorri pra gente. Sempre fica com aquela cara esquisita. Você viu o jeito que ele me olhou agora?
- Ah... Desencana...
- Como desencana, Si? Só quero saber por que vocês estavam sorrindo daquele jeito...
- Que é? Tá com ciúmes agora? Quer brigar comigo, é isso?
-... Não... Não quero brigar com você. Eu só...
- Se não quer brigar, então pára com essa conversa. Já perdi a vontade de ir pro cinema. Vamos pra casa.
A fala da namorada soou como uma ordem. E Alessandro, apaixonado, obedeceu. Se ela o mandasse rolar no chão como um cachorrinho, ele o faria. Por isso, dirigiu quieto até o prédio e não tocou mais no assunto. Mas continuou cabreiro. Aquela merda o estava irritando. Atrapalhando a vida feliz que havia descoberto ao lado de Silene. O olhar sombrio de Valdomiro, fitando-o do outro lado da rua, não lhe saía da cabeça. E, pior ainda, não lhe saíam da cabeça aqueles poucos segundos em que o viu trocando sorrisos com sua namorada. Precisava saber o que estava acontecendo. Dar uma prensa no sujeito e descobrir o que se passava. O problema era sua falta de coragem.
Mais alguns dias se foram e a encanação começou a tirar seu sono. Quando dormia, tinha pesadelos estranhos. Em um deles, que sempre se repetia, via Valdomiro e Silene, um de frente pro outro. Os dois se olhavam apaixonadamente. Alessandro caminhava até eles, mas ambos o ignoravam. Continuavam se olhando. Pareciam não percebê-lo. Ele então tentava tocar o ombro da namorada e não conseguia, pois sua mão a atravessava como se fosse feita de ar. Nesse ponto, ele sempre acordava desesperado. Uma noite esse sonho pareceu tão real que ele despertou gritando. Silene fez até um chazinho de erva doce pra que relaxasse.
Perguntou-lhe o que sonhara, mas ele não disse. Não diria nem fodendo. Tinha medo de recomeçar aquela discussão do carro. Depois do chá, os dois voltaram para a cama e ficaram abraçados. Ela logo dormiu mas ele permaneceu de olhos abertos. Pensando. Chegou à conclusão de que tinha de tomar coragem e ir falar com o cara.
Por isso, na noite seguinte foi até o jornal. Parou o carro longe _não queria correr o risco de que Silene o visse. Andou até um poste próximo à entrada e ficou lá, parado. Viu a namorada saindo. Cedo demais. "Ela disse que ia ficar até tarde hoje...", pensou. Teve vontade de ir atrás e abordá-la enquanto ela caminhava até a esquina. Mas logo viu Valdomiro. Ele saiu em seguida. Novamente com rosto sombrio, parou em frente ao jornal. Seu olhar seguia Silene. Quando a perdeu de vista, deu meia volta e foi pro boteco. Alessandro foi atrás.
Valdomiro chegou no bar cumprimentando os funcionários. Sentou-se sozinho no balcão e pediu uma cerveja e um conhaque. Parecia perturbado, triste. Notou a aproximação de Alessandro.
- E aí Valdomiro, beleza? _disse o assessor com insegurança na voz.
Antes de responder, o outro o olhou fixamente por alguns segundos. Com cara fechada, porém, calma.
- Tudo certo _finalmente respondeu, antes de dar um golão da dose servida de Domecq que o balconista botara pra ele.
- Posso me sentar aqui? _perguntou Alessandro, já se aproximando do banco ao lado.
-Lógico. Dá mais um copo aí, Serjão.
Serjão trouxe o copo americano e Valdomiro o encheu de cerveja para Alessandro. Ambos ficaram quietos por mais um tempo, bebendo e olhando pra frente. Até que o repórter quebrou o silêncio.
- Sua mina acabou de sair fora.
- Eu sei. Eu vi. ...Na verdade eu vim pra falar com você.
Valdomiro matou o resto do Domecq numa golada, pegou o copo de cerveja e, sempre calmo, disse:
- Fala.
- Olha, eu nem te conheço direito. Na época que eu e a Silene távamos começando a namorar a gente até trocou umas idéias, lembra? Te achei um cara legal. Mas de uns tempos pra cá você mudou...
- Uh... _grunhiu Valdomiro, dando uma golada da cerveja.
- Vim aqui pra saber por que você me olha desse jeito. Parece que eu te fiz alguma coisa...
- Desencana. Você não me fez nada. Fica tranqüilo com sua mina.
- Mas por que você age assim?
O repórter fez cara de impaciente. Virou o copo de cerveja, voltou a enchê-lo, pediu mais um conhaque e falou:
- Você quer mesmo saber?
Alessandro balançou a cabeça afirmativamente.
- Sua mina não vale nada.
- O quê?
- Você ouviu. Sua mina não vale nada.
- Como assim, cara? Por que você tá falando assim da Si? Tá louco?
- Que é? Vai engrossar? É bom não arrumar briga comigo. Se arrumar, é bom me matar. Senão eu te mato primeiro.
A frieza, calma e sinceridade das últimas palavras de Valdomiro, além de seu maldito olhar sombrio, provocaram calafrios no assessor. Que se sentiu pequeno.
- Olha, cara, não quero arrumar briga. Só quero saber o que tá acontecendo.
- Quer saber o que acontece? É só abrir o olho, xará. Você viu que sua mina acabou de sair, né? São quinze pras dez agora.
- É...
- Que horas ela costuma chegar na sua casa?
- Não tem hora. Tem dia que chega às dez e meia. Tem dia que chega meia noite, três, quatro da manhã. Hoje ela disse que ia demorar. Deve ter acontecido alguma coisa... Saiu cedo...
- Então faz o que eu digo. Vai pra sua casa e vê a que horas ela chega.
Dito isso, Valdomiro matou seu segundo Domecq numa só talagada e ainda virou o copo de cerveja. Depois o encheu de novo e ficou quieto, bebendo. Alessandro não sabia o que dizer. Estava com medo do cara. Por isso se levantou, saiu do boteco e foi para seu carro. Não conseguia pensar. Dirigiu para o prédio com o rádio desligado. Sentado em seu apartamento, ficou olhando o relógio. Não conseguia pensar em porra nenhuma. As horas passavam e nada de Silene chegar. Ela só deu as caras às duas da manhã.
- Onde você tava?
- Nossa... Que cara... Você tá passando bem? _perguntou, chegando até ele, passando a mão em sua cabeça e dando-lhe um beijinho na testa.
- Tô bem, tô bem... Mas onde você tava?
- No jornal, né... Não te disse que eu ia trabalhar até tarde?
Alessadro quase falou que a vira sair cedo. Mas ficou quieto. Não queria que ela soubesse que fora conversar com Valdomiro.
- É... Eu tinha esquecido. Não tô passando muito bem... Vou deitar.
- Quer que eu faça um chá pra você?
- Não. Não é nada. Vamos dormir.
Que dormir porra nenhuma. Mais uma noite sem pregar o olho. Na seguinte, não dormiu de novo. E na outra, a mesma coisa. Quando o cansaço o derrubava, lá vinha aquele sonho e ele despertava desesperado. Tomou a decisão.
No dia seguinte, às nove e quarenta, lá estava ele, novamente encostado ao poste. De novo Silene saiu poucos passos antes de Valdomiro. Só que, dessa vez, este não ficou parado a observando. Correu até ela e a deteve. A mina virou para ele com o rosto triste, parecia que ia chorar. Fez um sinal negativo com a cabeça, após trocarem algumas palavras. Depois saiu apressada, deixando ele parado, olhando-a até ela dobrar a esquina.
Como era de rotina, Valdomiro deu meia volta. Iria ao boteco, mas, após alguns passos, deu de cara com Alessandro.
- Naquele dia, ela chegou em casa às duas_disse o rapaz transtornado.
- E então?
- Então o quê?
- Que conclusão você tira disso?
- ... Não sei.
- Que não sabe o quê. Você tá se fazendo de idiota. É óbvio que ela tá mentindo pra você. Te enganando.
Alessandro começou a tremer de nervoso.
- Você sabe pra onde ela foi naquela noite?
- Acho que sei.
- E pra onde ela foi?
Pela primeira vez em meses, Valdomiro sorriu para Alessandro. Mas não era um sorriso do bem. Do jeito que sorria, parecia que havia incorporado toda a maldade do mundo.
- Eu não vou dizer.
- FALA, DESGRAÇADO!!! _gritou Alessandro, indo pra cima dele.
Valdomiro só se afastou um pouco e deu um chutão que atingiu em cheio o saco do assessor. Este se dobrou e caiu de joelhos. O repórter então o agarrou pelos cabelos, sacou um canivete butterfly e encostou a ponta da lâmina em sua garganta.
- Quer brigar, filho da puta? Já te disse. Eu não brigo, eu mato. Se um filho da puta me enche o saco, eu acabo com ele. Pela frente, pelas costas, tanto faz. Eu tiro ele do meu caminho. Entendeu?
Seguranças do jornal, que viram a treta de longe, logo chegaram correndo. Valdomiro soltou Alessandro.
- Que que tá acontecendo? _perguntou um dos seguranças.
- Ô, Chicão. Tá tudo tranqüilo agora. O rapaz ficou nervoso, mas já acalmei ele. Não é? Alê!
Alessandro só olhou para o agressor, assustado.
- Quer saber mais sobre sua mina? Espera. Em breve eu vou te ligar e você saberá tudo sobre ela.
Dito isso, Valdomiro foi para o boteco, deixando o assessor de joelhos, em companhia dos seguranças. Eles o olharam feio por mais uns segundos e voltaram a seu posto. Alessandro se levantou e foi para o carro. Assim que entrou nele, desandou a chorar. Ficou chorando feito uma criancinha por uns quinze minutos. Depois ligou o motor. E foi pro apê.
- Onde você estava? _perguntou-lhe Silene (dessa vez ela chegou cedo).
- Ahnn... Fui dar uma... volta...
- Nossa... Tô ficando preocupada com você. Parece que viu um fantasma.
- É... Quer dizer... Não. Não é nada.
A mina ainda insistiu. Mas ele não disse a verdade. Acabou inventando que saiu para ir à padaria a pé e tentaram assaltá-lo no meio do caminho. Ela acabou engolindo a história.
Os dias passaram. Depois de ter o canivete encostado à garganta, Alessandro resolveu esquecer aquela história. Era um puta covardão. Foi pra casa de praia de seu pai, na Riviera de São Lourenço, com Silene. Tiveram um fim de semana maravilhoso. As reuniõezinhas de jornalistas e as festinhas continuaram a rolar. De vez em quando aquele sonho voltava. Mas era só de vez em quando. Um mês se foi. Até que um dia, em sua sala na assembléia, recebeu o telefonema.
- Alô...
- Ainda tá a fim de saber a verdade sobre sua linda namoradinha?
Alessandro reconheceu a voz no ato e sentiu um arrepio. Era o filho da puta do Valdomiro.
- Não quero mais falar com você...
- Encontra comigo hoje, às quinze pras dez. Vô tá te esperando em frente àquele boteco. Venha de carro.
Dito isso, Valdomiro bateu o telefone na cara do assessor.
Às quinze pras dez, pontualmente, Alessandro parou o carro em frente ao bar e o repórter entrou. O assessor tremia. Estava visivelmente passando mal de transtorno. Parecia que ia enlouquecer.
- Rapaz, você tá mal, hein? Vamos. Dobra aquela esquina.
Sem dizer nada, o rapaz fez o que Valdomiro mandava.
- Pára ali na frente. Do lado da árvore tá bom.
Depois de estacionar, finalmente o assessor abriu a boca.
- E agora?
- Agora espera _disse Valdomiro, ajustando o espelho do pára-brisa.
Alguns minutos se passaram, sem o repórter tirar os olhos do espelhinho.
- Olha lá a sua namorada. Veja pelo retrovisor.
Alessandro viu Silene parada um pouco depois da esquina. Parecia esperar alguém. Depois de longos minutos, um Audi prata parou do seu lado e ela entrou.
- Vai. Vamos segui-los_ disse Valdomiro assim que o Audi passou ao lado do carro de Alessandro.
- De quem é aquele carro?
- É do Júlio, pauteiro de geral. Um dos chefes dela.
- Onde eles tão indo?
- Eu acho que já sei. Vamos ver...
Agoniado, o assessor seguiu o carro prateado a certa distância. Depois de alguns quarteirões, ele entrou na garagem de um motelzinho meia boca.
- Aqui no centro não tem motel legal. Ela pede pra gente levá-la a esse aí porque é mais perto. Assim ela pode trepar rapidinho e, sem perder muito tempo, voltar pro seu apartamento _disse calmamente Valdomiro.
Alessandro estava estático. Não sabia o que pensar. Só queria morrer.
- Entra naquela rua. Lá tem um botecão podre.
O outro obedeceu. Parecia um robô. Minutos depois ambos estavam no balcão do botecão podre.
- Dá dois Domecqs e uma Brahma.
- Não tem Domecq. Só Dreher e Presidente _disse o balconista. Um gordão suado, com barba rala e dentes podres.
- Pode ser Dreher.
Sentado no boteco, Alessandro era só desolação. Inexpressivo, olhava para o vazio. O copo de conhaque foi colocado em sua frente. Olhou para Valdomiro. O repórter já virava seu goró.
- Bebe esse conhaque de uma vez. Depois manda a cerveja em cima. Vai te fazer bem.
Alessandro virou os dois copos e chamou o gordão. Pediu outro conhaque.
- Ahan... Senti firmeza... Agora vou tentar resumir tudo que você não sabe sobre sua mina.
Valdomiro começou a falar. Entre conhaques e cervejas contou como foi seu caso com Silene. Ela já namorava com Alessandro quando ficou com ele pela primeira vez.
- Ela gostou bastante. Eu também. Depois a gente ficou mais uma vez. E mais uma...
Durante um semestre os dois tiveram um romance. Chegaram ao ponto de ficarem namorando nas escadas e corredores do jornal. Treparam várias vezes no motelzinho onde a mina havia acabado de entrar com o chefe.
- Eu via que ela tava apaixonada por mim. E eu por ela. Mas não sou ciumento. Nunca fiz pressão pra ela terminar com você. Mas, na balada, não suportava ver vocês dois juntos. Por isso te olhava com aquela cara. Foi meu erro. Porque você começou a encanar e ela, sem falar nada, simplesmente parou de ficar comigo. Sofri pra caralho. Você sabe como sua mina é foda. Ela deixa a gente doido.
Segundo narrava Valdomiro, seu sofrimento aumentou quando descobriu que também era enganado por Silene.
- Uma vez dei carona pra ela até seu prédio com um carro do jornal. Depois que ela desceu, o motorista virou pra mim e disse "é... essa mina é perversa". E me contou que já a havia levado praquele motel com outros dois manos do jornal. Dois fotógrafos. O Samuel e o Andrade. Aí dei uma prensa na Katia, que é muito amiga dela e é a fim de mim. Mulher é foda. Não precisei insistir pra mina me entregar que sua namorada também já tinha dado pro Rogério, depois pro Lúcio e até tido um caso com o Saraiva, que é um puta amigo meu. Cê tá ligado que todos eles já foram pra sua casa beber com vocês e o resto da galera. O Saraiva, pelo que descobri, comeu ela até em sua cama, uma vez que você ficou bêbado e apagou no sofá... Assim que soube de tudo isso, fiquei muito mal. Por isso bebo desse jeito até hoje. Fico no bar, enchendo a cara e remoendo meus pensamentos. Quando você me abordou aquele dia no boteco eu tava puto. Antes da Silene sair do jornal, percebi que tinha cochichado alguma coisa com o Júlio. Logo ganhei que também tava tendo um caso com ele. Fui encher a cara e você apareceu lá. Achei até engraçado. Depois daquilo fiquei só observando o movimento da sua mina. Tinha dia que ela e o Júlio mal se falavam. Mas, quando rolavam aqueles cochichos, eu tinha certeza: os dois já tavam armando esqueminha pra ir no motel. Resolvi me aproximar do Júlio. Fiquei mais amigo dele. Hoje o chamei pra tomar um café e toquei no assunto. Ele contou vantagem pra caralho, falou que te achava um puta de um otário, pois sua mina tava rodando a banca. Aí ele me disse que hoje ia dar uma foda com ela. Resolvi te chamar.
Terminada a história, Valdomiro esvaziou seu último copo de cerveja.
- Bom... Preciso ir andando. Toma. É um presente pra você _disse o repórter, entregando um saquinho de papel ao assessor.
Depois que Valdomiro virou as costas e saiu andando, Alessandro viu o que tinha no saquinho: Um pacote de raticida.
No dia seguinte, às nove da manhã, aflita com o sumiço do namorado, Silene foi até a garagem do prédio para ver se o carro dele estava lá. Estava, com Alessandro dentro. Ele tinha tomado o raticida com Dreher. Ainda segurava a garrafa, com dois terços de bebida, sobre o colo. O saco plástico do supermercado 24 horas, com a nota fiscal do goró, estava no banco do passageiro.
Uma semana depois do enterro, Silene ainda não havia voltado trabalhar. Caíra forte em depressão. O deputado, sensibilizado com o choro da menina no velório, disse que ela podia ficar com o apartamento do filho _já tinha dado apartamentos a um monte de putas, por que não um à namorada do rapaz?
Ela estava no apê, chorando sozinha, na noite em que o interfone tocou. Era Valdomiro. Pensou um instante, mas acabou falando pro porteiro deixá-lo subir. Quando abriu a porta e o viu, ficou parada, sem falar nada. Ele também. Durante muito tempo os dois ficaram se olhando. Olhares apaixonados. Até que um calafrio a fez estremecer. Parecia que havia sentido a presença de alguém. O repórter aproveitou o desvio de olhar para abraçá-la de repente. Ela deixou. Percebeu que tudo o que queria era aquele abraço.
Depois de muitas noites bebendo no boteco, Valdomiro chegou à conclusão de que não adiantava ficar encanado com os casinhos de Silene. Ela sempre fora daquele jeito. Nunca pararia de dar pra outros caras. O que o repórter realmente queria era que ela voltasse a dar pra ele também. E, pra isso, tinha que tirar aquele assessor de merda do caminho. Foi o que fez. Agora, com a garota nos braços e um sorriso maligno no rosto, sabia que Alessandro estava lá. Observando-os e sofrendo.