Sábado, Setembro 04, 2004

Bastidores

Seu Lupércio acordou com o tranco. O carro acabava de passar por cima de um buraco. "Que porra é essa?", pensou.Tudo estava escuro. Não entendia nada. Demorou até perceber que estava dentro de um porta-malas.
Devagar, foi recordando o que acontecera. Estava andando pela calçada em seu bairro. Levando Ralph, o pequinês, para fazer cocô. Uma garota bonita o abordou. A linda mocinha de aflitos olhos azuis pedia-lhe ajuda.
- Pelo amor de Deus, senhor! Fugi de casa! Meu pai quer me matar! Me ajuda!?
Falava rápido, mas a voz era doce. Seu Lupércio, 69 anos, sem sexo há dez, sentiu-se excitado como há muito não se sentia. A menina devia ter uns 19. Baixinha e de coxas grossas. Cabelo liso, comprido e castanho. Mini saia, topzinho...
O velho apertou de leve o braço da garota e pediu-lhe calma. Naquele instante o pai da menina apareceu com o 38.
- Ah!!! Sua piranha!!! Então esse velho que é seu amante. Vou matá-lo agora mesmo.
Paralisado com a visão da arma, o pobre aposentado gaguejou algo como "N...na...não ss... s... se...nhor".
Na escuridão do porta-malas, Seu Lupércio lembrava que a moça lhe abraçara, dizendo:
- Não mata ele, pai. Eu o amo.
O pai apontou a arma para a cabeça do idoso, que viu tudo girar. Faltou-lhe ar. Dali, não recordava mais nada. Agora não entendia o porquê de estar num porta-malas. Reparou que, fora o barulho do motor, podia escutar algumas vozes vindas da parte da frente do carro. Uma conversa.
- Que merda! Odeio esse serviço.
- Desencana. Cê tá ligado que sempre que isso acontece o salário triplica.
- Foda-se o dinheiro. O que tamos fazendo é desumano.
- Até parece que você não tá acostumado.
- Não dá pra acostumar. Já pedi a transferência pro carro do link uma porrada de vezes. O motorista de lá não tem que passar por isso e é doido. Ia gostar desse serviço... Já pensou se a polícia pára a gente e acha o presunto? Vou pedir demissão...
- É bicho... Como sempre, dá bosta e nós dois é que temos que limpar a porcaria.
- Programa do caralho. Maldito foi o dia que colocaram essa merda no ar.
Seu Lupércio não entendia absolutamente nada. Começou a gritar:
- Me tirem daqui !!!
- Porra! O cara tá vivo _disse uma das vozes.
- Esses merda da produção. Chamam a gente e nem conferem direito se o cara tá morto _ respondeu a outra, trêmula.
- Estamos quase chegando lá. Assim que parar, a gente vê o que faz.
O velho deu mais alguns gritos. Ninguém lhe respondia. O carro começou a balançar. Estrada de terra. Enfim parou. Abriram o porta-malas e o prisioneiro viu dois homens de cerca de trinta anos. Um negro alto e outro moreno, baixinho e barrigudo.
- Calma, meu senhor _disse o negro.
O aposentado desceu do carro e olhou ao redor. Haviam acabado de cruzar a porteira do que parecia ser um sítio. Reconheceu o símbolo da famosa emissora de T.V., estampado nas camisetas que os homens usavam. Desviou o olhar para o carro. Um Voyage branco. Deu a volta e viu novamente o símbolo da emissora na porta do veículo.
- Mas o que é isso?
- É o seguinte, _começou a explicar o baixinho_ o senhor participou de uma pegadinha, tomou um susto, passou mal e desmaiou. Acharam que tinha morrido e chamaram a gente. Tá tudo bem agora.
- Mas por que não chamaram uma ambulância?
Seu Lupércio ainda não entendia nada. O outro, aflito, começou a falar:
- Se o senhor tivesse morrido, ia queimar o filme do programa. Sempre que acontece isso, a gente...
A fala foi interrompida por um tapa que o baixinho deu na cabeça do colega.
- Cala boca!
Em seguida, os dois pediram ao idoso para esperar um pouco. E afastaram-se para cochichar. Pareciam muito nervosos. A todo momento olhavam para Seu Lupércio. O negro, com olhos confusos. O baixinho, com cara de mau.
Então o velho lembrou-se de uma coisa que ouviu enquanto estava no porta-malas. Algo sobre "triplicar salário". E o pensamento passou como um tiro por sua cabeça: "Vão me matar".
Começou a correr. Os dois correram atrás. Pegaram-no rapidamente. Ele gritava por socorro. O baixinho esmurrou-lhe a cara. Depois o estômago. Agora o pobre idoso estava de volta ao porta-malas.
- E agora?_ perguntou o negro, quase chorando.
- Buraco _respondeu o baixinho secamente.
Mais 20 minutos de carro. Seu Lupércio já estava sem voz. Gritava muito. A pressão subia. Após o Voyage parar, o porta-malas novamente foi aberto e ele, arrancado para fora. Os homens não falaram mais nada. A vítima se debatia. Seu corpo de velho nada podia contra a dupla. Enquanto o negrão segurava seus pés, o outro se encarregava dos braços. Entraram numa trilha em meio a matagal fechado. Andaram cerca de 200 metros. Pararam em frente a um enorme e profundo buraco. O negro soltou as pernas do pobre velho. Estava visivelmente abalado. Olhou para o parceiro. O rosto do baixinho, que também acabava de soltar Seu Lupércio, não exprimia emoção alguma. Caído no chão, o idoso era só fraqueza. Mal conseguia se levantar. Pressão nas alturas. Dor no peito.
- Pula _ disse o mais baixo, apontando o buraco.
O infeliz idoso, quase sem esperanças, recorreu ao Negro. Lançou-lhe um olhar triste, pedindo clemência. Este vacilou por um momento. Acabou virando as costas e voltando pela trilha. Seu Lupércio ficou só com o baixinho, que lhe sorriu. Um sorriso mau. Em seguida, veio o chute. Na barriga. Depois outro. Outro. O velho caiu no buraco. No fundo, pôde perceber que estava em meio a um monte de corpos, a maioria em estado avançado de decomposição. Fechou os olhos. O programa veio-lhe à cabeça. Lembrou-se da pegadinha, a brincadeira que causou sua desgraça. Começou a rir. Gargalhar. Veio o ataque cardíaco.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Porra ET, vc ta apavaorando hein hehehe
Ve se arruma um esquema ae de me emprestar o cd lá
abraços
Rafael Bertola

6 de setembro de 2004 21:57  
Blogger Momento Descontrol said...

Nossa!! Achei as histórias ducaralho! Uma melhor que a outra, vê se posta mais vezes!

17 de setembro de 2004 11:35  
Blogger DArk Angel said...

eae cara... teus contos são muito bons!!!!!

23 de julho de 2009 18:05  

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