Terça-feira, Setembro 07, 2004

Morto não fala

Já havia dois anos que Stênio trabalhava de madrugada. Era o único plantonista no necrotério do IML da zona leste de São Paulo, em Artur Alvim. No início, suportava bem a solidão. Entre uma e outra chegada de cadáver, fazia palavras cruzadas, lia os jornais populares e escutava um rádio velho que só sintonizava estações evangélicas e de música sertaneja. Com o tempo, foi pegando bode das merdas que os pastores falavam e daquelas músicas escrotas. Também enjoou das cruzadas e do conteúdo dos jornais. "Sempre a mesma bosta", dizia para si mesmo.
Por isso, desenvolveu o hábito de falar com os mortos. Contava-lhes coisas de sua família e rotina. Desabafava com os presuntos quando estava com algum problema financeiro ou quando brigava com a esposa. Até falava para eles dos filmes que via na TV e fazia comentários sobre futebol. Não demorou muito e os cadáveres começaram a responder.
A primeira vez foi quando chegou um jovem pardo todo furado de balas, com uma tatuagem do Santos no peito, time do qual Stênio era torcedor fanático. Ele começou a conversa:
- Ixi... Amanhã o Peixe pega o Corinthians, hein?
- Pode crer... O foda é que vô tá enterrado. Não vô podê i. E nem vê o jogo na televisão. Amanhã eu ia lá pa Vila. Já tava até com os ingresso comprado. O baguio ia sê loco...
Em vez de se espantar, Stênio achou ótimo. Enfim podia trocar idéia com alguém naquela sala branca, fria, com cheiro de morte. E não ficar só falando sozinho.
Toda noite chegava uns sete, oito corpos. A maioria vítima da violência na zona leste.
- Tá aqui na sua ficha que você foi achado lá na Cidade Tiradentes _dizia o plantonista, com um pano no nariz, a um adolescente podrão, também morto a tiros.
- Mas não sô di lá não sinhô. Sô di Itaquera. É que os fi da puta mi jogaro lá. Si num fosse os muleque mi achá do lado do campinho, tava lá até agora.
- É... E você tá fedendo pra caralho. Se não se importa, vou te colocar logo na geladeira. Seu cheiro tá empesteando tudo por aqui.
- Tudo bem, sinhô. É que dipois di morto, a gente num sente mais chero ninhum. Mais, si tivé incomodando, podi colocá na gaveta. Também num sinto mais frio não.
E assim seguia Stênio. Entre as entradas e saídas dos corpos, conhecia muita gente. Ouvia suas histórias e sabia como foram suas vidas. Apesar de mortos, alguns eram até alegres e contavam piadas. Outros se lamentavam. Não conseguiam suportar o fato de terem morrido e ficavam choramingando. A estes, o plantonista não dava ouvidos. Ignorados, acabavam ficando quietos.
O que mais se escutava no morgue eram coisas sobre crime. Agora o plantonista sabia diferenciar armas e seus calibres. Ouviu histórias sobre como era a rotina na prisão, soube onde eram as principais bocas de droga e os nomes dos chefes de quadrilha da zona leste.
Às 8 da manhã, encerrava o expediente. Stênio voltava para sua casa, em Guaianazes, a tempo de beijar seus dois filhos, antes de eles irem para a escola. Conversava um pouco com a esposa Odete enquanto bebia um copo de leite quente. Depois tomava banho e ia dormir. À tarde, quando acordava, assistia T.V.. Lá pelas seis, tentava convencer a mulher a ir pra cama com ele. Mas havia meses que ela dava alguma desculpa e recusava. Então restava ao coitado umas brejas e pingas no bar da esquina, antes de ir encontrar os mortos no trampo.
Nunca contara a ninguém sobre os diálogos com os presuntos. Não se considerava louco, mas sabia que, no mínimo, as pessoas iam achar aquilo estranho. "Vão pensar que sou doido. Talvez eu nem deva conversar com eles. Mas aquele lugar é tão chato... O que posso fazer?", ponderava. De vez em quando, os caras do carro de cadáver chegavam de repente, ouviam vozes, e perguntavam se Stênio estava falando com alguém.
- Ah... falo sozinho mesmo_ era a resposta que sempre dava.
Outra que já havia reparado nas vozes era Dona Sacramento, da recepção. Uma vez Seu Chico, um velho que morreu de ataque cardíaco enquanto trepava com uma mina de 17 anos, contou uma piada e o plantonista soltou uma gargalhada muito alta. Dona Sacramento ouviu e correu ao necrotério. Encontrou Stênio sentado ao lado do corpo, rindo sozinho.
- O que tá acontecendo, Seu Stênio?
- Aaaann... Nada não, Dona Sacramento. É que lembrei de uma piada que me contaram...
Dali pra frente, a tiazinha começou a reparar nas vozes que saíam da sala. E passou a olhar para o colega de um jeito estranho. Stênio ficava encanado com ela, mas continuava tocando a rotina.
Demorou até aparecer um defunto conhecido. Certa noite, o rabecão trouxe o vizinho Carlão. Um quarentão sem vergonha, que gostava de mexer com as mulheres dos outros. Fora morto a facadas no boteco, por um marido traído. O plantonista soube da história pelo motorista do carro de cadáver. Não gostava daquele vizinho e curtiu o fato de ele ter sido assassinado. Quando o rabecão voltou às ruas, Stênio retornou ao morgue para trocar uma idéia com o morto.
- Tá vendo, bicho. Você procurou confusão e achou. Agora tá aí, com o corpo todo furado de faca.
- Eu quero é que se foda, Stênio. Não me arrependo de nada. Vivi do jeito que eu quis. Cheio de mulher em volta de mim. Só podia ter morrido por causa de mulher. Nada mais justo.
- Mas quantos anos você tem? 41, 42?
- 43. E daí?
- Daí que podia viver pelo menos até os 70. Sossegado, com uma mulher, filhos, netos. E ter uma morte tranqüila, igual a do Seu Seródio. Não é Seu Seródio?_ disse Stênio, dirigindo-se a outro corpo, estendido em uma maca ao lado.
- É, fio, é_ respondeu o presunto. Seu Seródio morrera aos 80 anos de velhice. Naquela noite, fora o primeiro cadáver a dar entrada.
- Mas você só queria saber de putaria e de ficar atrás da mulher dos outros_ prosseguiu o plantonista em seu discurso.
- Foda-se, Stênio. Você é um que vai ficar vendo morto até ficar velho, enquanto sua mulher tá te botando um monte de chifre.
- ... O quê? O que cê tá dizendo?
- Por acaso você acha que a Odete é santa?
- Que cê tá querendo me dizê?
- Que enquanto você tá aqui, sua mulher tá dando pra outro. Todo mundo sabe, menos você.
Stênio ficou mudo de raiva por uns instantes. Então saiu do necrotério e foi tomar um ar. Passou por Dona Sacramento e nem olhou a cara dela. E a recepcionista nem falou nada. Estava começando a ficar com medo do colega.
Dez minutos depois, o plantonista voltou mais calmo.
- Tá bom, Carlão. Conta essa história direito.
- Não devia porque não sou cagüeta. Mas já que a puta da sua mulher sempre se fez de gostosa e nunca me deu bola, vou contar...
Segundo o cadáver, Odete iniciou um caso com o padeiro Jaime logo que Stênio começou a trabalhar no necrotério. Toda a vizinhança sabia. Lá pela uma da manhã, o padeiro fazia uma visita quase que diária à sua casa. De onde só saía por volta das três.
Stênio ouviu o relato de Carlão com a boca e a cara fechadas. Depois, ainda sem dizer nada, colocou o defunto na gaveta gelada. Outros dois corpos chegaram naquela madrugada, mas o plantonista não conversou com nenhum deles. Só ficou calado, pensativo, no silêncio do necrotério. Até o dia amanhecer.
Odete estranhou o jeito dele quando chegou aquela manhã em casa. O marido estava calado demais. Perguntou o que era e Stênio desconversou. Disse que estava com um pouco de dor de cabeça e foi dormir. À tarde, como de costume, saiu do quarto e foi para a sala. Ficou vendo televisão e, ao anoitecer, não foi ao boteco. Também não tentou trepar com ela. Às oito horas, deu uma saidinha e voltou minutos depois, ainda quieto. Às onze, saiu para trabalhar.
A esposa não sabia, mas a saidinha das oito foi para ir até o orelhão da outra rua. De lá, Stênio ligou para o IML e disse que estava com caganeira e que teria de faltar.
Quando Odete abriu a porta para Jaime, à uma e vinte, Stênio estava atrás do muro da esquina. Ficou lá até as três e pouco, hora em que o padeiro saiu de sua casa.
Depois disso, o funcionário do IML saiu andando sem rumo pelas ruas. Completamente puto, caminhava e imaginava o que faria. Lembrava das poucas vezes em que ia à padaria e o filho da puta do Jaime perguntava sorrindo:
- Tudo bom Seu Stênio? E sua senhora, como está?.
"E toda a vizinhança sabia. Menos eu", dizia para si mesmo.
Apesar de trabalhar com gente morta, Stênio não conseguia se imaginar tirando a vida de alguém. Mas tudo que queria era ver aqueles dois mortos. Quando já estava quase amanhecendo e ele voltava para casa, após uma noite inteira caminhando, teve uma idéia.
Ao chegar, beijou a esposa e os filhos como se nada tivesse acontecido.
Só deu uma cochilada. Uma hora e meia depois, já estava na rua. Pegou um busão e foi para os lados de São Miguel. Dentro da favela Pantanal, chegou a um botequinho velho e falou com um neguinho que tomava uma cerveja e fumava cigarro.
- Tô procurando o Jonas.
- Quem é você? O que quer com o Jonas?
- Assunto particular. Sô amigo do Sujo e sei quem cagüetô ele.
- ...Beleza... Espera um pouco aqui_ disse o neguinho, que, na seqüência, saiu andando do boteco e dobrou a esquina.
Stênio conhecera Sujo no IML. O cara havia sido morto uma semana antes, naquela mesma favela, por PMs da Rota que, além de matá-lo, apreenderam 100 kg de cocaína e crack em seu barraco. Era irmão do tal Jonas, chefe do tráfico na região.
Após uns dois minutos de espera, o neguinho voltou acompanhado de um moleque que devia ter uns onze anos.
- O moleque vai te levá até o Jonas_ disse o neguinho, que voltou a sentar no boteco. Segundo Sujo contou a Stênio, aquela birosca era uma das bocas da favela.
Meio zonzo pela falta de sono, o funcionário do morgue seguiu o garoto por vários becos. Passaram por tantas vielas e corredores, entre os barracos, que não conseguiria sair dali sozinho. De repente, no meio de um corredor estreito, deparou-se com um homem pardo, gordo, com duas pistolas na cintura. Atrás dele, dois caras mau-encarados empunhavam metralhadoras.
- Me disseram que você sabe quem cagüetô meu irmão. É bom contá essa história direito. Primeiro, quem é você?
- Conheci o Sujo quando a gente tava preso no cadeião de Pinheiros no ano passado. Ficamo camarada. Eu tava lá por causa de uma fita que deu errado. Tentei fazê um playboy num carro importado e acabei em cana. O Sujo tinha sido pego com...
- Eu sei. Os rato cinza pegaro ele com farofa...
- É... Depois ele conseguiu fazê acerto com os homi e saiu fora, né? _prosseguiu Stênio, reproduzindo a história que o cadáver lhe contara.
- Tá... E essa fita aí, que você sabe quem cagüetô meu irmão?
- Fazia um tempo que eu não via o Sujo. Aí chegô no meu ouvido que ele tinha morrido na mão dos meganha e que quem cagüetô ele foi um ganso de Guaianazes. Um padeiro que fica direto puxando o saco dos coxinha. Não sei como ele soube do Sujo. Mas é certo que foi ele quem deu o barraco do seu mano pros homi.
- E como você ficô sabendo?
- Um mano meu que trampa no IML e conhece um monte de homi da Rota contô.
- Tá certo... E onde eu acho esse cagüeta filho da puta?
Stênio forneceu ao traficante o endereço de sua casa e o horário em que o padeiro sempre saía de lá. Descreveu também a aparência do padeiro. Um pouco barrigudo, branco, cabelo grisalho e bigode. Depois, despediu-se do bandido, que, em agradecimento, lhe deu um tijolo de fumo. Ele seguiu novamente o pivete até o barzinho, onde o neguinho continuava tomando sua breja, a espera dos clientes.
Chegou em casa cansado, depois de dispensar o tijolo de maconha numa pracinha que estava sempre cheia de maconheiros _que ficaram radiantes com o achado. Com um sorriso maligno no rosto, Stênio não contou a Odete onde havia ido. Dormiu até umas dez da noite e, às onze, saiu pra trabalhar. Foi uma noite tranqüila. Só três presuntos deram entrada.
Pela manhã, quando chegou em sua rua, viu um amontoado de curiosos em frente de casa. Havia também uma viatura da PM e outra, do DHPP. Abrindo caminho em meio à multidão, viu Odete e Jaime caídos na porta. Um fotógrafo do DHPP registrava as imagens dos presuntos. O chão estava lavado de sangue. Dona Nair, vizinha do lado, chegou chorando e levou Stênio para a casa dela, onde também estavam os dois filhos do plantonista. As crianças haviam acordado à noite com os tiros e visto um carro escuro, de vidros filmados, batendo em retirada.
O funcionário do IML tentou parecer surpreso e puto da vida com a notícia de que era corno. Avaliou que conseguira enganar os vizinhos.
De madrugada, apareceu no velório de Odete. Só o irmão dela ficara passando a noite com o corpo. Fingindo tristeza, ele pediu ao cunhado para ficar um pouco sozinho com a mulher. O cunhado concordou e foi procurar um pico aberto pra tomar um café. Stênio então se aproximou do caixão.
- Então, sua vagabunda? Qué dizê que enquanto eu dava um trampo, cê me botava chifre?
- Desculpa meu amor. Cê nunca tava em casa à noite...
- Cala boca, puta desgraçada. Agora você e aquele maldito vão apodrecê.
- Stênio, você não teve nada com isso, né?
- O que você acha? _perguntou à morta, sorrindo.
- Desgraçado! Você teve coragem de deixar seus filhos sem mãe!?
- E você teve coragem de me botar chifre, sua vagabunda.
- Você vai ver... A polícia vai te pegar...
- Como?
- Um dia alguém vai falar que foi você.
- Mas só você sabe. E morto não fala.

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

O conto é original, tem um enrredo muito bom, acho que precisa de um final mais interessante.

abraços.

15 de maio de 2007 12:32  
Anonymous Anônimo said...

Muito interessante!

27 de julho de 2009 06:37  
Anonymous Anônimo said...

muito bom o conto

21 de janeiro de 2011 14:48  
Blogger fdf said...

oioioioioi

27 de janeiro de 2012 15:12  

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