Conhaque e cerveja
Sentado na cama, ele acariciava os cabelos de Silene, que dormia como uma criança. Doce, meiga. Enquanto a olhava, pensava em como aquela garotinha havia mudado sua vida. Quase um ano se passara e os dois continuavam juntos e felizes. Sua depressão parecia curada. Já não pensava mais em suicídio. Agora tinha motivo para acordar, pois toda vez que despertava, a primeira coisa que via era o lindo rosto de sua namorada. Devagar, ela também foi acordando. Abriu os olhos e sorriu. Um sorriso que quase o fez chorar de emoção. Os dois então se abraçaram com força por um longo tempo. Alessandro nunca se sentira tão feliz.
- Eu te amo, sabia?_ disse o rapaz apaixonado.
Ela só deu uma risadinha e acariciou seu rosto. Deu-lhe um beijo e se levantou. Havia oito meses que ele a chamara para morarem juntos no seu apartamento, em Higienópolis. Antes da garota chegar, costumava ficar sentado, em silêncio, sozinho na sala, olhando para a parede e esperando o fim daquela vida miserável.
Assessor de imprensa de seu pai, um deputado atolado em sujeira, considerava-se um merda. Tinha aquele belo apartamento e um salário de R$ 5.000 para estar na Assembléia Legislativa das 11h às 18h, segunda a sexta. Sabia que muitos jornalistas gostariam daquela mamata, mas tinha nojo de seu trabalho. Queria ser repórter. Investigar esquemas de corrupção. Derrubar homens sujos como seu pai. Porém, nunca conseguira se adaptar à rotina de uma redação. O estresse e excesso de trampo o deixavam doente. Não agüentava. Cada vez mais triste, sua amargura foi afastando os amigos. A vida social foi aos poucos acabando.
Chegou a tomar raticida, mas não morreu. A faxineira o encontrou no apartamento a tempo de uma lavagem estomacal salvar sua vida. Continuou a pensar em suicídio até que, numa tarde, sozinho na fila do cinema, viu Silene. Alessandro a conhecia da época da faculdade, quando ela namorava um camarada dele. Naquele tempo, costumava conversar bastante com a garota, que considerava bonita, inteligente e gente fina. Deprimido na fila do cinema, ficou acanhado, observando-a de longe. Viu que ela não estava acompanhada, mas não tomou iniciativa de chegar até lá e puxar conversa. Deixou quieto. Quando ia entrar na sala, porém, sentiu um toque em seu ombro.
-Oi Alê! Lembra de mim?
Assistiram ao filme juntos, depois foram a um barzinho freqüentado por jornalistas na Vila Madalena e acabaram na cama, em seu apartamento. Desde então, o assessor de imprensa passou a viver em função da paixão por aquela menina de rosto meigo. Silene era repórter de um jornal diário de grande circulação. O trabalho consumia, pelo menos, doze horas de seu dia. Isso não a impedia de, à noite, sempre arrumar algo para fazer. A galera do jornal era acostumada com balada de segunda a segunda. Com a namorada, Alessandro voltou a sair e a ter amigos. Seu apartamento virou um ponto de encontro de casaizinhos de jornalistas. Lá eles ficavam bebendo, falando bosta e fumando maconha. Depois sempre caíam pra alguma festa. Era uma vida divertida e feliz. Até o trampo de assessor deixou de incomodá-lo. Começou a chegar na assembléia com um sorriso no rosto. Lá não fazia nada mesmo. Só ficava o dia inteiro sonhando e trocando mensagens eletrônicas com Silene.
- Tô gostando de ver, filho. Essa menina tá fazendo bem pra você _dizia seu pai. Até o desprezo que tinha pelo velho deputado estava desaparecendo.
E Silene era uma namorada dedicada e atenciosa. Seu único problema era o excesso de trabalho. Vira e mexe, chegava em casa de madrugada.
- Você trabalha demais. Está sendo explorada _dizia ele.
- Tenho que trabalhar. Fazer o quê? _era, geralmente, a resposta.
O pessoal do jornal era bem legal. Só um dos repórteres, que cobria a área policial, nos últimos meses passara a a agir de modo estranho. Nas festas, quando se encontravam, o cara lhe lançava um olhar frio e evitava conversar com ele. Aquilo o deixava inquieto.
- Aquele seu colega, o Valdomiro. Você não acha que ele tá meio estranho ultimamente? Parou de vir aqui em casa. Não fala mais com a gente. Fica nos olhando daquele jeito esquisito...
- Ele é estranho mesmo. Não liga não.
Mas Alessandro ligava. Alguma coisa naquele sujeito o deixava encanado. E a encanação aumentou numa noite, quando foi buscar Silene no jornal para irem ao cinema. Chegando um pouco antes do horário combinado, parou o carro perto da entrada da empresa, do outro lado da rua. Desligou os faróis e pegou o celular. Ia ligar para a mina avisando que já estava lá, quando olhou para a portaria e a viu. Ela conversava com Valdomiro. Os dois sorriam e os olhos de ambos pareciam brilhar. A cena durou poucos segundos, pois ela logo notou o carro. Disse mais alguma coisa para o colega e, apressada, atravessou a rua correndo.
Alessandro continuou observando Valdomiro. O olhar deste acompanhou a corrida da garota até o carro e depois caiu sobre o assessor. Seu rosto então se tornou sombrio. E ele deu meia volta e pôs-se a caminhar em direção ao boteco mais próximo. Silene bateu a porta e beijou o namorado como se tudo estivesse normal.
- O que vocês estavam conversando?
- Nada...
- Como nada? Estavam os dois sorrindo...
- E daí? A gente não pode sorrir?
- Mas esse cara não sorri pra gente. Sempre fica com aquela cara esquisita. Você viu o jeito que ele me olhou agora?
- Ah... Desencana...
- Como desencana, Si? Só quero saber por que vocês estavam sorrindo daquele jeito...
- Que é? Tá com ciúmes agora? Quer brigar comigo, é isso?
-... Não... Não quero brigar com você. Eu só...
- Se não quer brigar, então pára com essa conversa. Já perdi a vontade de ir pro cinema. Vamos pra casa.
A fala da namorada soou como uma ordem. E Alessandro, apaixonado, obedeceu. Se ela o mandasse rolar no chão como um cachorrinho, ele o faria. Por isso, dirigiu quieto até o prédio e não tocou mais no assunto. Mas continuou cabreiro. Aquela merda o estava irritando. Atrapalhando a vida feliz que havia descoberto ao lado de Silene. O olhar sombrio de Valdomiro, fitando-o do outro lado da rua, não lhe saía da cabeça. E, pior ainda, não lhe saíam da cabeça aqueles poucos segundos em que o viu trocando sorrisos com sua namorada. Precisava saber o que estava acontecendo. Dar uma prensa no sujeito e descobrir o que se passava. O problema era sua falta de coragem.
Mais alguns dias se foram e a encanação começou a tirar seu sono. Quando dormia, tinha pesadelos estranhos. Em um deles, que sempre se repetia, via Valdomiro e Silene, um de frente pro outro. Os dois se olhavam apaixonadamente. Alessandro caminhava até eles, mas ambos o ignoravam. Continuavam se olhando. Pareciam não percebê-lo. Ele então tentava tocar o ombro da namorada e não conseguia, pois sua mão a atravessava como se fosse feita de ar. Nesse ponto, ele sempre acordava desesperado. Uma noite esse sonho pareceu tão real que ele despertou gritando. Silene fez até um chazinho de erva doce pra que relaxasse.
Perguntou-lhe o que sonhara, mas ele não disse. Não diria nem fodendo. Tinha medo de recomeçar aquela discussão do carro. Depois do chá, os dois voltaram para a cama e ficaram abraçados. Ela logo dormiu mas ele permaneceu de olhos abertos. Pensando. Chegou à conclusão de que tinha de tomar coragem e ir falar com o cara.
Por isso, na noite seguinte foi até o jornal. Parou o carro longe _não queria correr o risco de que Silene o visse. Andou até um poste próximo à entrada e ficou lá, parado. Viu a namorada saindo. Cedo demais. "Ela disse que ia ficar até tarde hoje...", pensou. Teve vontade de ir atrás e abordá-la enquanto ela caminhava até a esquina. Mas logo viu Valdomiro. Ele saiu em seguida. Novamente com rosto sombrio, parou em frente ao jornal. Seu olhar seguia Silene. Quando a perdeu de vista, deu meia volta e foi pro boteco. Alessandro foi atrás.
Valdomiro chegou no bar cumprimentando os funcionários. Sentou-se sozinho no balcão e pediu uma cerveja e um conhaque. Parecia perturbado, triste. Notou a aproximação de Alessandro.
- E aí Valdomiro, beleza? _disse o assessor com insegurança na voz.
Antes de responder, o outro o olhou fixamente por alguns segundos. Com cara fechada, porém, calma.
- Tudo certo _finalmente respondeu, antes de dar um golão da dose servida de Domecq que o balconista botara pra ele.
- Posso me sentar aqui? _perguntou Alessandro, já se aproximando do banco ao lado.
-Lógico. Dá mais um copo aí, Serjão.
Serjão trouxe o copo americano e Valdomiro o encheu de cerveja para Alessandro. Ambos ficaram quietos por mais um tempo, bebendo e olhando pra frente. Até que o repórter quebrou o silêncio.
- Sua mina acabou de sair fora.
- Eu sei. Eu vi. ...Na verdade eu vim pra falar com você.
Valdomiro matou o resto do Domecq numa golada, pegou o copo de cerveja e, sempre calmo, disse:
- Fala.
- Olha, eu nem te conheço direito. Na época que eu e a Silene távamos começando a namorar a gente até trocou umas idéias, lembra? Te achei um cara legal. Mas de uns tempos pra cá você mudou...
- Uh... _grunhiu Valdomiro, dando uma golada da cerveja.
- Vim aqui pra saber por que você me olha desse jeito. Parece que eu te fiz alguma coisa...
- Desencana. Você não me fez nada. Fica tranqüilo com sua mina.
- Mas por que você age assim?
O repórter fez cara de impaciente. Virou o copo de cerveja, voltou a enchê-lo, pediu mais um conhaque e falou:
- Você quer mesmo saber?
Alessandro balançou a cabeça afirmativamente.
- Sua mina não vale nada.
- O quê?
- Você ouviu. Sua mina não vale nada.
- Como assim, cara? Por que você tá falando assim da Si? Tá louco?
- Que é? Vai engrossar? É bom não arrumar briga comigo. Se arrumar, é bom me matar. Senão eu te mato primeiro.
A frieza, calma e sinceridade das últimas palavras de Valdomiro, além de seu maldito olhar sombrio, provocaram calafrios no assessor. Que se sentiu pequeno.
- Olha, cara, não quero arrumar briga. Só quero saber o que tá acontecendo.
- Quer saber o que acontece? É só abrir o olho, xará. Você viu que sua mina acabou de sair, né? São quinze pras dez agora.
- É...
- Que horas ela costuma chegar na sua casa?
- Não tem hora. Tem dia que chega às dez e meia. Tem dia que chega meia noite, três, quatro da manhã. Hoje ela disse que ia demorar. Deve ter acontecido alguma coisa... Saiu cedo...
- Então faz o que eu digo. Vai pra sua casa e vê a que horas ela chega.
Dito isso, Valdomiro matou seu segundo Domecq numa só talagada e ainda virou o copo de cerveja. Depois o encheu de novo e ficou quieto, bebendo. Alessandro não sabia o que dizer. Estava com medo do cara. Por isso se levantou, saiu do boteco e foi para seu carro. Não conseguia pensar. Dirigiu para o prédio com o rádio desligado. Sentado em seu apartamento, ficou olhando o relógio. Não conseguia pensar em porra nenhuma. As horas passavam e nada de Silene chegar. Ela só deu as caras às duas da manhã.
- Onde você tava?
- Nossa... Que cara... Você tá passando bem? _perguntou, chegando até ele, passando a mão em sua cabeça e dando-lhe um beijinho na testa.
- Tô bem, tô bem... Mas onde você tava?
- No jornal, né... Não te disse que eu ia trabalhar até tarde?
Alessadro quase falou que a vira sair cedo. Mas ficou quieto. Não queria que ela soubesse que fora conversar com Valdomiro.
- É... Eu tinha esquecido. Não tô passando muito bem... Vou deitar.
- Quer que eu faça um chá pra você?
- Não. Não é nada. Vamos dormir.
Que dormir porra nenhuma. Mais uma noite sem pregar o olho. Na seguinte, não dormiu de novo. E na outra, a mesma coisa. Quando o cansaço o derrubava, lá vinha aquele sonho e ele despertava desesperado. Tomou a decisão.
No dia seguinte, às nove e quarenta, lá estava ele, novamente encostado ao poste. De novo Silene saiu poucos passos antes de Valdomiro. Só que, dessa vez, este não ficou parado a observando. Correu até ela e a deteve. A mina virou para ele com o rosto triste, parecia que ia chorar. Fez um sinal negativo com a cabeça, após trocarem algumas palavras. Depois saiu apressada, deixando ele parado, olhando-a até ela dobrar a esquina.
Como era de rotina, Valdomiro deu meia volta. Iria ao boteco, mas, após alguns passos, deu de cara com Alessandro.
- Naquele dia, ela chegou em casa às duas_disse o rapaz transtornado.
- E então?
- Então o quê?
- Que conclusão você tira disso?
- ... Não sei.
- Que não sabe o quê. Você tá se fazendo de idiota. É óbvio que ela tá mentindo pra você. Te enganando.
Alessandro começou a tremer de nervoso.
- Você sabe pra onde ela foi naquela noite?
- Acho que sei.
- E pra onde ela foi?
Pela primeira vez em meses, Valdomiro sorriu para Alessandro. Mas não era um sorriso do bem. Do jeito que sorria, parecia que havia incorporado toda a maldade do mundo.
- Eu não vou dizer.
- FALA, DESGRAÇADO!!! _gritou Alessandro, indo pra cima dele.
Valdomiro só se afastou um pouco e deu um chutão que atingiu em cheio o saco do assessor. Este se dobrou e caiu de joelhos. O repórter então o agarrou pelos cabelos, sacou um canivete butterfly e encostou a ponta da lâmina em sua garganta.
- Quer brigar, filho da puta? Já te disse. Eu não brigo, eu mato. Se um filho da puta me enche o saco, eu acabo com ele. Pela frente, pelas costas, tanto faz. Eu tiro ele do meu caminho. Entendeu?
Seguranças do jornal, que viram a treta de longe, logo chegaram correndo. Valdomiro soltou Alessandro.
- Que que tá acontecendo? _perguntou um dos seguranças.
- Ô, Chicão. Tá tudo tranqüilo agora. O rapaz ficou nervoso, mas já acalmei ele. Não é? Alê!
Alessandro só olhou para o agressor, assustado.
- Quer saber mais sobre sua mina? Espera. Em breve eu vou te ligar e você saberá tudo sobre ela.
Dito isso, Valdomiro foi para o boteco, deixando o assessor de joelhos, em companhia dos seguranças. Eles o olharam feio por mais uns segundos e voltaram a seu posto. Alessandro se levantou e foi para o carro. Assim que entrou nele, desandou a chorar. Ficou chorando feito uma criancinha por uns quinze minutos. Depois ligou o motor. E foi pro apê.
- Onde você estava? _perguntou-lhe Silene (dessa vez ela chegou cedo).
- Ahnn... Fui dar uma... volta...
- Nossa... Tô ficando preocupada com você. Parece que viu um fantasma.
- É... Quer dizer... Não. Não é nada.
A mina ainda insistiu. Mas ele não disse a verdade. Acabou inventando que saiu para ir à padaria a pé e tentaram assaltá-lo no meio do caminho. Ela acabou engolindo a história.
Os dias passaram. Depois de ter o canivete encostado à garganta, Alessandro resolveu esquecer aquela história. Era um puta covardão. Foi pra casa de praia de seu pai, na Riviera de São Lourenço, com Silene. Tiveram um fim de semana maravilhoso. As reuniõezinhas de jornalistas e as festinhas continuaram a rolar. De vez em quando aquele sonho voltava. Mas era só de vez em quando. Um mês se foi. Até que um dia, em sua sala na assembléia, recebeu o telefonema.
- Alô...
- Ainda tá a fim de saber a verdade sobre sua linda namoradinha?
Alessandro reconheceu a voz no ato e sentiu um arrepio. Era o filho da puta do Valdomiro.
- Não quero mais falar com você...
- Encontra comigo hoje, às quinze pras dez. Vô tá te esperando em frente àquele boteco. Venha de carro.
Dito isso, Valdomiro bateu o telefone na cara do assessor.
Às quinze pras dez, pontualmente, Alessandro parou o carro em frente ao bar e o repórter entrou. O assessor tremia. Estava visivelmente passando mal de transtorno. Parecia que ia enlouquecer.
- Rapaz, você tá mal, hein? Vamos. Dobra aquela esquina.
Sem dizer nada, o rapaz fez o que Valdomiro mandava.
- Pára ali na frente. Do lado da árvore tá bom.
Depois de estacionar, finalmente o assessor abriu a boca.
- E agora?
- Agora espera _disse Valdomiro, ajustando o espelho do pára-brisa.
Alguns minutos se passaram, sem o repórter tirar os olhos do espelhinho.
- Olha lá a sua namorada. Veja pelo retrovisor.
Alessandro viu Silene parada um pouco depois da esquina. Parecia esperar alguém. Depois de longos minutos, um Audi prata parou do seu lado e ela entrou.
- Vai. Vamos segui-los_ disse Valdomiro assim que o Audi passou ao lado do carro de Alessandro.
- De quem é aquele carro?
- É do Júlio, pauteiro de geral. Um dos chefes dela.
- Onde eles tão indo?
- Eu acho que já sei. Vamos ver...
Agoniado, o assessor seguiu o carro prateado a certa distância. Depois de alguns quarteirões, ele entrou na garagem de um motelzinho meia boca.
- Aqui no centro não tem motel legal. Ela pede pra gente levá-la a esse aí porque é mais perto. Assim ela pode trepar rapidinho e, sem perder muito tempo, voltar pro seu apartamento _disse calmamente Valdomiro.
Alessandro estava estático. Não sabia o que pensar. Só queria morrer.
- Entra naquela rua. Lá tem um botecão podre.
O outro obedeceu. Parecia um robô. Minutos depois ambos estavam no balcão do botecão podre.
- Dá dois Domecqs e uma Brahma.
- Não tem Domecq. Só Dreher e Presidente _disse o balconista. Um gordão suado, com barba rala e dentes podres.
- Pode ser Dreher.
Sentado no boteco, Alessandro era só desolação. Inexpressivo, olhava para o vazio. O copo de conhaque foi colocado em sua frente. Olhou para Valdomiro. O repórter já virava seu goró.
- Bebe esse conhaque de uma vez. Depois manda a cerveja em cima. Vai te fazer bem.
Alessandro virou os dois copos e chamou o gordão. Pediu outro conhaque.
- Ahan... Senti firmeza... Agora vou tentar resumir tudo que você não sabe sobre sua mina.
Valdomiro começou a falar. Entre conhaques e cervejas contou como foi seu caso com Silene. Ela já namorava com Alessandro quando ficou com ele pela primeira vez.
- Ela gostou bastante. Eu também. Depois a gente ficou mais uma vez. E mais uma...
Durante um semestre os dois tiveram um romance. Chegaram ao ponto de ficarem namorando nas escadas e corredores do jornal. Treparam várias vezes no motelzinho onde a mina havia acabado de entrar com o chefe.
- Eu via que ela tava apaixonada por mim. E eu por ela. Mas não sou ciumento. Nunca fiz pressão pra ela terminar com você. Mas, na balada, não suportava ver vocês dois juntos. Por isso te olhava com aquela cara. Foi meu erro. Porque você começou a encanar e ela, sem falar nada, simplesmente parou de ficar comigo. Sofri pra caralho. Você sabe como sua mina é foda. Ela deixa a gente doido.
Segundo narrava Valdomiro, seu sofrimento aumentou quando descobriu que também era enganado por Silene.
- Uma vez dei carona pra ela até seu prédio com um carro do jornal. Depois que ela desceu, o motorista virou pra mim e disse "é... essa mina é perversa". E me contou que já a havia levado praquele motel com outros dois manos do jornal. Dois fotógrafos. O Samuel e o Andrade. Aí dei uma prensa na Katia, que é muito amiga dela e é a fim de mim. Mulher é foda. Não precisei insistir pra mina me entregar que sua namorada também já tinha dado pro Rogério, depois pro Lúcio e até tido um caso com o Saraiva, que é um puta amigo meu. Cê tá ligado que todos eles já foram pra sua casa beber com vocês e o resto da galera. O Saraiva, pelo que descobri, comeu ela até em sua cama, uma vez que você ficou bêbado e apagou no sofá... Assim que soube de tudo isso, fiquei muito mal. Por isso bebo desse jeito até hoje. Fico no bar, enchendo a cara e remoendo meus pensamentos. Quando você me abordou aquele dia no boteco eu tava puto. Antes da Silene sair do jornal, percebi que tinha cochichado alguma coisa com o Júlio. Logo ganhei que também tava tendo um caso com ele. Fui encher a cara e você apareceu lá. Achei até engraçado. Depois daquilo fiquei só observando o movimento da sua mina. Tinha dia que ela e o Júlio mal se falavam. Mas, quando rolavam aqueles cochichos, eu tinha certeza: os dois já tavam armando esqueminha pra ir no motel. Resolvi me aproximar do Júlio. Fiquei mais amigo dele. Hoje o chamei pra tomar um café e toquei no assunto. Ele contou vantagem pra caralho, falou que te achava um puta de um otário, pois sua mina tava rodando a banca. Aí ele me disse que hoje ia dar uma foda com ela. Resolvi te chamar.
Terminada a história, Valdomiro esvaziou seu último copo de cerveja.
- Bom... Preciso ir andando. Toma. É um presente pra você _disse o repórter, entregando um saquinho de papel ao assessor.
Depois que Valdomiro virou as costas e saiu andando, Alessandro viu o que tinha no saquinho: Um pacote de raticida.
No dia seguinte, às nove da manhã, aflita com o sumiço do namorado, Silene foi até a garagem do prédio para ver se o carro dele estava lá. Estava, com Alessandro dentro. Ele tinha tomado o raticida com Dreher. Ainda segurava a garrafa, com dois terços de bebida, sobre o colo. O saco plástico do supermercado 24 horas, com a nota fiscal do goró, estava no banco do passageiro.
Uma semana depois do enterro, Silene ainda não havia voltado trabalhar. Caíra forte em depressão. O deputado, sensibilizado com o choro da menina no velório, disse que ela podia ficar com o apartamento do filho _já tinha dado apartamentos a um monte de putas, por que não um à namorada do rapaz?
Ela estava no apê, chorando sozinha, na noite em que o interfone tocou. Era Valdomiro. Pensou um instante, mas acabou falando pro porteiro deixá-lo subir. Quando abriu a porta e o viu, ficou parada, sem falar nada. Ele também. Durante muito tempo os dois ficaram se olhando. Olhares apaixonados. Até que um calafrio a fez estremecer. Parecia que havia sentido a presença de alguém. O repórter aproveitou o desvio de olhar para abraçá-la de repente. Ela deixou. Percebeu que tudo o que queria era aquele abraço.
Depois de muitas noites bebendo no boteco, Valdomiro chegou à conclusão de que não adiantava ficar encanado com os casinhos de Silene. Ela sempre fora daquele jeito. Nunca pararia de dar pra outros caras. O que o repórter realmente queria era que ela voltasse a dar pra ele também. E, pra isso, tinha que tirar aquele assessor de merda do caminho. Foi o que fez. Agora, com a garota nos braços e um sorriso maligno no rosto, sabia que Alessandro estava lá. Observando-os e sofrendo.
- Eu te amo, sabia?_ disse o rapaz apaixonado.
Ela só deu uma risadinha e acariciou seu rosto. Deu-lhe um beijo e se levantou. Havia oito meses que ele a chamara para morarem juntos no seu apartamento, em Higienópolis. Antes da garota chegar, costumava ficar sentado, em silêncio, sozinho na sala, olhando para a parede e esperando o fim daquela vida miserável.
Assessor de imprensa de seu pai, um deputado atolado em sujeira, considerava-se um merda. Tinha aquele belo apartamento e um salário de R$ 5.000 para estar na Assembléia Legislativa das 11h às 18h, segunda a sexta. Sabia que muitos jornalistas gostariam daquela mamata, mas tinha nojo de seu trabalho. Queria ser repórter. Investigar esquemas de corrupção. Derrubar homens sujos como seu pai. Porém, nunca conseguira se adaptar à rotina de uma redação. O estresse e excesso de trampo o deixavam doente. Não agüentava. Cada vez mais triste, sua amargura foi afastando os amigos. A vida social foi aos poucos acabando.
Chegou a tomar raticida, mas não morreu. A faxineira o encontrou no apartamento a tempo de uma lavagem estomacal salvar sua vida. Continuou a pensar em suicídio até que, numa tarde, sozinho na fila do cinema, viu Silene. Alessandro a conhecia da época da faculdade, quando ela namorava um camarada dele. Naquele tempo, costumava conversar bastante com a garota, que considerava bonita, inteligente e gente fina. Deprimido na fila do cinema, ficou acanhado, observando-a de longe. Viu que ela não estava acompanhada, mas não tomou iniciativa de chegar até lá e puxar conversa. Deixou quieto. Quando ia entrar na sala, porém, sentiu um toque em seu ombro.
-Oi Alê! Lembra de mim?
Assistiram ao filme juntos, depois foram a um barzinho freqüentado por jornalistas na Vila Madalena e acabaram na cama, em seu apartamento. Desde então, o assessor de imprensa passou a viver em função da paixão por aquela menina de rosto meigo. Silene era repórter de um jornal diário de grande circulação. O trabalho consumia, pelo menos, doze horas de seu dia. Isso não a impedia de, à noite, sempre arrumar algo para fazer. A galera do jornal era acostumada com balada de segunda a segunda. Com a namorada, Alessandro voltou a sair e a ter amigos. Seu apartamento virou um ponto de encontro de casaizinhos de jornalistas. Lá eles ficavam bebendo, falando bosta e fumando maconha. Depois sempre caíam pra alguma festa. Era uma vida divertida e feliz. Até o trampo de assessor deixou de incomodá-lo. Começou a chegar na assembléia com um sorriso no rosto. Lá não fazia nada mesmo. Só ficava o dia inteiro sonhando e trocando mensagens eletrônicas com Silene.
- Tô gostando de ver, filho. Essa menina tá fazendo bem pra você _dizia seu pai. Até o desprezo que tinha pelo velho deputado estava desaparecendo.
E Silene era uma namorada dedicada e atenciosa. Seu único problema era o excesso de trabalho. Vira e mexe, chegava em casa de madrugada.
- Você trabalha demais. Está sendo explorada _dizia ele.
- Tenho que trabalhar. Fazer o quê? _era, geralmente, a resposta.
O pessoal do jornal era bem legal. Só um dos repórteres, que cobria a área policial, nos últimos meses passara a a agir de modo estranho. Nas festas, quando se encontravam, o cara lhe lançava um olhar frio e evitava conversar com ele. Aquilo o deixava inquieto.
- Aquele seu colega, o Valdomiro. Você não acha que ele tá meio estranho ultimamente? Parou de vir aqui em casa. Não fala mais com a gente. Fica nos olhando daquele jeito esquisito...
- Ele é estranho mesmo. Não liga não.
Mas Alessandro ligava. Alguma coisa naquele sujeito o deixava encanado. E a encanação aumentou numa noite, quando foi buscar Silene no jornal para irem ao cinema. Chegando um pouco antes do horário combinado, parou o carro perto da entrada da empresa, do outro lado da rua. Desligou os faróis e pegou o celular. Ia ligar para a mina avisando que já estava lá, quando olhou para a portaria e a viu. Ela conversava com Valdomiro. Os dois sorriam e os olhos de ambos pareciam brilhar. A cena durou poucos segundos, pois ela logo notou o carro. Disse mais alguma coisa para o colega e, apressada, atravessou a rua correndo.
Alessandro continuou observando Valdomiro. O olhar deste acompanhou a corrida da garota até o carro e depois caiu sobre o assessor. Seu rosto então se tornou sombrio. E ele deu meia volta e pôs-se a caminhar em direção ao boteco mais próximo. Silene bateu a porta e beijou o namorado como se tudo estivesse normal.
- O que vocês estavam conversando?
- Nada...
- Como nada? Estavam os dois sorrindo...
- E daí? A gente não pode sorrir?
- Mas esse cara não sorri pra gente. Sempre fica com aquela cara esquisita. Você viu o jeito que ele me olhou agora?
- Ah... Desencana...
- Como desencana, Si? Só quero saber por que vocês estavam sorrindo daquele jeito...
- Que é? Tá com ciúmes agora? Quer brigar comigo, é isso?
-... Não... Não quero brigar com você. Eu só...
- Se não quer brigar, então pára com essa conversa. Já perdi a vontade de ir pro cinema. Vamos pra casa.
A fala da namorada soou como uma ordem. E Alessandro, apaixonado, obedeceu. Se ela o mandasse rolar no chão como um cachorrinho, ele o faria. Por isso, dirigiu quieto até o prédio e não tocou mais no assunto. Mas continuou cabreiro. Aquela merda o estava irritando. Atrapalhando a vida feliz que havia descoberto ao lado de Silene. O olhar sombrio de Valdomiro, fitando-o do outro lado da rua, não lhe saía da cabeça. E, pior ainda, não lhe saíam da cabeça aqueles poucos segundos em que o viu trocando sorrisos com sua namorada. Precisava saber o que estava acontecendo. Dar uma prensa no sujeito e descobrir o que se passava. O problema era sua falta de coragem.
Mais alguns dias se foram e a encanação começou a tirar seu sono. Quando dormia, tinha pesadelos estranhos. Em um deles, que sempre se repetia, via Valdomiro e Silene, um de frente pro outro. Os dois se olhavam apaixonadamente. Alessandro caminhava até eles, mas ambos o ignoravam. Continuavam se olhando. Pareciam não percebê-lo. Ele então tentava tocar o ombro da namorada e não conseguia, pois sua mão a atravessava como se fosse feita de ar. Nesse ponto, ele sempre acordava desesperado. Uma noite esse sonho pareceu tão real que ele despertou gritando. Silene fez até um chazinho de erva doce pra que relaxasse.
Perguntou-lhe o que sonhara, mas ele não disse. Não diria nem fodendo. Tinha medo de recomeçar aquela discussão do carro. Depois do chá, os dois voltaram para a cama e ficaram abraçados. Ela logo dormiu mas ele permaneceu de olhos abertos. Pensando. Chegou à conclusão de que tinha de tomar coragem e ir falar com o cara.
Por isso, na noite seguinte foi até o jornal. Parou o carro longe _não queria correr o risco de que Silene o visse. Andou até um poste próximo à entrada e ficou lá, parado. Viu a namorada saindo. Cedo demais. "Ela disse que ia ficar até tarde hoje...", pensou. Teve vontade de ir atrás e abordá-la enquanto ela caminhava até a esquina. Mas logo viu Valdomiro. Ele saiu em seguida. Novamente com rosto sombrio, parou em frente ao jornal. Seu olhar seguia Silene. Quando a perdeu de vista, deu meia volta e foi pro boteco. Alessandro foi atrás.
Valdomiro chegou no bar cumprimentando os funcionários. Sentou-se sozinho no balcão e pediu uma cerveja e um conhaque. Parecia perturbado, triste. Notou a aproximação de Alessandro.
- E aí Valdomiro, beleza? _disse o assessor com insegurança na voz.
Antes de responder, o outro o olhou fixamente por alguns segundos. Com cara fechada, porém, calma.
- Tudo certo _finalmente respondeu, antes de dar um golão da dose servida de Domecq que o balconista botara pra ele.
- Posso me sentar aqui? _perguntou Alessandro, já se aproximando do banco ao lado.
-Lógico. Dá mais um copo aí, Serjão.
Serjão trouxe o copo americano e Valdomiro o encheu de cerveja para Alessandro. Ambos ficaram quietos por mais um tempo, bebendo e olhando pra frente. Até que o repórter quebrou o silêncio.
- Sua mina acabou de sair fora.
- Eu sei. Eu vi. ...Na verdade eu vim pra falar com você.
Valdomiro matou o resto do Domecq numa golada, pegou o copo de cerveja e, sempre calmo, disse:
- Fala.
- Olha, eu nem te conheço direito. Na época que eu e a Silene távamos começando a namorar a gente até trocou umas idéias, lembra? Te achei um cara legal. Mas de uns tempos pra cá você mudou...
- Uh... _grunhiu Valdomiro, dando uma golada da cerveja.
- Vim aqui pra saber por que você me olha desse jeito. Parece que eu te fiz alguma coisa...
- Desencana. Você não me fez nada. Fica tranqüilo com sua mina.
- Mas por que você age assim?
O repórter fez cara de impaciente. Virou o copo de cerveja, voltou a enchê-lo, pediu mais um conhaque e falou:
- Você quer mesmo saber?
Alessandro balançou a cabeça afirmativamente.
- Sua mina não vale nada.
- O quê?
- Você ouviu. Sua mina não vale nada.
- Como assim, cara? Por que você tá falando assim da Si? Tá louco?
- Que é? Vai engrossar? É bom não arrumar briga comigo. Se arrumar, é bom me matar. Senão eu te mato primeiro.
A frieza, calma e sinceridade das últimas palavras de Valdomiro, além de seu maldito olhar sombrio, provocaram calafrios no assessor. Que se sentiu pequeno.
- Olha, cara, não quero arrumar briga. Só quero saber o que tá acontecendo.
- Quer saber o que acontece? É só abrir o olho, xará. Você viu que sua mina acabou de sair, né? São quinze pras dez agora.
- É...
- Que horas ela costuma chegar na sua casa?
- Não tem hora. Tem dia que chega às dez e meia. Tem dia que chega meia noite, três, quatro da manhã. Hoje ela disse que ia demorar. Deve ter acontecido alguma coisa... Saiu cedo...
- Então faz o que eu digo. Vai pra sua casa e vê a que horas ela chega.
Dito isso, Valdomiro matou seu segundo Domecq numa só talagada e ainda virou o copo de cerveja. Depois o encheu de novo e ficou quieto, bebendo. Alessandro não sabia o que dizer. Estava com medo do cara. Por isso se levantou, saiu do boteco e foi para seu carro. Não conseguia pensar. Dirigiu para o prédio com o rádio desligado. Sentado em seu apartamento, ficou olhando o relógio. Não conseguia pensar em porra nenhuma. As horas passavam e nada de Silene chegar. Ela só deu as caras às duas da manhã.
- Onde você tava?
- Nossa... Que cara... Você tá passando bem? _perguntou, chegando até ele, passando a mão em sua cabeça e dando-lhe um beijinho na testa.
- Tô bem, tô bem... Mas onde você tava?
- No jornal, né... Não te disse que eu ia trabalhar até tarde?
Alessadro quase falou que a vira sair cedo. Mas ficou quieto. Não queria que ela soubesse que fora conversar com Valdomiro.
- É... Eu tinha esquecido. Não tô passando muito bem... Vou deitar.
- Quer que eu faça um chá pra você?
- Não. Não é nada. Vamos dormir.
Que dormir porra nenhuma. Mais uma noite sem pregar o olho. Na seguinte, não dormiu de novo. E na outra, a mesma coisa. Quando o cansaço o derrubava, lá vinha aquele sonho e ele despertava desesperado. Tomou a decisão.
No dia seguinte, às nove e quarenta, lá estava ele, novamente encostado ao poste. De novo Silene saiu poucos passos antes de Valdomiro. Só que, dessa vez, este não ficou parado a observando. Correu até ela e a deteve. A mina virou para ele com o rosto triste, parecia que ia chorar. Fez um sinal negativo com a cabeça, após trocarem algumas palavras. Depois saiu apressada, deixando ele parado, olhando-a até ela dobrar a esquina.
Como era de rotina, Valdomiro deu meia volta. Iria ao boteco, mas, após alguns passos, deu de cara com Alessandro.
- Naquele dia, ela chegou em casa às duas_disse o rapaz transtornado.
- E então?
- Então o quê?
- Que conclusão você tira disso?
- ... Não sei.
- Que não sabe o quê. Você tá se fazendo de idiota. É óbvio que ela tá mentindo pra você. Te enganando.
Alessandro começou a tremer de nervoso.
- Você sabe pra onde ela foi naquela noite?
- Acho que sei.
- E pra onde ela foi?
Pela primeira vez em meses, Valdomiro sorriu para Alessandro. Mas não era um sorriso do bem. Do jeito que sorria, parecia que havia incorporado toda a maldade do mundo.
- Eu não vou dizer.
- FALA, DESGRAÇADO!!! _gritou Alessandro, indo pra cima dele.
Valdomiro só se afastou um pouco e deu um chutão que atingiu em cheio o saco do assessor. Este se dobrou e caiu de joelhos. O repórter então o agarrou pelos cabelos, sacou um canivete butterfly e encostou a ponta da lâmina em sua garganta.
- Quer brigar, filho da puta? Já te disse. Eu não brigo, eu mato. Se um filho da puta me enche o saco, eu acabo com ele. Pela frente, pelas costas, tanto faz. Eu tiro ele do meu caminho. Entendeu?
Seguranças do jornal, que viram a treta de longe, logo chegaram correndo. Valdomiro soltou Alessandro.
- Que que tá acontecendo? _perguntou um dos seguranças.
- Ô, Chicão. Tá tudo tranqüilo agora. O rapaz ficou nervoso, mas já acalmei ele. Não é? Alê!
Alessandro só olhou para o agressor, assustado.
- Quer saber mais sobre sua mina? Espera. Em breve eu vou te ligar e você saberá tudo sobre ela.
Dito isso, Valdomiro foi para o boteco, deixando o assessor de joelhos, em companhia dos seguranças. Eles o olharam feio por mais uns segundos e voltaram a seu posto. Alessandro se levantou e foi para o carro. Assim que entrou nele, desandou a chorar. Ficou chorando feito uma criancinha por uns quinze minutos. Depois ligou o motor. E foi pro apê.
- Onde você estava? _perguntou-lhe Silene (dessa vez ela chegou cedo).
- Ahnn... Fui dar uma... volta...
- Nossa... Tô ficando preocupada com você. Parece que viu um fantasma.
- É... Quer dizer... Não. Não é nada.
A mina ainda insistiu. Mas ele não disse a verdade. Acabou inventando que saiu para ir à padaria a pé e tentaram assaltá-lo no meio do caminho. Ela acabou engolindo a história.
Os dias passaram. Depois de ter o canivete encostado à garganta, Alessandro resolveu esquecer aquela história. Era um puta covardão. Foi pra casa de praia de seu pai, na Riviera de São Lourenço, com Silene. Tiveram um fim de semana maravilhoso. As reuniõezinhas de jornalistas e as festinhas continuaram a rolar. De vez em quando aquele sonho voltava. Mas era só de vez em quando. Um mês se foi. Até que um dia, em sua sala na assembléia, recebeu o telefonema.
- Alô...
- Ainda tá a fim de saber a verdade sobre sua linda namoradinha?
Alessandro reconheceu a voz no ato e sentiu um arrepio. Era o filho da puta do Valdomiro.
- Não quero mais falar com você...
- Encontra comigo hoje, às quinze pras dez. Vô tá te esperando em frente àquele boteco. Venha de carro.
Dito isso, Valdomiro bateu o telefone na cara do assessor.
Às quinze pras dez, pontualmente, Alessandro parou o carro em frente ao bar e o repórter entrou. O assessor tremia. Estava visivelmente passando mal de transtorno. Parecia que ia enlouquecer.
- Rapaz, você tá mal, hein? Vamos. Dobra aquela esquina.
Sem dizer nada, o rapaz fez o que Valdomiro mandava.
- Pára ali na frente. Do lado da árvore tá bom.
Depois de estacionar, finalmente o assessor abriu a boca.
- E agora?
- Agora espera _disse Valdomiro, ajustando o espelho do pára-brisa.
Alguns minutos se passaram, sem o repórter tirar os olhos do espelhinho.
- Olha lá a sua namorada. Veja pelo retrovisor.
Alessandro viu Silene parada um pouco depois da esquina. Parecia esperar alguém. Depois de longos minutos, um Audi prata parou do seu lado e ela entrou.
- Vai. Vamos segui-los_ disse Valdomiro assim que o Audi passou ao lado do carro de Alessandro.
- De quem é aquele carro?
- É do Júlio, pauteiro de geral. Um dos chefes dela.
- Onde eles tão indo?
- Eu acho que já sei. Vamos ver...
Agoniado, o assessor seguiu o carro prateado a certa distância. Depois de alguns quarteirões, ele entrou na garagem de um motelzinho meia boca.
- Aqui no centro não tem motel legal. Ela pede pra gente levá-la a esse aí porque é mais perto. Assim ela pode trepar rapidinho e, sem perder muito tempo, voltar pro seu apartamento _disse calmamente Valdomiro.
Alessandro estava estático. Não sabia o que pensar. Só queria morrer.
- Entra naquela rua. Lá tem um botecão podre.
O outro obedeceu. Parecia um robô. Minutos depois ambos estavam no balcão do botecão podre.
- Dá dois Domecqs e uma Brahma.
- Não tem Domecq. Só Dreher e Presidente _disse o balconista. Um gordão suado, com barba rala e dentes podres.
- Pode ser Dreher.
Sentado no boteco, Alessandro era só desolação. Inexpressivo, olhava para o vazio. O copo de conhaque foi colocado em sua frente. Olhou para Valdomiro. O repórter já virava seu goró.
- Bebe esse conhaque de uma vez. Depois manda a cerveja em cima. Vai te fazer bem.
Alessandro virou os dois copos e chamou o gordão. Pediu outro conhaque.
- Ahan... Senti firmeza... Agora vou tentar resumir tudo que você não sabe sobre sua mina.
Valdomiro começou a falar. Entre conhaques e cervejas contou como foi seu caso com Silene. Ela já namorava com Alessandro quando ficou com ele pela primeira vez.
- Ela gostou bastante. Eu também. Depois a gente ficou mais uma vez. E mais uma...
Durante um semestre os dois tiveram um romance. Chegaram ao ponto de ficarem namorando nas escadas e corredores do jornal. Treparam várias vezes no motelzinho onde a mina havia acabado de entrar com o chefe.
- Eu via que ela tava apaixonada por mim. E eu por ela. Mas não sou ciumento. Nunca fiz pressão pra ela terminar com você. Mas, na balada, não suportava ver vocês dois juntos. Por isso te olhava com aquela cara. Foi meu erro. Porque você começou a encanar e ela, sem falar nada, simplesmente parou de ficar comigo. Sofri pra caralho. Você sabe como sua mina é foda. Ela deixa a gente doido.
Segundo narrava Valdomiro, seu sofrimento aumentou quando descobriu que também era enganado por Silene.
- Uma vez dei carona pra ela até seu prédio com um carro do jornal. Depois que ela desceu, o motorista virou pra mim e disse "é... essa mina é perversa". E me contou que já a havia levado praquele motel com outros dois manos do jornal. Dois fotógrafos. O Samuel e o Andrade. Aí dei uma prensa na Katia, que é muito amiga dela e é a fim de mim. Mulher é foda. Não precisei insistir pra mina me entregar que sua namorada também já tinha dado pro Rogério, depois pro Lúcio e até tido um caso com o Saraiva, que é um puta amigo meu. Cê tá ligado que todos eles já foram pra sua casa beber com vocês e o resto da galera. O Saraiva, pelo que descobri, comeu ela até em sua cama, uma vez que você ficou bêbado e apagou no sofá... Assim que soube de tudo isso, fiquei muito mal. Por isso bebo desse jeito até hoje. Fico no bar, enchendo a cara e remoendo meus pensamentos. Quando você me abordou aquele dia no boteco eu tava puto. Antes da Silene sair do jornal, percebi que tinha cochichado alguma coisa com o Júlio. Logo ganhei que também tava tendo um caso com ele. Fui encher a cara e você apareceu lá. Achei até engraçado. Depois daquilo fiquei só observando o movimento da sua mina. Tinha dia que ela e o Júlio mal se falavam. Mas, quando rolavam aqueles cochichos, eu tinha certeza: os dois já tavam armando esqueminha pra ir no motel. Resolvi me aproximar do Júlio. Fiquei mais amigo dele. Hoje o chamei pra tomar um café e toquei no assunto. Ele contou vantagem pra caralho, falou que te achava um puta de um otário, pois sua mina tava rodando a banca. Aí ele me disse que hoje ia dar uma foda com ela. Resolvi te chamar.
Terminada a história, Valdomiro esvaziou seu último copo de cerveja.
- Bom... Preciso ir andando. Toma. É um presente pra você _disse o repórter, entregando um saquinho de papel ao assessor.
Depois que Valdomiro virou as costas e saiu andando, Alessandro viu o que tinha no saquinho: Um pacote de raticida.
No dia seguinte, às nove da manhã, aflita com o sumiço do namorado, Silene foi até a garagem do prédio para ver se o carro dele estava lá. Estava, com Alessandro dentro. Ele tinha tomado o raticida com Dreher. Ainda segurava a garrafa, com dois terços de bebida, sobre o colo. O saco plástico do supermercado 24 horas, com a nota fiscal do goró, estava no banco do passageiro.
Uma semana depois do enterro, Silene ainda não havia voltado trabalhar. Caíra forte em depressão. O deputado, sensibilizado com o choro da menina no velório, disse que ela podia ficar com o apartamento do filho _já tinha dado apartamentos a um monte de putas, por que não um à namorada do rapaz?
Ela estava no apê, chorando sozinha, na noite em que o interfone tocou. Era Valdomiro. Pensou um instante, mas acabou falando pro porteiro deixá-lo subir. Quando abriu a porta e o viu, ficou parada, sem falar nada. Ele também. Durante muito tempo os dois ficaram se olhando. Olhares apaixonados. Até que um calafrio a fez estremecer. Parecia que havia sentido a presença de alguém. O repórter aproveitou o desvio de olhar para abraçá-la de repente. Ela deixou. Percebeu que tudo o que queria era aquele abraço.
Depois de muitas noites bebendo no boteco, Valdomiro chegou à conclusão de que não adiantava ficar encanado com os casinhos de Silene. Ela sempre fora daquele jeito. Nunca pararia de dar pra outros caras. O que o repórter realmente queria era que ela voltasse a dar pra ele também. E, pra isso, tinha que tirar aquele assessor de merda do caminho. Foi o que fez. Agora, com a garota nos braços e um sorriso maligno no rosto, sabia que Alessandro estava lá. Observando-os e sofrendo.

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