Aniversário
"Nunca vi alegria tão forçada", pensava Seu Lair, olhando o filho, a nora e os três netos. Todos sentados à mesa, batendo palmas e cantando Parabéns a Você. "Parabéns pra mim? Por fazer 86 anos? Ser viúvo? Não beber? Não trepar? Não ter força pra andar até a esquina? Que bela merda!".
Quando terminaram, o velho, sem nenhum entusiasmo, apagou as velinhas, em formato de oito e seis, no bolo floresta negra.
- Um pedação com duas cerejas pro senhor, Seu Lair _disse Alice, a nora, cortando o pedaço e pondo no pratinho.
Seu Lair o olhou, em sua frente, e soltou um suspiro.
- Que tristeza é essa pai? É seu aniversário _disse Guilherme, o filho, com um sorrisinho besta na cara.
- Se é meu aniversário, quero uma boa dose de uísque.
- Ô, pai... Que é isso? O senhor sabe que não pode...
- Caralho, uma porra de um copo de uísque não vai me matar. E, se matar, melhor. Tô cansado dessa vida de merda. Quero tomar um trago. Só isso.
Os sorrisos forçados foram começando a desaparecer. Os semblantes tornavam-se mais sinceros. Mostravam impaciência. Só o filho, heroicamente, se esforçava para manter o falso sorriso.
- Precisa falar desse jeito, pai? O senhor tá na frente dos seus netos...
- Paulinho, você acha ruim quando o vô fala palavrão? _perguntou o idoso ao neto caçula, que tinha 9 anos. Gostava daquele moleque.
- Não, vô.
- Você fala palavrão também?
- Falo, vô.
- Paulinho, o que é isso? Te boto de castigo! _ralhou Alice, visivelmente irritada.
- Deixa o moleque, porra! Essa vida é uma merda mesmo. Tem mais é que falar muito palavrão!
- O senhor não fale assim comigo, Seu Lair.
- Tô na minha casa. Falo do jeito que eu quero.
Agora Guilherme já não sorria mais.
- Pai, pára com isso. É seu aniversário e a gente veio aqui te trazer um bolo. O senhor devia ser menos mal agradecido e tratar a gente bem.
- Mal agradecido? Eu pedi essa porra desse bolo? Pega essa merda e vai embora. Me deixa morrer sozinho e em paz!
- Pra mim chega. Vamos embora, crianças! _disse a nora, levantando-se.
Os moleques a seguiram em silêncio. O único que disse "tchau, vô" foi Paulinho. Seu Lair sorriu pro guri, mas não falou nada.
- Amor, vai indo pro carro que já vou.
A esposa só olhou feio para Guilherme, pegando a bolsa e saindo com as crianças.
- Pai. A gente precisa conversar...
- Não precisa não. Vai embora com sua mulher e seus filhos.
- Pai, o senhor tá cada vez mais ranzinza. Desde que o médico te proibiu de beber, o senhor só dá patada. Assim tá difícil...
- Olha, Guilherme... Você sempre foi um bom filho. Acho legal você lembrar de mim e vir aqui com meus netos. Mas minha vida já acabou. Sou um velho de merda que daqui a pouco não vai mais nem conseguir limpar o próprio rabo sozinho. Tudo que quero é morrer antes de chegar a esse ponto.
- Mas pai...
- Não tem "mas pai". Se você quer me ver contente, vai até o supermercado e me traz uma garrafa de uísque ou de vodka ou de conhaque ou de qualquer merda que tenha álcool. Quero ficar aqui, sozinho, enchendo a cara até morrer.
- PÁRA COM ISSO, PAI! Não vou comprar merda nenhuma. Agora chega. Andei vendo umas casas de repouso...
- Ah... Então você vai me largar num asilo... Num depósito de velhos...
- Vou. O senhor tá ficando louco. Não dá mais pra te deixar sozinho e não sei mais o que fazer...
Dito isso, os dois ficaram em silêncio por alguns minutos. Ambos olhando para o vazio. Até que Guilherme se levantou.
- Bom... Vou indo. A Alice e os meninos tão no carro me esperando.
O velho continuou em silêncio. Nem olhou para o filho, que foi embora sem falar mais nada. Ficou sozinho, sentado em frente ao seu pedaço de bolo, desejando a morte. Pensou em se enforcar com o lençol. Depois pensou em cortar os pulsos. Mas lembrou que tinha as pílulas e decidiu tomar quarenta de uma vez. Levantou-se, foi até a cozinha e pegou o frasco cheio no armário. Voltou com um copo d`água para a sala de jantar. Despejou as pílulas sobre a mesa. Olhou para o floresta negra.
- Só queria um último trago. Só um último trago... _disse para si mesmo.
- Feliz aniversário...
A voz vinha de trás. O idoso virou e viu um homem encostado à parede da sala de jantar. Ficou paralisado.
- Parece que você tá vendo um fantasma, hehehe...
- E n... n... não tô? _a voz de Seu Lair quase não saía.
- É... Tá sim...
Só então Seu Lair reparou que o visitante tinha uma garrafa debaixo do braço.
- Trouxe o Jim pra comemorar seu aniversário com a gente. Você podia pegar os copos, não? _intimou ele, indo até a mesa com a garrafa de Jim Beam.
- Lizário... Você foi atropelado. Faz uns 40 anos... Eu fui no seu enterro. O que você tá fazendo aqui?
- Você vai pegar os copos ou não? Tô com sede... _disse o fantasma, sentando-se à mesa e pegando o pratinho com a fatia do floresta negra que Seu Lair havia ignorado.
O velho, não entendendo nada, levantou, foi até a cozinha e voltou com dois copos pequenos. Pegou o Jim Beam, enquando Lizário comia o bolo, e examinou a garrafa. "Puta merda", murmurou. E encheu os copos. Esvaziou o seu em uma só golada. Sentiu a bebida descer rasgando e o gosto adocicado do bourbon.
- Meu Deus... Que delícia.
- Não fale em Deus. Quem te mandou isso foi o Diabo.
- O quê?
- O Diabo. Sabe? Eu, o Valtão, o Joca... Tamo tudo no inferno. De lá a gente vê a merda que os camaradas tão vivendo aqui. Ainda bem que não fiquei velho. Isso é que é um verdadeiro inferno...
- Ser velho é uma bosta...
- Com certeza... A gente fica vendo você aí, definhando, sem poder se divertir. Dá muita pena. Por isso resolvemos aparecer. Daqui a pouco os outros tão chegando.
Seu Lair já virava o segundo copo.
- Mas vocês podem sair de lá, vir pra cá assim, do nada?
- Não é do nada... É que caras que nem a gente, que passaram a vida comendo boceta, enchendo a lata e vagabundeando não podem ir pro céu. E acabam indo pro inferno, mas recebem um tratamento diferenciado. Não somos pessoas malvadas que merecem castigo como os estupradores de criança. Esses passam uma eternidade com um caibro no cu. Entrando e saindo.
- Caralho...
- Caralho não. Um tocão de madeira assim, ó _disse, mostrando com as mãos a grossura do negócio_. Depois de um tempo, o rabo do sujeito fica largo que nem um tubo de esgoto.
- Virge... Mas o que acontece com os bebuns no inferno?
- Não acontece nada. O Capeta gosta de caras como nós. Até aparece pra beber com a gente de vez em quando. Pegou um pedaço do inferno e construiu vários botecos. Ficamos lá, enchendo a cara o dia inteiro...
- Que bom... E como é que você veio parar aqui?
- Então... Como eu disse, de lá a gente fica observando tudo que acontece por aqui. Imaginamos que você ia ter um aniversário ruim. Aí eu tomei a iniciativa de trocar uma idéia com o Satanás. Ele autorizou nossa vinda e ainda deixou que trouxéssemos bastante bebida pra fazer uma festinha.
- Porra... O Diabo é gente boa...
- Sim, pra gente é. Agora; pros estupradores...
Os dois deram risada. No quarto copinho, o Jim começou a dar moleza. Lizário era o melhor amigo de Seu Lair, até ser atropelado, em 1974, aos 56 anos de idade.
- Você parece muito bem, Lizário. Tá com olheiras, cara de bebum, como era normalmente. Mas você tava muito mais velho quando morreu. Parece que rejuvenesceu...
- É que a idade do espírito é diferente da idade do corpo. No inferno não tem velho.
- Porra. Preciso ir pra lá agora.
- Relaxa. Daqui a pouco o Satanás em pessoa vai aparecer. Aí você troca uma idéia com ele.
- Porra... O Capeta na minha casa?
- É... Mas vamos mudar o assunto. Você viu a mulherada que chorou no meu enterro?
- Se vi... Ficou até chato. A Lurdes passou mal de raiva. Por falar em Lurdes, e as nossas mulheres? A Izidra morreu faz quatro anos.
- Eu sei. Mas ela foi pro céu. A gente não tem contato com o pessoal que vai pra lá... A Lurdes tá viva ainda. Cega, surda e numa cadeira de rodas. Mas é outra que vai pro céu. O Capeta falou que pro inferno ela não vai.
- É... Coitada da Lurdes... Então a Izidra tá no céu... Ela vivia na igreja e me enchia o saco por causa da bebida. Fico feliz por ela... Mas eu quero ir é pro inferno.
Logo começaram a chegar os outros camaradas. Valtão, Joca, Marivaldo... Aos poucos, a sala de jantar foi se enchendo de gente. Uns dez amigos da antiga apareceram. Zé, morto de cirrose em 1968, trouxe um pandeiro. Artur, vítima de um derrame em 1980, trouxe um cavaquinho. Sisnaldo, esfaqueado em 1975, trouxe um surdo. Seu Lair e os manos do inferno caíram no samba como nos velhos tempos em que freqüentavam o Bixiga.
Todos os mortos que chegavam traziam uísque ou cerveja.
- Amigos, e as mulheres? Não tem mulher na porra do inferno?
Seu Lair já estava completamente breaco.
- Calma Lair. Daqui a pouco ele tá trazendo a mulherada _disse Marivaldo.
- Ele quem?
- Ele... _Com os dedos, o amigo fez chifrinhos na cabeça.
A balada do além continuou a rolar. Na sala de Seu Lair, a roda de samba pegava fogo. Ele só não entendia como nenhum vizinho aparecia pra reclamar. De repente, subiu um forte cheiro de merda e a música parou.
- Porra... Alguém soltou uma bufa violenta.
- Não é bufa, Lair _disse Lizário, com cara séria_. É que quando ele aparece, no começo sempre tem esse cheiro. Mas logo passa.
- Ele quem?
- Lair, esse é o Diabo.
Lizário apontava para a porta da sala, atrás de Seu Lair. Que virou e viu um cara alto, loiro, boa pinta, trajando um chique terno branco.
- Prazer, Lair _disse o visitante estendendo a mão, com olhar sereno e voz de locutor de rádio.
- O prazer é todo meu, Seu Satã. Bem vindo à minha humilde residência.
Seu Lair apertou a mão do Capeta.
- Pensei que o senhor fosse vermelho e tivesse chifres.
O Capeta só deu um sorrisinho com o canto da boca.
- Também há gente que acha que tenho cara de bode. Mas não me chame de senhor... Ele está no céu.
Ouvindo isso, todo mundo caiu na gargalhada. Menos o Satanás, que continuou com seu sorrisinho sem vergonha.
- Tá certo. Mas muito obrigado por deixar meus camaradas virem aqui hoje com toda essa bebida... Tá sendo o melhor aniversário da minha vida.
- Agradeça a eles. Todos gostam muito de você. Especialmente o Lizário, que foi falar comigo. Além do mais, sua alma já é minha.
- Quer dizer que eu vou pro inferno?
- Você tem alguma dúvida disso?
- E quando eu vou?
- Logo... Agora quem precisa ir sou eu. Tenho que supervisionar a tortura de algumas almas. Principalmente a do papa, que chegou esses dias.
- Ele foi pro inferno?
- Todo papa vai... Obrigado pela hospitalidade, Lair. Estarei à sua espera.
Seu Lair novamente apertou a mão do Capeta, que deu meia volta e saiu da sala. O idoso então voltou sua atenção para os amigos e seu queixo caiu.
- Feliz aniversário!!! _gritou em coro a mulherada.
Vindas direto do inferno, antigas namoradas (as mais safadas), alcoólatras, prostitutas, mulheres que traíram seus maridos com Seu Lair. Em plena forma, elas correram para o idoso e o agarraram por todos os lados, beijando-o e se esfregando nele. Enquanto isso, os camaradas improvisavam Parabéns a Você, em ritmo de samba.
Depois de bombardear o velho com beijos, a mulherada começou a rebolar ao som da batucada e a formar pares com os manos de Seu Lair. A festa infernal estava completa. O aniversariante bêbado dançou com todas suas antigas amantes, uma por uma. Até que a mulata Eunice, a ruiva Isabel e a morena Vilma, três das principais paixões de sua juventude, o arrastaram para o quarto. Mas quando elas começaram a arrancar a roupa do idoso, ele, de súbito, sentiu-se deprimido.
- O que foi, Lair? _quis saber Eunice.
- Tô velho. Não agüento mais o tranco. Faz mais de 20 anos que não vou pra cama com uma mulher. Imagina com três de uma só vez?
- Não fala besteira, Lair. Você tá bonitão como sempre. Olha no espelho _disse Isabel.
Seu Lair seguiu o conselho da ruiva e se espantou ao ver, no espelho, a imagem de um jovem de 25 anos. Aí sentiu-se viril como nunca. Olhou as amantes com um sorriso quase maligno. As três estavam sentadas na cama. E o jovem Lair mergulhou no meio delas.
Guilherme voltou à casa do pai três dias depois. Já havia assinado a papelada da casa de repouso e estava receoso. Preparado para ouvir um monte de desaforos. Era muito difícil lidar com o velho.
- Pai!? _chamou, ao entrar.
Não obteve resposta. Passou para a sala de jantar. Espantou-se ao ver que a bandeja do floresta negra ainda estava sobre a mesa. Mas o bolo tinha sido todo devorado. Também viu as pílulas coloridas ainda espalhadas ao lado do frasco. Continuou a procurar pelo pai. Encontrou o cadáver no quarto, nu sob os lençóis e com um grande sorriso no rosto.
Seu Lair estava no inferno.
Quando terminaram, o velho, sem nenhum entusiasmo, apagou as velinhas, em formato de oito e seis, no bolo floresta negra.
- Um pedação com duas cerejas pro senhor, Seu Lair _disse Alice, a nora, cortando o pedaço e pondo no pratinho.
Seu Lair o olhou, em sua frente, e soltou um suspiro.
- Que tristeza é essa pai? É seu aniversário _disse Guilherme, o filho, com um sorrisinho besta na cara.
- Se é meu aniversário, quero uma boa dose de uísque.
- Ô, pai... Que é isso? O senhor sabe que não pode...
- Caralho, uma porra de um copo de uísque não vai me matar. E, se matar, melhor. Tô cansado dessa vida de merda. Quero tomar um trago. Só isso.
Os sorrisos forçados foram começando a desaparecer. Os semblantes tornavam-se mais sinceros. Mostravam impaciência. Só o filho, heroicamente, se esforçava para manter o falso sorriso.
- Precisa falar desse jeito, pai? O senhor tá na frente dos seus netos...
- Paulinho, você acha ruim quando o vô fala palavrão? _perguntou o idoso ao neto caçula, que tinha 9 anos. Gostava daquele moleque.
- Não, vô.
- Você fala palavrão também?
- Falo, vô.
- Paulinho, o que é isso? Te boto de castigo! _ralhou Alice, visivelmente irritada.
- Deixa o moleque, porra! Essa vida é uma merda mesmo. Tem mais é que falar muito palavrão!
- O senhor não fale assim comigo, Seu Lair.
- Tô na minha casa. Falo do jeito que eu quero.
Agora Guilherme já não sorria mais.
- Pai, pára com isso. É seu aniversário e a gente veio aqui te trazer um bolo. O senhor devia ser menos mal agradecido e tratar a gente bem.
- Mal agradecido? Eu pedi essa porra desse bolo? Pega essa merda e vai embora. Me deixa morrer sozinho e em paz!
- Pra mim chega. Vamos embora, crianças! _disse a nora, levantando-se.
Os moleques a seguiram em silêncio. O único que disse "tchau, vô" foi Paulinho. Seu Lair sorriu pro guri, mas não falou nada.
- Amor, vai indo pro carro que já vou.
A esposa só olhou feio para Guilherme, pegando a bolsa e saindo com as crianças.
- Pai. A gente precisa conversar...
- Não precisa não. Vai embora com sua mulher e seus filhos.
- Pai, o senhor tá cada vez mais ranzinza. Desde que o médico te proibiu de beber, o senhor só dá patada. Assim tá difícil...
- Olha, Guilherme... Você sempre foi um bom filho. Acho legal você lembrar de mim e vir aqui com meus netos. Mas minha vida já acabou. Sou um velho de merda que daqui a pouco não vai mais nem conseguir limpar o próprio rabo sozinho. Tudo que quero é morrer antes de chegar a esse ponto.
- Mas pai...
- Não tem "mas pai". Se você quer me ver contente, vai até o supermercado e me traz uma garrafa de uísque ou de vodka ou de conhaque ou de qualquer merda que tenha álcool. Quero ficar aqui, sozinho, enchendo a cara até morrer.
- PÁRA COM ISSO, PAI! Não vou comprar merda nenhuma. Agora chega. Andei vendo umas casas de repouso...
- Ah... Então você vai me largar num asilo... Num depósito de velhos...
- Vou. O senhor tá ficando louco. Não dá mais pra te deixar sozinho e não sei mais o que fazer...
Dito isso, os dois ficaram em silêncio por alguns minutos. Ambos olhando para o vazio. Até que Guilherme se levantou.
- Bom... Vou indo. A Alice e os meninos tão no carro me esperando.
O velho continuou em silêncio. Nem olhou para o filho, que foi embora sem falar mais nada. Ficou sozinho, sentado em frente ao seu pedaço de bolo, desejando a morte. Pensou em se enforcar com o lençol. Depois pensou em cortar os pulsos. Mas lembrou que tinha as pílulas e decidiu tomar quarenta de uma vez. Levantou-se, foi até a cozinha e pegou o frasco cheio no armário. Voltou com um copo d`água para a sala de jantar. Despejou as pílulas sobre a mesa. Olhou para o floresta negra.
- Só queria um último trago. Só um último trago... _disse para si mesmo.
- Feliz aniversário...
A voz vinha de trás. O idoso virou e viu um homem encostado à parede da sala de jantar. Ficou paralisado.
- Parece que você tá vendo um fantasma, hehehe...
- E n... n... não tô? _a voz de Seu Lair quase não saía.
- É... Tá sim...
Só então Seu Lair reparou que o visitante tinha uma garrafa debaixo do braço.
- Trouxe o Jim pra comemorar seu aniversário com a gente. Você podia pegar os copos, não? _intimou ele, indo até a mesa com a garrafa de Jim Beam.
- Lizário... Você foi atropelado. Faz uns 40 anos... Eu fui no seu enterro. O que você tá fazendo aqui?
- Você vai pegar os copos ou não? Tô com sede... _disse o fantasma, sentando-se à mesa e pegando o pratinho com a fatia do floresta negra que Seu Lair havia ignorado.
O velho, não entendendo nada, levantou, foi até a cozinha e voltou com dois copos pequenos. Pegou o Jim Beam, enquando Lizário comia o bolo, e examinou a garrafa. "Puta merda", murmurou. E encheu os copos. Esvaziou o seu em uma só golada. Sentiu a bebida descer rasgando e o gosto adocicado do bourbon.
- Meu Deus... Que delícia.
- Não fale em Deus. Quem te mandou isso foi o Diabo.
- O quê?
- O Diabo. Sabe? Eu, o Valtão, o Joca... Tamo tudo no inferno. De lá a gente vê a merda que os camaradas tão vivendo aqui. Ainda bem que não fiquei velho. Isso é que é um verdadeiro inferno...
- Ser velho é uma bosta...
- Com certeza... A gente fica vendo você aí, definhando, sem poder se divertir. Dá muita pena. Por isso resolvemos aparecer. Daqui a pouco os outros tão chegando.
Seu Lair já virava o segundo copo.
- Mas vocês podem sair de lá, vir pra cá assim, do nada?
- Não é do nada... É que caras que nem a gente, que passaram a vida comendo boceta, enchendo a lata e vagabundeando não podem ir pro céu. E acabam indo pro inferno, mas recebem um tratamento diferenciado. Não somos pessoas malvadas que merecem castigo como os estupradores de criança. Esses passam uma eternidade com um caibro no cu. Entrando e saindo.
- Caralho...
- Caralho não. Um tocão de madeira assim, ó _disse, mostrando com as mãos a grossura do negócio_. Depois de um tempo, o rabo do sujeito fica largo que nem um tubo de esgoto.
- Virge... Mas o que acontece com os bebuns no inferno?
- Não acontece nada. O Capeta gosta de caras como nós. Até aparece pra beber com a gente de vez em quando. Pegou um pedaço do inferno e construiu vários botecos. Ficamos lá, enchendo a cara o dia inteiro...
- Que bom... E como é que você veio parar aqui?
- Então... Como eu disse, de lá a gente fica observando tudo que acontece por aqui. Imaginamos que você ia ter um aniversário ruim. Aí eu tomei a iniciativa de trocar uma idéia com o Satanás. Ele autorizou nossa vinda e ainda deixou que trouxéssemos bastante bebida pra fazer uma festinha.
- Porra... O Diabo é gente boa...
- Sim, pra gente é. Agora; pros estupradores...
Os dois deram risada. No quarto copinho, o Jim começou a dar moleza. Lizário era o melhor amigo de Seu Lair, até ser atropelado, em 1974, aos 56 anos de idade.
- Você parece muito bem, Lizário. Tá com olheiras, cara de bebum, como era normalmente. Mas você tava muito mais velho quando morreu. Parece que rejuvenesceu...
- É que a idade do espírito é diferente da idade do corpo. No inferno não tem velho.
- Porra. Preciso ir pra lá agora.
- Relaxa. Daqui a pouco o Satanás em pessoa vai aparecer. Aí você troca uma idéia com ele.
- Porra... O Capeta na minha casa?
- É... Mas vamos mudar o assunto. Você viu a mulherada que chorou no meu enterro?
- Se vi... Ficou até chato. A Lurdes passou mal de raiva. Por falar em Lurdes, e as nossas mulheres? A Izidra morreu faz quatro anos.
- Eu sei. Mas ela foi pro céu. A gente não tem contato com o pessoal que vai pra lá... A Lurdes tá viva ainda. Cega, surda e numa cadeira de rodas. Mas é outra que vai pro céu. O Capeta falou que pro inferno ela não vai.
- É... Coitada da Lurdes... Então a Izidra tá no céu... Ela vivia na igreja e me enchia o saco por causa da bebida. Fico feliz por ela... Mas eu quero ir é pro inferno.
Logo começaram a chegar os outros camaradas. Valtão, Joca, Marivaldo... Aos poucos, a sala de jantar foi se enchendo de gente. Uns dez amigos da antiga apareceram. Zé, morto de cirrose em 1968, trouxe um pandeiro. Artur, vítima de um derrame em 1980, trouxe um cavaquinho. Sisnaldo, esfaqueado em 1975, trouxe um surdo. Seu Lair e os manos do inferno caíram no samba como nos velhos tempos em que freqüentavam o Bixiga.
Todos os mortos que chegavam traziam uísque ou cerveja.
- Amigos, e as mulheres? Não tem mulher na porra do inferno?
Seu Lair já estava completamente breaco.
- Calma Lair. Daqui a pouco ele tá trazendo a mulherada _disse Marivaldo.
- Ele quem?
- Ele... _Com os dedos, o amigo fez chifrinhos na cabeça.
A balada do além continuou a rolar. Na sala de Seu Lair, a roda de samba pegava fogo. Ele só não entendia como nenhum vizinho aparecia pra reclamar. De repente, subiu um forte cheiro de merda e a música parou.
- Porra... Alguém soltou uma bufa violenta.
- Não é bufa, Lair _disse Lizário, com cara séria_. É que quando ele aparece, no começo sempre tem esse cheiro. Mas logo passa.
- Ele quem?
- Lair, esse é o Diabo.
Lizário apontava para a porta da sala, atrás de Seu Lair. Que virou e viu um cara alto, loiro, boa pinta, trajando um chique terno branco.
- Prazer, Lair _disse o visitante estendendo a mão, com olhar sereno e voz de locutor de rádio.
- O prazer é todo meu, Seu Satã. Bem vindo à minha humilde residência.
Seu Lair apertou a mão do Capeta.
- Pensei que o senhor fosse vermelho e tivesse chifres.
O Capeta só deu um sorrisinho com o canto da boca.
- Também há gente que acha que tenho cara de bode. Mas não me chame de senhor... Ele está no céu.
Ouvindo isso, todo mundo caiu na gargalhada. Menos o Satanás, que continuou com seu sorrisinho sem vergonha.
- Tá certo. Mas muito obrigado por deixar meus camaradas virem aqui hoje com toda essa bebida... Tá sendo o melhor aniversário da minha vida.
- Agradeça a eles. Todos gostam muito de você. Especialmente o Lizário, que foi falar comigo. Além do mais, sua alma já é minha.
- Quer dizer que eu vou pro inferno?
- Você tem alguma dúvida disso?
- E quando eu vou?
- Logo... Agora quem precisa ir sou eu. Tenho que supervisionar a tortura de algumas almas. Principalmente a do papa, que chegou esses dias.
- Ele foi pro inferno?
- Todo papa vai... Obrigado pela hospitalidade, Lair. Estarei à sua espera.
Seu Lair novamente apertou a mão do Capeta, que deu meia volta e saiu da sala. O idoso então voltou sua atenção para os amigos e seu queixo caiu.
- Feliz aniversário!!! _gritou em coro a mulherada.
Vindas direto do inferno, antigas namoradas (as mais safadas), alcoólatras, prostitutas, mulheres que traíram seus maridos com Seu Lair. Em plena forma, elas correram para o idoso e o agarraram por todos os lados, beijando-o e se esfregando nele. Enquanto isso, os camaradas improvisavam Parabéns a Você, em ritmo de samba.
Depois de bombardear o velho com beijos, a mulherada começou a rebolar ao som da batucada e a formar pares com os manos de Seu Lair. A festa infernal estava completa. O aniversariante bêbado dançou com todas suas antigas amantes, uma por uma. Até que a mulata Eunice, a ruiva Isabel e a morena Vilma, três das principais paixões de sua juventude, o arrastaram para o quarto. Mas quando elas começaram a arrancar a roupa do idoso, ele, de súbito, sentiu-se deprimido.
- O que foi, Lair? _quis saber Eunice.
- Tô velho. Não agüento mais o tranco. Faz mais de 20 anos que não vou pra cama com uma mulher. Imagina com três de uma só vez?
- Não fala besteira, Lair. Você tá bonitão como sempre. Olha no espelho _disse Isabel.
Seu Lair seguiu o conselho da ruiva e se espantou ao ver, no espelho, a imagem de um jovem de 25 anos. Aí sentiu-se viril como nunca. Olhou as amantes com um sorriso quase maligno. As três estavam sentadas na cama. E o jovem Lair mergulhou no meio delas.
Guilherme voltou à casa do pai três dias depois. Já havia assinado a papelada da casa de repouso e estava receoso. Preparado para ouvir um monte de desaforos. Era muito difícil lidar com o velho.
- Pai!? _chamou, ao entrar.
Não obteve resposta. Passou para a sala de jantar. Espantou-se ao ver que a bandeja do floresta negra ainda estava sobre a mesa. Mas o bolo tinha sido todo devorado. Também viu as pílulas coloridas ainda espalhadas ao lado do frasco. Continuou a procurar pelo pai. Encontrou o cadáver no quarto, nu sob os lençóis e com um grande sorriso no rosto.
Seu Lair estava no inferno.

1 Comments:
='Brand New News From The Timber Industry!!'=
========Latest Profile==========
Energy & Asset Technology, Inc. (EGTY)
Current Price $0.15
================================
Recognize this undiscovered gem which is poised to jump!!
Please read the following Announcement in its Entierty and
Consider the Possibilities
Watch this One to Trade!
Because, EGTY has secured the global rights to market
genetically enhanced fast growing, hard-wood trees!
EGTY trading volume is beginning to surge with landslide Announcement.
The value of this Stock appears poised for growth! This one will not
remain on the ground floor for long.
Keep Reading!!!!
===============
"BREAKING NEWS"
===============
-Energy and Asset Technology, Inc. (EGTY) owns a global license to market
the genetically enhanced Global Cedar growth trees, with plans to
REVOLUTIONIZE the forest-timber industry.
These newly enhanced Global Cedar trees require only 9-12 years of growth before they can
be harvested for lumber, whereas worldwide growth time for lumber is 30-50 years.
Other than growing at an astonishing rate, the Global Cedar has a number of other benefits.
Its natural elements make it resistant to termites, and the lack of oils and sap found in the wood
make it resistant to forest fire, ensuring higher returns on investments.
the wood is very lightweight and strong, lighter than Poplar and over twice
as strong as Balsa, which makes it great for construction. It also has
the unique ability to regrow itself from the stump, minimizing the land and
time to replant and develop new root systems.
Based on current resources and agreements, EGTY projects revenues of $140 Million
with an approximate profit margin of 40% for each 9-year cycle. With anticipated
growth, EGTY is expected to challenge Deltic Timber Corp. during its initial 9-year cycle.
Deltic Timber Corp. currently trades at over $38.00 a share with about $153 Million in revenues.
As the reputation and demand for the Global Cedar tree continues to grow around the world
EGTY believes additional multi-million dollar agreements will be forthcoming. The Global Cedar nursery has produced
about 100,000 infant plants and is developing a production growth target of 250,000 infant plants per month.
Energy and Asset Technology is currently in negotiations with land and business owners in New Zealand,
Greece and Malaysia regarding the purchase of their popular and profitable fast growing infant tree plants.
Inquiries from the governments of Brazil and Ecuador are also being evaluated.
Conclusion:
The examples above show the Awesome, Earning Potential of little
known Companies That Explode onto Investor�s Radar Screens.
This stock will not be a Secret for long. Then You May Feel the Desire to Act Right
Now! And Please Watch This One Trade!!
GO EGTY!
All statements made are our express opinion only and should be treated as such.
We may own, take position and sell any securities mentioned at any time. Any statements that express or involve discussions with respect
to predictions, goals, expectations, beliefs, plans, projections, objectives, assumptions or future events or performance are
not statements of historical fact and may be "forward, looking
statements." forward, looking statements are based on expectations, estimates
and projections at the time the statements are made that involve a number of risks and uncertainties which could cause actual results
or events to differ materially from those presently anticipated. This newsletter was paid $3,000 from third party (IR Marketing).
Forward,|ooking statements in this action may be identified through the use of words such as: "projects", "foresee", "expects". in compliance with Se'ction 17. {b), we disclose the holding of EGTY shares prior to the publication of this report. Be aware of an inherent conflict of interest resulting from such holdings due to our intent to profit from the liquidation of these shares. Shares may be sold at any time, even after positive statements have been made regarding the above company. Since we own shares, there is an inherent conflict of interest in our statements and opinions. Readers of this publication are cautioned not to place undue reliance on forward,looking statements, which are based on certain assumptions and expectations involving various risks and uncertainties that could cause results to
differ materially from those set forth in the forward- looking statements. This is not solicitation to buy or sell stocks, this text is
or informational purpose only and you should seek professional advice from registered financial advisor before you do anything related with buying or selling stocks, penny stocks are very high risk and you can lose your entire investment.
Postar um comentário
<< Home