segunda-feira, junho 05, 2006

Noite de domingo

Noite de domingo.
Debruçado na janela, Valberto deu mais um pega na ponta do baseado. Que já começava a queimar seus dedos. Olhava as luzes da cidade, na direção da rua Augusta. O aparelho de som tocava Garageland, do Clash.
O banza miou quase junto com o CD. Estava pronto. Arremessou a ponta para a rua e fechou a janela. Vestiu o casaco, apagou a luz e saiu.
Caminhando pela avenida São João, observava as pessoas. Nigerianos com celular na orelha. Carroceiros e seus vira-latas. Adolescentes de preto bebendo vinho vagabundo. Crentes comendo espigas de milho na saída do culto. Mendigos. Travecos.
Gostava do centrão decadente.
Depois de passar pela playboyzada do Bar Brahma, virou à direita, na avenida Ipiranga. Mudou de calçada para não ficar do lado da praça da República, que é meio escuro.
Na outra calçada, passou pelos hippies. Sentados no chão, eles conversavam e vendiam seu artesanato de durepox.
- Ei, amigo! Dá uma olhada no meu trampo, sem compromisso... _ disse um deles, ao lado da entrada do metrô. Estava só, um pouco afastado dos outros.
- Valeu, irmão... _ respondeu, olhando de relance para o hippie.
- Arruma pelo menos um real, irmãozinho. Nem almocei hoje.
Valberto parou. Botou a mão no bolso da calça e tirou um punhado de moedas; uns 75 centavos.
- Isso é tudo que posso te dar.
Caminhando em direção ao hippie, percebeu que a cara deste, em meio aos cabelos compridos e ensebados, era toda tatuada. Estendeu a mão com a esmola para o sujeito, que deu um bote e agarrou seu pulso. As moedas caíram sobre as peças de durepox.
Com um tranco, o rapaz conseguiu se soltar. Pensou em chutar a cara daquele hippie maldito. Mas viu o maluco paralisado, com a boca aberta e os olhos esbugalhados, perdidos no vazio. Parecia estar alucinando.
Desencanou. Lentamente, deu meia volta. Ia continuar sua caminhada, quando o doido falou:
- Cuidado c'ua noite, irmãozinho... A cidade é pirigoooosa... _ e começou a gargalhar.
Olhou novamente o rosto tatuado e insano do hippie. Sentiu um calafrio.
Virou a cara e seguiu seu caminho. Aos poucos o som da gargalhada foi ficando para trás. Entrou na avenida São Luís, depois na rua Martins Fontes e logo estava na Augusta. Na subida da rua, passava pelas prostitutas. Algumas bem atraentes. Trocava olhares com elas. A maioria o ignorava. Os homens de terno, nas portas de boate, insistiam:
- Vamo entrá, meu camarada... Ganha uma cerveja grátis... Aqui é só gatinha....
Andou mais um pouco e chegou ao bar Ibotirama. Deu uma olhada pelo interior. Ninguém conhecido.
Muitos amigos freqüentavam aquela parte da Augusta. O tipo de amigo em quem sempre esbarrava por acaso. E cujo encontro podia significar uma visita ao inferno.
Mas não havia amigos à vista. Sentou-se junto ao balcão e pediu uma Skol. Bebia a cerveja devagar, no copo americano, olhando ao redor.
Achava aquele um bom boteco. Entre seus clientes, quase sempre havia garotas que tornavam a paisagem interessante. Também via muitos rostos familiares. De gente com quem nunca havia conversado, mas que costumava ver toda semana.
Estava quase acabando a primeira cerveja quando uma dessas caras conhecidas entrou no bar. Uma que lhe chamava atenção. De uma garota com olhos cinzentos e pele bem clara.
Era baixa. Devia ter uns 25 anos. O cabelo, um pouco acima dos ombros, era negro e liso. Usava saia preta até o joelho, tênis All Star surrado e agasalho.
Havia visto aquela garota em algumas baladas. Na Lôca e na Torre, pelo menos.
Ela entrou no Ibotirama com passos lentos e andar desleixado. Fumando um cigarro. Também sentou-se junto ao balcão, mais ou menos perto dele, e acenou para o balconista. Pediu vodca com gelo. E esperou, fumando seu cigarro com impaciência.
Nesse instante, virou o rosto e encarou Valberto por algumas frações de segundo. Desviou os olhos quando a vodca chegou.
Ele acabou com a primeira cerveja, pediu mais uma e ficou tomando. Seu olhar continuava a passear pelo boteco. Sempre voltando para a moça da vodca.
Ela sorvia a bebida devagar. Olhando para frente. Para a parede. Sua mente estava longe.
"Puta merda...", pensava seu observador, "que gatinha..." Imaginava-se dando leves mordidinhas e beijinhos por cada centímetro daquela pele branca, que devia ser cheia de pintinhas marrons. Perguntava-se que cor teriam os mamilos dela. Seriam clarinhos? Roxos? Achava que deviam ser grandes e cor de rosa, com bicos bem arredondados, não muito salientes. Mas, seja como fossem, chuparia muito aqueles mamilos.
Seus olhos já não passeavam mais pelo bar. Estavam fixos na menina. De pau duro, terminou a segunda garrafa de Skol e resolveu seguir o exemplo da garota. Também pediu uma vodca.
Nisso, com um movimento brusco, ela abriu sua pequena bolsa. De onde tirou um celular que vibrava.
Ele ficou atento.
- Oi... _ a voz não refletia muita emoção_ ... Tô no bar. ... Aqui no Ibotirama. ... Lôca? ... Beleza... Tô indo aí.
Depois de desligar o telefone, ela deu um longo suspiro. Matou sua vodca em uma talagada, chamou o balconista e pagou a conta com dinheiro. Quando se levantava do banco, depois de pegar o troco, deu mais uma breve olhada para ele. E foi embora.
Imediatamente, Valberto começou a pensar em ir atrás. O jeito que ela virou aquela vodca só o deixou mais atiçado. Olhou para o relógio de seu celular. Era quase dez horas. Na Lôca devia estar tocando rock. Tomou sua bebida sem muita pressa. Não queria sair de imediato, seguindo a garota. Sabia para onde ela ia.
E o balconista havia caprichado na vodca.

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Saiu do Ibotirama em direção à rua Frei Caneca. Em pouco tempo mostrava o RG para o segurança, na porta da Lôca.
O lugar estava lotado. Como sempre, por todo tipo de maluco. Gente que busca as últimas doses de loucura e diversão antes de a segunda-feira chegar.
Com um pouco de dificuldade, conseguiu abrir caminho entre a multidão até o balcão do bar. Pegou uma lata de cerveja.
Como imaginara, estava rolando rock. Entrou na pista escutando os primeiros acordes de Big Mouth Strikes Again, dos Smiths. As cervejas e a vodca do Ibotirama estavam fazendo efeito. Começou a dançar com fúria e os olhos sempre atentos à sua volta, procurando pela garota. E também olhando as outras.
Os sons seguintes o mantiveram em movimento. New Order, Joy Division, Strokes, Pixies... e Ramones. Não conseguiu sair da pista para pegar mais cerveja. A primeira lata ficou chocha na metade, de tanto que balançava.
Na hora em que o dj começou a tocar Ramones _ Blietzkrieg Bop _, como de costume, ficou possesso. A música acelerava seu sangue a uma velocidade absurda, eletrocutando-o, deixando-o maluco.
Valberto chacoalhava alucinado quando a notou. A garota estava lá, a alguns passos dele. Também dançando com fúria. E olhando em sua direção.
Encarando-a, foi se aproximando. A música acabou, dando lugar a um Clash. London Calling. Ambos continuaram dançando como loucos. Ele foi chegando bem perto da moça. Ela deu meia volta e ficou de costas, olhando-o por cima do ombro esquerdo.
Lentamente, Valberto encostou seu corpo ao dela. Mas a gatinha se afastou. Com um sorriso cheio de malícia, voltou a ficar de frente para ele, a uma certa distância. Os dois seguiram com a dança e a troca de olhares.
Até que um cara esquisito apareceu. Um sujeito de cabelos brancos. Devia ter uns cinqüenta e poucos anos. Usava roupas pretas. E já chegou dando um beijo na boca da menina do Ibotirama. Depois, os dois saíram da pista.
- Que merda... _ resmungou Valberto.
Já não dançava mais com tanta fúria.
Acabou o som do Clash. Sobre o palco da Lôca, começou a rolar a tradicional performance do travesti. Que sempre fala umas merdas e, depois, dança e dubla uma música. Aproveitou para ir ao bar, pegar mais uma cerveja.
Enquanto disputava espaço junto ao balcão, alguém deu um toque em seu ombro. Virou e viu Alex. Um cara bem grande, gordão e gente boa, que sempre estava na balada.
- E aê, brother? Tudo certo?
- Fala Alex! Como vai, mano? Resolveu visitar o inferno hoje?
- Pois é, bicho. É o que resta no domingão.
- Pode crer.
- E hoje até que não tem tanto veado. Tá cheio de minazinha. Agarrei uma muito gata...
Alex não tinha muito jeito com as mulheres. Costumava ser grosseiro. Do tipo que chega puxando cabelo ou passando a mão. Geralmente, só conseguia agarrar as bêbadas.
- Sério?
- Sério... Ela tá com uma amiga. Que também é muito gata.
- É mesmo? Deixa eu conhecer...
- Só que tem uma coisa estranha.
- O quê?
- Tem um cara esquisito com elas. Um argentino...
- E?
- Não sei... É um lance bizarro... Não sei o que rola entre elas e o cara.
- Como assim?
- Peraí que você vai ver...
Os dois pegaram suas cervejas. Valberto então seguiu Alex até o andar superior da Lôca. Entraram na sala ao lado da escada, que tem uns sofás. Em um deles estava sentado o tiozinho que beijou a garota do Ibotirama. Mas ela não estava por ali. Ao lado do cara havia uma mina de olhos claros e cabelo pintado de vermelho. Ao ver Alex chegando, ela logo se levantou, indo em direção a ele e o agarrando. Enfiando a língua em sua boca.
Enquanto os dois se agarravam, Valberto notou que o coroa de preto o observava.
Ia sair andando. Mas ouviu a voz do tio.
- Ei, amigo!
"O que será que esse filho da puta quer comigo?", pensou.
- Diz aí...
O cara fez sinal para que Valberto chegasse mais perto. E disse:
- Amigo, usted e Alice estaban dançando bonito, lá embajo... Usted só precisa engordar un poco más _ dito isso, o cara deu um tapinha em seu ombro e uma risadinha estranha.
Valberto não entendeu nada. "Que coisa bizarra..." Saiu andando, enquanto o sujeito ria e Alex beijava a gatinha. "Engordar un poco más? Será que ele tá zoando o Alex?"
Antes de descer a escada, o rapaz novamente a viu. A gata do Ibotirama, que agora sabia: chamava-se Alice. Ela estava junto ao bar do andar superior. Beijando a boca de uma garota alta e gorda, tipo musa de Robert Crumb.
"É... Acho que preciso dar uma engordada mesmo..."
Resolveu pegar a fila do banheiro ao lado daquele bar. Só para ficar olhando a mina. A gorda que ela beijava também era bem jeitosa. Grandona. Curvas bacanas. A saia curta deixava à mostra um belo par de pernas tatuadas. O rabo era grande e redondo. Peitões violentos. Ainda tinha um rosto bonito. Logo começou a se imaginar trepando com as duas de uma vez.
Alice estava de costas para ele. Mas a grandona percebeu seu olhar. Com cara de safada, cochichou algo no ouvido da mina, que virou e lhe deu um sorriso.
Valberto sorriu de volta. Alice então disse algo à garota e caminhou em sua direção.
- Oi, Alice.
- Como você sabe meu nome?
- Seu namorado me falou.
- O cara que me beijou na pista?
- É...
- Ele não é meu namorado.
- Que bom...
- Do jeito que você me olha, parece um tarado...
- Você não gosta?
- Gosto sim.
- Percebi...
- Olha, gatinho. Até que você é interessante. Pena que hoje eu tô ocupada.
- Tô vendo _ disse, desviando o olhar e sorrindo com malícia para a gordinha. Esta continuava com cara de safada, olhando para eles.
- Ei, tira o olho dela... _ disse Alice.
- Gatinha, a gente podia se juntar, nós três, pra se divertir de verdade. O que acha?
Ela ficou séria.
- Já disse que eu tô ocupada. Hoje não posso.
- É uma pena...
- Deixa pra lá. A gente se vê.
Alice deu um sorrisinho, meia volta e saiu andando. Foi até o balcão, pegou a grandona pela mão e as duas desceram a escada. Valberto deu um gole de sua cerveja.
Após uma longa espera, conseguiu chegar até a latrina e dar uma mijada. Depois, voltou para o térreo. Enquanto descia a escada, viu Alex com a mina de cabelo vermelho. Estavam em um sofá da salinha ao lado. Agarrando-se. Quase trepando em público.
- É... O brother se deu bem...
Circulou por cerca de meia hora entre os malucos da Lôca. Até que ficou de saco cheio. Via várias garotas bonitas. Mas nenhuma o notava. Na pista, tocava Erasure. Para ele, era a hora chata do lugar. Não era um cara preconceituoso, mas tinha bode daquele sonzinho.
Circulou um pouco mais e acabou encostando num canto com sua cerveja, perto de uma das portas da pista. Quando terminou a lata, enfrentou de novo a multidão do bar e pegou uma dose de vodca. Voltou para o mesmo canto.
O DJ só tocava sons de FM dos anos 90. Puro lixo. Que não tinha fúria. Não acelerava o sangue. Não valia porra nenhuma. Seus pensamentos foram ficando amargos. Refletia se já não estava velho demais para aquela merda. Se valia a pena ficar ali, olhando para garotas que não o olhavam. Naquela noite, só Alice e a grandona haviam lhe dado bola. "Bom... Até que não tô tão mal assim..."
Terminou a vodca. Pegou outra. Ia voltar para o mesmo canto. Mas um casal de gays havia tomado seu lugar. Foi para outra sala do térreo, próximo à saída da casa, e encostou na parede. Perto de uma máquina de pinball e de uma estátua da Medusa.
Estava ali, bebendo sua vodca e pensando em coisas ruins, quando eles apareceram. O tio argentino vinha na frente, seguido por dois casais: Alice e a grandona, Alex e a menina do cabelo vermelho. Eles iam em direção ao caixa. Valberto virou sua vodca e foi atrás. "Não tem mais por que eu continuar aqui."
Alex notou sua aproximação.
- E aí, mano? Já tá indo?_ estava feliz, agarrado à garota.
- Pois é... Talvez eu vá na Funhouse... Ouvir uns riffs de guitarra.
- Por que você não vem com a gente? Peraí... _ virou para o tiozinho e perguntou _ Ei, Juan; meu camarada pode ir com a gente?
Só aí Alice e sua garotona crumbiana notaram que ele estava por perto. A grandona estava muito louca. Aproximou-se de Valberto e, sem mais nem menos, o agarrou e começou a beijá-lo. Um beijo daqueles longos, demorados. Quando finalmente se largaram, ela virou para Alice e falou:
- Esse gatinho beija muuuito bem...
E para o tiozinho argentino:
- Juaaaan, deixa ele ir com a gente?
Juan, com cara fechada, chegou perto, olhou Valberto no fundo dos olhos. E deu um tapinha na barriga de cerveja do rapaz, que, instintivamente, afastou-se um pouco. Depois o estrangeiro sorriu. Um sorriso estranho.
- Tá... Puede vir.
Valberto voltou a olhar para Alice. Ela estava esquisita. De cara feia.

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Virar aquela última vodca de uma vez fez com que Valberto finalmente começasse a se sentir embriagado de verdade. Na calçada, do lado de fora da Lôca, Juan pegou um celular e ligou para alguém.
Chegando perto de Alice, Valberto perguntou:
- Quem é esse cara?
- Se eu fosse você, não ia _ ela respondeu baixo.
- Por quê?
Alice virou a cara, ignorando-o. Então ele se dirigiu a Alex.
- Ei, mano. Que rola na casa desse Juan?
- Ele disse que tem skunk, haxixe e bebidas finas...
- Beleza...
Desligando o celular, Juan falou:
- A van estaba en la rua de bajo. Já tá llegando.
- Uma van vem buscar a gente?_ perguntou Valberto.
- Sí.
- Tá certo...
- Te gusta uísque?
- Sim.
- Blue Label?
- Nunca tomei.
- Vai tomar em mi casa...
- Bom...
- Uísque engorda. Usted sabia?
Não respondeu. De novo aquele papo estranho do caralho.
Pouco depois, uma van preta, de vidros fumê, estacionou em frente ao grupo. O argentino abriu a porta lateral e todos entraram. Depois sentou na frente, ao lado do motorista. Este era um negrão que, pelo tamanho das costas, devia ser um armário.
Alex e sua mina sentaram no fundo da van e logo voltaram a se agarrar. Valberto sentou junto com Alice e a grandona, que se chamava Denise. As minas começaram a se beijar. Chegando por trás de Denise, ele enfiou sua língua no meio daquele beijo. Pirou no meio das minas. Beijava. Apertava. Chupava. Mordia.
O beijo e o perfume de Alice o enlouqueciam.
Pelo espelho do pára-brisa, Juan observava tudo.

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Não demorou muito e a van parou diante de um grande portão de ferro. Numa área cheia de casarões chiques do Pacaembu, logo embaixo do cemitério do Araçá. O negrão apertou o botão de um controle. O portão abriu.
O quintal era grande. Com um belo jardim. Cercado por uma muralha que tinha, no mínimo, uns cinco metros de altura. Com arames elétricos no alto.
A van parou no meio do quintal. Juan desceu e abriu a porta lateral. Os cinco convidados saíram. Valberto olhou a fachada da mansão. Dois andares. Janelas grandes.
De repente, dois monstros surgiram. Rottweillers gigantescos e ameaçadores que saíram de trás da casa. Rosnando. Valberto estremeceu. O efeito da bebedeira até perdeu a intensidade.
Juan falou algo em espanhol. E os cães do inferno pararam e se sentaram. Continuaram a rosnar para o grupo.
- No precisan ter medo. Són mi amiguitos Tigre y León, eheheheh.... _ disse o argentino, caminhando até os cachorros e fazendo carinho neles. Os animais mantinham os olhos fixos nos visitantes. O gringo então cochicou mais um pouco com os bichos, acalmando-os, e os deixou de lado.
- Sigan-me, sigan-me. Sintan-se en su casa...
O grupo seguiu Juan até a porta da mansão, enquanto o motora partia com a van para os fundos. O hall de entrada tinha um belo lustre e uma escada de madeira, que levava ao andar superior... Tudo era decorado com estátuas, tapetes, quadros e móveis antigos que deviam valer uma fortuna.
Entraram em uma pequena sala contígua ao hall, onde havia um belíssimo bar de madeira. Com garrafas de uísque, gim, vodca, conhaque, rum, enfim... O que um homem precisa para ser realmente feliz.
Alex e sua mina, cujo nome Valberto ainda não sabia, sentaram-se num sofá. Alice e Denise em outro. Juan sentou seu rabo numa bonita poltrona de couro. Valberto perguntou onde ficava o banheiro. O gringo deu as coordenadas.
O rapaz saiu da saleta e passou por uma porta ao lado da escada do hall. Caiu em uma sala de jantar, com uma mesa enorme no centro. Atravessou a sala e entrou num corredor. Passou pela porta da cozinha e, dentro dela, viu uma velha de camisola rosa. Havia algo de sinistro nela. Afiava uma faca. Aliás, uma baita faca.
Sem ser notado pela idosa, Valberto continuou a seguir pelo corredor. Como Juan lhe instruíra, entrou na segunda porta à esquerda, depois da cozinha.
Deu uma bela mijada na privada de mármore. Na saída, em vez de voltar direto à sala, ficou admirando as estatuetas e quadros do corredor. Viu que a última porta deste estava aberta, com luz acesa. Dava numa escada que levava ao subsolo. "Deve ser um porão..." Chegou perto da porta e ouviu um barulho vindo lá debaixo.
- Posso ajudar o senhor?
Quase deu um pulo com o susto. Era o negrão da van, que se aproximou por trás, sem ele perceber. Ainda não havia visto o cara de frente. Ele devia ter uns 40 anos de idade e dois metros e pouco de altura. Era careca. Seu rosto parecia feito de pedra. Era como se tivesse saído dos quadrinhos do Frank Miller. Um personagem do Sin City. Tyson tremeria diante dele.
- Oi... Eu... Hã... Tava... Hã...
- O senhor Juan espera o senhor com os outros convidados _ a voz do cara era rouca, quase um rosnado.
- É... Valeu....
Tornou a passar pela porta da cozinha. A velha que afiava a faca não estava mais lá.

-----x------

Voltou à sala.
O pessoal tomava Johnny Walker blue label e fumava algo que tinha um cheiro muito bom. Ouviam jazz. Charlie Parker.
- Olá, mi amigo! Estaba perdido?
- É... Esse lugar é muito grande.
- Valbertão, junte-se a nós! _ disse Alex, muito louco.
Sentou-se com Alice e Denise. A gatinha do Ibotirama estava estranha, quieta, no canto do sofá. Denise, sentada entre ela e Valberto, mandava ver no blue label.
Juan encheu mais um copo de uísque.
- Hielo? _ perguntou a Valberto.
- Deixa eu tomar um cowboy primeiro. Pra experimentar...
Sorridente, o argentino lotou o copo do visitante de blue label.
Valberto bebeu o uiscão com gosto. O baseado chegou até ele.
- Skunk de Amsterdan, con haxixe de Marrocos _ apresentou Juan.
"Que doideira", pensava o rapaz. Algumas horas antes subia a Augusta sozinho, sem saber o que aconteceria naquela noite de domingo. De repente, estava na casa de um argentino maluco, bebendo uísque caro e fumando um bagulho importado. Era bom demais pra ser verdade. Passou o beck para Denise.
Alice, introspectiva, olhava para o vazio. Não fumava nem bebia.
Juan contava sua vida em portunhol. Dizia ser um famoso chef de cozinha na Argentina. Cozinhava tão bem que ficou milionário. Só preparava rangos para gente fina, da elite. Era especialista em carnes.
- Voxê tem reshtaurante? _ perguntou Alex, já começando a enrolar a língua.
- No. Jo cocino para un grupo restrito de personas.
- Quem?
- Personas muy ricas. Que gustan pratos especiales. Políticos, artistas, banqueros...
No final de seu segundo uísque, Valberto sentiu a cabeça pesar. Tudo se misturava em seu cérebro. O blue label, as vodcas, cervejas, o skunk haxixado, a voz do argentino... Matou a bebida e botou o copo em cima da mesinha em frente ao sofá.
- Quieres más?
- Não Juan, brigado...
- No quieres? Por qué?!
- Juan, já tô muito loco. Esse blue label é bom pra caralho, não sei quando vou poder tomar de novo. Mas não quero capotar e, muito menos, vomitar na sua casa...
- No te preocupes, amigo...
Insistente, Juan ia servir mais uísque ao rapaz. Mas Valberto puxou o copo.
- Não Juan, brigado. Eu sei qual é minha hora de parar. E é agora.
O argentino pareceu contrariado. Seu semblante perdeu um pouco da simpatia.
- Se no quieres más, todo bién...
Ficaram na sala por quase uma hora. Denise bebia rápido. Matou umas cinco doses de uísque. Até que levantou e perguntou onde era o banheiro. Deu alguns passos tortos, perdeu o equilíbrio e caiu no chão. Rápido, o argentino e Valberto a levantaram _ ela era pesada. De novo em pé, a garota cambaleava.
- Anselmo!!! _ gritou o argentino.
Logo apareceu o negrão.
Juan falou para ele levar a garota até o banheiro e depois, se ela quisesse, a um quarto. Com o olhar, Valberto acompanhou a saída dela, amparada por Anselmo. "Que pena... Não vai mais dar pra comer as duas juntas", pensou. Olhou para Alice, que continuava estranha. "E se essa mina continuar desse jeito, acho que não vou é comer ninguém hoje."
Voltou a sentar no sofá. Ao lado da gatinha.
- Que que você tem? _ perguntou-lhe baixinho.
- Nada _ respondeu a mina, olhando para o chão.
- Tá brava porque a Denise encheu a cara?
- Não.
- Posso te dar um beijo?
Alice tirou os olhos do chão e o encarou. Parecia triste. Ficou um tempo olhando para ele. Até lhe dar um longo beijo na boca. Os dois se agarraram com vontade.
Juan continuava a falar sem parar com Alex. Que estava cada vez mais chapado. O argentino bolou outro banza de skunk com haxixe.
Valberto parou de beijar Alice quando o beck chegou em sua mão. Enquanto dava um pega, não notou a troca de olhares entre Juan e a garota. Nem o sinal que o gringo fez para ela, com a cabeça, mandando que levasse o rapaz para fora da sala.
- Vamos prum quarto... _ sugeriu Alice, baixinho no ouvido de Valberto, assim que ele passou o baseado adiante.
- Demorou, gatinha.
Saíram da sala de mãos dadas.
Juan sorriu.

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Subiram a escada do hall. Caíram num corredor cheio de quartos. Alice o puxava pela mão. Levou-o a uma belíssima suíte. Com uma cama gigante. Ele fechou a porta. Quis trancá-la. Mas não havia chave.
Virou para Alice. Ela estava parada, de pé, ao lado da cama. Continuava com uma cara estranha. Parecia querer lhe dizer algo.
Valberto caminhou devagar até a garota. Acariciou o rosto dela.
- Valberto... Preciso te contar um negócio...
- Depois.
E começou a dar beijinhos na gatinha. Puxando-a lentamente até a cama. Tirou sua camiseta. Seu sutiã.
Os mamilos eram grandes. Não cor de rosa, como imaginara. Tinham uma cor maravilhosa. Um roxo claro e ao mesmo tempo acinzentado. Nunca vira coisa igual. E nunca chupou tanto um par de seios.
Foi uma trepada longa. Marcante. Daquelas que deixa o cara a semana inteira com um sorriso besta no rosto. Pôs em prática tudo que havia passado pela sua cabeça quando observava Alice no Ibotirama. A pele branca dela realmente tinha muitas manchinhas marrons. Chupou todas elas.
Depois do orgasmo, ficaram abraçados. Seus corpos nus coladinhos. Mas, de repente, Alice desgrudou-se dele e sentou na cama. Parecia perturbada.
- Que foi, gatinha?
- Você tem que sair daqui.
- Quê....?
- Senão você vai morrer...
Ela tremia. Havia insanidade em seu olhar.
- Quem? O quê? Que cê tá falando?
- Não adianta explicar. Você não vai acreditar, não vai entender... Mas tem que fugir daqui...
- Peraí... Que papo é esse?
- Fala baixo.
- Tá... Mas que história é essa?
Ela levantou da cama e começou a juntar as roupas de Valberto. Falava baixo, sem parar:
- Quando entrarem aqui, vão me encontrar sozinha. Vou fingir que dormi e você escapou...
- Porra, Alice. Não tô entendendo nada _ meio puto, Valberto começou a se vestir.
- Você não tem que entender porra nenhuma. Vai embora!
- E como eu saio daqui sem ninguém saber? Tem dois rottweillers gigantes lá fora.
- É verdade...
Alice voltou a se sentar na cama, pensativa. Murmurou algumas coisas para si mesma. Valberto calçou o tênis.
- Faz o seguinte... _ começou a garota, após sair do transe _ ... Vai pra cozinha... As chaves ficam todas penduradas na parede, em cima da pia. Pega a da van. A porta da cozinha dá no corredor do quintal. No fundo tá a garagem. Você vai ter que correr um pedaço até lá. Aí é só pegar a van. O controle que abre o portão tá dentro dela...
- Vou roubar a van do Juan?
- Vai.
- Mas aí eu tô fodido. Posso ser preso.
- Se você não fizer isso, vai morrer.
- E os cachorros?
- É por isso que você vai ter que correr da cozinha até a garagem.
Valberto começava a ter certeza de que Alice era completamente maluca. Nem fodendo ia correr risco de ser morto pelos rottweillers ou roubaria a van do argentino. Mas a mina olhou no fundo de seus olhos e suplicou:
- Faz o que tô dizendo. Cai fora daqui. Talvez a gente volte a se ver um dia...
- Tá bom, gatinha. Calma... Posso fazer o que cê tá pedindo. Mas tava tão bom nós dois juntinhos na cama... Você quer mesmo que eu vá embora?
- Você não entende. Por favor... É pro seu bem _ os olhos dela ficavam cada vez mais insanos. Estava desesperada.
- Tá bom.
Quando o rapaz ia se virar para sair fora, Alice o agarrou e lhe deu mais um longo beijo.
- Gosto de você. Nunca tinha gozado desse jeito antes... Agora vai... Cuidado pra ninguém te ver.
Valberto saiu do quarto.
Trocaria uma idéia com Juan. Perguntaria se Alice tinha algum distúrbio. "A mina é treze. Não tem jeito, adoro mulher transtornada..."
Do corredor do andar de cima, ele escutou o jazz baixinho. "Acho que eles ainda tão na sala." Prestes a descer a escada, porém, viu uma cena estranha.

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O negrão gigante saiu da sala carregando Alex nas costas _ uma bela demonstração de força, já que o gordão, com certeza, pesava mais de 100 quilos. Devia ter bebido até capotar.
Logo atrás vinha o argentino e a gata do Alex. Eles pararam no hall, enquanto Anselmo entrava na sala de jantar com o gordão nas costas. Quieto, Valberto olhava tudo do andar superior. Não haviam notado sua presença. Juan tinha algo na mão direita. Um pequeno embrulho de plástico transparente, com o que parecia ser um monte de pastilhas azuis, amarelas e cor de rosa. "Caralho, não dá pra ver direito, mas parece um monte de ecstasy", pensou. Provavelmente, havia quase mil balas no pacote.
O rapaz se agachou atrás do corrimão e tentou escutar o diálogo do casal.
- Aqui, mi caçadora. Más una vez, usted fez un belo trabajo.
- Brigada, Juan _, disse a mina, pegando o pacote. Tinha os olhos arregalados e tremia. Estava eufórica. Logo enfiou o saquinho na bolsa _ E a Alice?
- Alice está muy estraña. Ainda voy hablar con ela.
- Tá bom...
E os dois se beijaram na seqüência. Um beijão de língua. Depois Juan saiu com a mina pela porta da frente.
Assim que eles deixaram o hall, Valberto começou a descer a escada devagar. Foi ver onde Anselmo levava Alex. Estava confuso. Lembrava do que Alice lhe dissera. "Você vai morrer."
Passou pela sala de jantar e entrou no corredor. Caminhou até a última porta à esquerda. Aquela que levava ao subsolo. O coração começou a bater rápido e forte.
Escutou barulhos vindo lá de baixo. Resolveu descer. Degrau após degrau, a sensação ruim aumentava. Escorando na parede, chegou até uma pequena câmara escura. Uma adega. Com quatro prateleiras cheias de garrafas de vinho.
Do outro lado da adega havia mais uma porta. Aberta. Para uma sala bem maior e iluminada. Esgueirando-se pela escuridão, Valberto chegou até o canto da porta e começou a espiar. De um lado da sala havia um grande freezer. Um painelzinho digital indicava a temperatura: quatro vírgula três graus negativos.
Cauteloso, o rapaz olhou para o outro lado do cômodo. Alex estava deitado no chão, aos pés do negrão, que terminava de despi-lo. Completamente bêbado, murmurava coisas inaudíveis.
A velha de camisola rosa também estava lá. De costas para Valberto e de frente para uma mesa, sobre a qual havia uma garota grande, gorda e nua deitada. As pernas tatuadas não deixavam dúvidas. Era Denise.
A moça estava inerte. A velha fazia alguma coisa com ela. Não dava pra enxergar direito por causa da distância.
Anselmo começou a puxar uma corrente do teto até o chão. Esta passava por uma roldana. Na ponta que o negrão puxava havia uma espécie de algema, com a qual Alex foi preso pelos calcanhares. Em seguida, em mais uma demonstração de força, o gigante começou a puxar a outra extremidade da corrente. Aos poucos, Alex foi sendo suspenso pelos pés. Até ficar pendurado, de cabeça para baixo.
Segurando a corrente só com a mão esquerda _ o cara era um animal _, Anselmo ergueu a direita até a roldana e acionou uma trava. Pendurado, Alex ainda balbuciava em seus delírios de bêbado.
Nisso, a velha saiu da frente de Denise. Valberto não conseguia ver direito. Mas podia jurar que a garota estava morta. A idosa usava avental sujo de sangue e luvas de plástico. Em suas mãos, segurava o que parecia ser um monte de vísceras, que ela logo jogou em um tanque ao lado da mesa.
Foi tudo muito rápido. A velhota pegou um balde de ferro e uma faca _ devia ser a mesma que afiava na cozinha. Então caminhou até Alex e pôs o balde debaixo da cabeça dele. Com a faca, ela abriu a garganta do gordão, que começou a ter espasmos. O corpo todo tremia, enquanto o sangue jorrava do pescoço, direto para o balde. Da boca dele saía um som horrível. Parecia um porco sendo sacrificado.
Em seguida, como se fosse algo rotineiro, a velha voltou a para a mesa onde estava Denise.
Valberto estava quase vomitando. Assistia àquilo com a mão na boca e os olhos arregalados. Nisso, ouviu um barulho vindo da escada. Alguém estava descendo ao porão. Instintivamente, escondeu-se atrás de uma prateleira da adega. Por entre as garrafas, viu Juan passar e entrar na sala da carnificina.
Esperou uns segundos e voltou para o canto da porta.
Parado em frente a Alex, Juan o via sangrar. O gordo já não tinha mais espasmos. Estava morto. O argentino então deu uns tapinhas nas nádegas do cadáver, virou para Anselmo e disse:
- Amanhã teremos un gran banquete _ e caminhou até a mesa onde estava Denise.
- Essa aqui já tá limpa, Seu Juan _, disse a idosa.
- Muy bien.
O argentino então caminhou até uma prateleira em outro canto da sala e voltou com um cutelo na mão. Parou ao lado de Denise. Desferiu uns três golpes. E arremessou a cabeça da garota para o tanque. Depois fez o mesmo com as mãos e os pés dela.
Terminado o serviço, llargou o cutelo, deu mais algumas instruções à velha, apontando para o corpo de Denise, e falou para o negrão, que permanecia ali, parado como uma estátua:
- Anselmo, bamos subir ahora. Precisamos pegar o otro.
- Tem mais um, Seu Juan? _ perguntou a velha.
- Si, pero no és grande nin gordo. Só voy usar las nadegas y las coxas para hacer carpaccio. O resto voy dar a Tigre y León.
"Filho da puta, qué fazê carpaccio com meu rabo e dar o resto pros cachorros...", revoltou-se Valberto, que tornou a se esconder atrás da prateleira de vinho, esperando que o argentino e o negrão passassem pela adega.
Quando terminou de ouvir os passos dos dois escada acima. Saiu do esconderijo. Pensou em fazer o que Alice lhe dissera: Pegar a chave da van na cozinha e vazar dali o mais rápido possível. Mas, quando ia subir a escada, tomou uma decisão e voltou.
Entrou na sala da carnificina. A velha continuava a trabalhar em Denise. E não percebeu a aproximação dele. Quando o notou, ele já tinha pego o cutelo.
Com um golpe certeiro, Valberto abriu a testa da velhota. Que caiu no chão, tendo convulsões. Ele então olhou para o corpo sem cabeça de Denise. A idosa já havia retirado parte da pele da mina. Havia um buracão na barriga. Chegou mais perto do tanque e viu a cabeça e aquele monte de tripas e órgãos. Deu uma uma bela vomitada. Bem ao lado da velha agonizante.
Ficou alguns segundos sem saber o que fazer. Então pegou a faca e o cutelo. Ainda foi até a prateleira e pegou outra faca. Guardou o cutelo no bolso do casaco. Deu mais uma olhada para Alex. O sangue continuava a escorrer da garganta do mano. Mas só um filete.
Antes de sair da sala, resolveu abrir o freezer. Havia mais dois corpos grandes e gordos. Sem pele, sem mãos, sem cabeça e sem vísceras. Gado no frigorífico.
Deu mais uma vomitada.
Saiu do porão com uma faca em cada mão, disposto a enfiá-las em "Tigre y León", caso os rottweillers o alcançassem.
Quando chegou à porta da cozinha, porém, ouviu os gritos de Juan e Alice no andar superior.
- NÃAAAO!
- DONDE ÉL ESTÁ, PUTA MALDITA?
"Merda", pensou Valberto. Alice estava fodida. Eles podiam matá-la. Olhou a pia da cozinha. Como a mina falara, havia um monte de chaves na parede. "Foda-se."
Valberto foi para o hall e começou a subir a escada, ouvindo os gritos de Alice cada vez mais alto.
Chegou à porta do quarto. A menina estava no chão. Anselmo torcia o braço dela, enquanto Juan, agachado, dava-lhe tapas na cara, xingava-a e perguntava:
- DONDE ÉL ESTÁ ESCONDIDO?!
- Tô aqui, seu gringo filha da puta!

------x------

Ao vê-lo, com uma faca em cada mão, o argentino arregalou os olhos. Valberto avançou e enfiou uma das lâminas na garganta dele. O sangue começou a jorrar. Caído ao lado da cama, Juan tentava inutilmente estancá-lo com as mãos.
Depois, Valberto encarou Anselmo.
O negrão largou o braço de Denise e começou a se aproximar bem devagar, com as mãos prontas para tentar desarmá-lo. Ele foi recuando até encostar na parede. "Fodeu. É agora ou nunca", pensou. E foi para cima de Anselmo. Primeiro tentou esfaqueá-lo com a mão direita. O negrão se esquivou e agarrou seu braço. Valberto então enfiou-lhe a faca da esquerda por entre as costelas. Mas foi como se não tivesse acontecido nada.
Anselmo torceu seu braço direito até que largasse a outra faca. Em seguida, pegou o rapaz pelo pescoço e o ergueu, começando a estrangulá-lo.
A vista de Valberto estava prestes a escurecer, quando ele se lembrou do cutelo. Enfiou a mão no bolso do casaco e sacou o instrumento. Tentou acertar a cabeça de Anselmo, mas acabou atingindo o gigante entre o pescoço e o ombro.
Os braços do oponente amoleceram e o rapaz conseguiu se desvencilhar de suas mãos. Caiu no chão ainda meio sem ar. Anselmo cambaleou para trás. Valberto, meio tonto, esticou a mão até a faca que havia caído no chão. Cravou a lâmina na coxa do negro, que soltou um grunhido. A primeira demonstração de que sentia dor.
O rapaz então conseguiu se levantar e ir até Alice, pegando a mão da garota e puxando-a. Ela estava em estado de choque.
- VAMO, PORRA! ACORDA!
Ainda meio em transe, ela obedeceu. E eles saíram correndo do quarto, enquanto o negro se recompunha, arrancando as lâminas que estavam cravadas nele.
Sentado no chão, encostado na parede, Juan ainda tentava estancar o sangue de seu pescoço. Com ódio no olhar, viu Valberto e a garota deixarem o cômodo.
Logo o casal chegou à cozinha. Havia três chaves de carro na parede.
- Qual é agora, porra? _ perguntou desesperado.
- Essa _ disse Alice, apontando uma chave com o símbolo da Mitsubishi.
A hora de enfrentar os cães havia chegado. Tentando ficar calmo, ele disse à menina:
- Falta pouco. Vamos tentar sair devagar. Sem fazer barulho. Se a gente trombar os cachorros, não corre, senão vai ser pior.
Alice não respondeu. Só tremia. Suas pupilas estavam enormes. Só nessa hora Valberto se ligou que a mina estava muito louca de ecstasy. Devia ter tomado na Lôca.
- Seja o que Deus quiser _ disse o rapaz.
Procurando não fazer barulho, ele abriu a porta da cozinha. O dia já tinha amanhecido havia bastante tempo. Olhou para o corredor do quintal. Viu a van e mais dois modelos importados na garagem. Nem sinal dos cães. Foi puxando Alice. Bem devagar.
Estavam quase na metade do caminho quando ouviram o rosnado. Vinha de trás. Viraram-se e viram os cães. Ambos parados, no início do corredor, olhando fixamente para o casal e mostrando os dentes.
Alice tremia demais. Parecia que ia ter um ataque. Valberto ficou paralisado. Ele e os monstros se encaravam. Sabia que, se dessem um passo, os cães atacariam.
Foi nesse momento que Anselmo abriu a porta da cozinha. Cambaleando e sangrando, com o cutelo na mão.
Os cães devem ter ficado loucos com o cheiro do sangue do negrão. Pois assim que o gigante saiu da casa, arrastando a perna ferida pelo corredor, voaram em suas costas. Valberto aproveitou a deixa e saiu correndo, puxando Alice. Um dos rottweillers chegou deixar Anselmo de lado para correr atrás deles. Mas o rapaz conseguiu bater a porta da van a tempo de ele e a mina escaparem do animal. Enfiou a chave na ignição e deu partida. Saiu cantando os pneus. E passou por cima de Anselmo, enquanto este ainda lutava com o monstro.
Quase perdeu a direção ao atropelar o negro. Foi como se tivesse batido em um poste. Parou em frente à casa. Os cães latiam ao lado da van. Achou o controle no console do painel e apertou o botão. Os portões se abriram.
- Acabou...

------x------

- Onde você mora?
- Na Bela Cintra.
A fala de Alice era um sussurro.
- Na parte dos Jardins ou do centro?
- Um pouco pra baixo da Funhouse.
Essa foi a única conversa que tiveram na van. Depois disso, Alice só disse "é aqui", quando passavam em frente ao prédio dela. Valberto parou. Ela fez um carinho no rosto dele e desceu. O rapaz dirigiu mais uma quadra e estacionou a van.
Trancou o carro, jogou a chave num bueiro e foi andando até a rua da Consolação. No caminho do ponto de ônibus notou as manchas de sangue na camiseta e fechou o casaco para escondê-las. Viu no relógio de rua que era nove e quarenta da manhã. Dali a vinte minutos teria que entrar no trampo. "Vou inventar uma desculpa. Não dá pra trabalhar hoje."
O busão chegou rápido. Levou-o até a praça Ramos. No caminho, pensou em Alice. Não sabia se queria vê-la de novo. "A mina levava os gordos para o abate em troca de ecstasy. Que loucura..." Da praça Ramos, foi pela rua Barão de Itapetininga até a República. Quase na esquina da Ipiranga com a São João, reconheceu o hippie maluco da noite anterior. Andando na calçada com as peças de durepox embrulhadas em um pano.
Ia passar reto, mas resolveu abordar o sujeito, que não o reconheceu.
- Pois não, sangue bom?
Valberto então sacou uma nota de dez da carteira e lhe deu.
- Hoje eu pago seu almoço, irmão.
Deu um tapinha no ombro do hippie e foi embora.

23 Comments:

Anonymous Felipe said...

Muito boa história!

31 de outubro de 2008 15:22  
Blogger Sujeira Conceitual said...

MUITO BOM!
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12 de março de 2010 11:56  
Blogger Sujeira Conceitual said...

MUITO BOM!
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12 de março de 2010 11:56  
Blogger Valberto said...

É a primeira vez que sou estrela de um conto... ainda bem que me dei bem.

16 de maio de 2010 10:52  
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